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A estrada da tua felicidade não parte das pessoas e das coisas para chegar a ti; parte sempre de ti em direção aos outros. (Michel Quoist)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Minhas Lembranças





MINHAS


LEMBRANÇAS



NESTOR DE OLIVEIRA








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Todos os direitos desta Obra são reservados ao Autor.



Rua dos Cedros no- 536 – Jardim São Paulo – cep. 13465 - 000
AMERICANA – SP
- 2003 -



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PREFÁCIO

  

   Mesmo sendo autodidata Nestor de Oliveira é um grande proseador, bom conselheiro e bom escritor.
Ama a família. É ferrenho defensor da instituição família, das tradições, da religião e dos bons costumes. Sua satisfação, além de estar com a família, foi o trabalho.
Dedicou sessenta e cinco anos - com alegria, orgulho, honestidade e assiduidade – ao trabalho; e ainda hoje, quando não está escrevendo, lendo ou proseando, o seu passa-tempo é cuidar das flores e plantas, e mexer na terra envolta de sua casa.
Como ser humano (na essência da palavra) não deixa nada a desejar aos grandes vultos que estão, ou aos que já passaram, neste planeta.
Orgulho-me e sinto honrado em apresentar essas Lembranças de Nestor de Oliveira: ao idoso – ao lê-las – certamente reviverá seu passado; ao adulto – ao lê-las – poderá fazer uma análise em sua vida, o que se fez e o que ainda pode ser feito; e ao jovem – ao lê-las – terá diante de si uma seta lhe indicando um bom caminho a ser seguido.
Este trabalho é bem simples, sabemos: mas, sabemos também, é na simplicidade onde Deus mais gosta de se apresentar.
Desejo a todos uma boa leitura...


Americana, novembro de 2003                   Nestor de Oliveira Filho





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“Mesmo que não encontrem mel,
os beija-flores voltam;
pois,
como este vovô é feliz em estar no meio das flores,
também eles gostam de estarem no meio delas”


Nestor



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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

Minhas Lembranças

Nestor de Oliveira

Eu nasci no município de Rio Claro (RJ) no dia 17/04/1918, na fazenda de meus avós materno, senhor Silvino Rodrigues Soares de Oliveira (1854-05/1938) e senhora Eugênia Cândida de Oliveira (1857-12/1929). Rio Claro localiza-se no sul do Estado do Rio de Janeiro, entre as cidades de Barra Mansa e Angra dos Reis. Os meus avós paterno, senhor Zózimo Isidoro de Oliveira (11/03/1864-04/09/1939) e senhora Gertrudes Antunes de Oliveira (16/11/1867-20/10/1946), tinham um sítio de dezessete alqueires de terra no alto da serra, que tem por nome serra dos coelhos, no mesmo município. E o sítio ficava a mais de mil metros de altitude. Zózimo e Gertrudes tinham nove filhos; Zozelina (1885), Leopoldina (1887), Antônia (1889), José (1891), Ezequiel (20/04/1894-11/08/1961), Maria (1896), Vergília (1898), Antônio (1900) e Inês (1901). E meus avós materno, senhor Silvino e senhora Eugênia, tinham uma fazenda de cinqüenta alqueires, foi nesta propriedade do vovô que eu nasci. Esta se localizava em baixa altitude, e a distancia entre ambas era de dois quilômetros, porém, ambas localizavam-se à um raio de três a cinco quilômetros da cidade. Meus avós materno tiveram onze filhos, Bernardino, Avelino, Paulino, Maria, Francisco, Manoel, Leopoldina, Sebastiana (07/02/1895-26/10/1956), Jovelina (23/08/1897), Dora (que morreu, menina, com gripe espanhola) e José (o caçula).
Nessas duas famílias deu-se um fato interessante, aconteceram cinco casamentos entre as duas famílias, pois, dois filhos de Zózimo casaram com duas filhas de Silvino: sendo que José casou-se com Jovelina, e Ezequiel casou-se com Sebastiana, e, três filhos de Silvino casaram com três filhas de Zózimo: sendo Paulino com Zoselina, Manoel com Maria e José com Vergília. Das cinco famílias nasceram mais de quarenta filhos, todos netos dos mesmos avós e sobrinhos dos mesmos tios, assim sendo, eram e são 
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todos primos-irmão. Naquela época isso acontecia com certa freqüência, pois as famílias eram mais unidas. Meu pai casou-se e foi morar no sítio do seu sogro, lá eu nasci e vivi até aos três anos de idade, pode-se dizer que eu nem conhecia meus avós. Papai e mamãe (Ezequiel e Sebastiana) casaram no dia três de maio (dia de Santa Cruz) no ano de 1915 na matriz de Nossa Senhora da Piedade de Rio Claro (RJ), papai estava com um pé machucado e, por isso, foi para o seu casamento com um pé calçado de sapato e outro de chinelo. Meus bisavós por parte do meu pai eram, Joaquim de Oliveira (1839) e Leopoldina Rosch (1842), que eram pais do avô Zózimo; Mariano Antunes (1842) e Inês Gonçalves (1845), que eram pais da avó Gertrudes. Sobre meus bisavós materno não tive nenhum conhecimento.
No ano de 1921 meu avô Zózimo vendeu os seus dezessete alqueires por três contos de réis, e juntamente com quatro dessas cinco famílias que referi acima (o Paulino e a Zoselina não foram), foi morar na fazenda Boa Sorte no município de Rezende (RJ), para formar lavoura de café. O nome da fazenda era bonito (Boa Sorte), mas, meus familiares não tiveram sorte. Pois ela se situava a dezoito quilômetros da cidade, não tinha estrada boa e nem ponte sobre os rios, tudo tinha que ser levado no lombo de burros ou nos próprios ombros e a pé; ou na melhor das hipóteses (isso só fazendeiros) em carro de boi. Suas terras eram fracas e não produziram o esperado. As colheitas dos cereais não foram à altura, e muito menos as do cafezal, pois, nem no quarto e quinto ano ele produziu bem. Nesses cinco anos meu avô, que financiava seus filhos e filhas, gastou quase todo o dinheiro da venda do sítio.
Tanto o avô Zózimo como a avó Gertrudes nasceu ali em cima da serra, em Rio Claro, eles eram primos e vizinhos, o pai de Zózimo era irmão da mãe de Gertrudes. Acredito que sofreram muito por terem deixado sua terra natal. Eu acho que meu avó fez mal negócio vendendo seu sítio. Sua propriedade era num lugar privilegiado, sua terra era de cultura. Na cabeceira do sítio tinha duas pedras (morros) altas (800 mts.), e dali nascia um córrego, numa mina-d’água de primeira qualidade. Essa água ia descendo

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serra abaixo até chegar na casa da fazenda. No quintal tinha fruteiras de todas as qualidades. O solo era terra de cultura, tanto o cafezal como os cereais produziam bem. Este sítio ficava apenas três quilômetros da cidade de Rio Claro, no sul do Estado do Rio. Sendo eles muito católicos iam aos Domingos na igreja matriz participar da santa missa. Inclusive vovô Zózimo era compadre do pároco, que se chamava padre Ezequiel Magalhães. O padre Ezequiel além de ser padrinho do meu pai (Ezequiel), fez também seu batizado, seu casamento e meu batizado. Meu pai havia me registrado no cartório com o nome de Alcides. Quando foi o dia do meu batizado, o seu padrinho perguntou: afilhado Ezequiel, como se chama o teu filho? Meu pai disse: é Alcides. À esta resposta o padre ficou bravo e disse: por este nome eu não batizo, esse não é nome de santo. Meu pai insistiu, mas padre eu já registrei o menino com este nome; ele retrucou, por este nome eu não batizo. Então meu pai falou, e por Nestor o senhor batiza? Ele sorriu e disse: sim, por este nome eu batizo, pois é nome de santo. E assim o meu nome ficou sendo Nestor, e só aos dezenove anos de idade é que eu fiquei sabendo que eu era registrado com o nome de Alcides.
   - Pois bem, eu fui batizado na igreja matriz de Nossa Senhora da Piedade de Rio Claro (RJ) pelo padre Ezequiel Magalhães. Fui crismado na igreja matriz de Nossa Senhora do Rosário de Resende (RJ). Fiz a primeira comunhão na igreja matriz de Anjo São Gabriel de Jaborandí com o padre Jaime (que era pároco de Colina, e por extensão Jaborandí (SP)). Casei-me com vinte e dois anos de idade, em 21/12/1940, na igreja matriz de São José de Colina (SP), o celebrante foi o padre Amaro Muniz, este padre batizou os meus primeiros cinco filhos, e com ele eu fui congregado mariano durante cinco anos. Celebrei minhas bodas de ouro em 21/12/1990 na igreja matriz de São João Bosco de Americana, o celebrante foi o padre João Baldam -.
   E do lado da minha mãe então, quanto sofreu meus avós Silvino e Eugênia, ao verem seus filhos e netos partirem. Os dois filhos mais velhos já haviam partidos, anos atrás, para a cidade de Birigui 

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 (SP) levando esposas e filhos, e nunca mais se viram. Em 1921, de uma só vez, quatro famílias eles viram partir, sendo, dois filhos, duas noras, duas filhas, dois genros e nove netos que foram morar em Resende, cem quilômetros longe. Falando hoje, cem quilômetros são pertos, mas imagine em 1921, aquilo parecia um infinito, naquela época não tinham as condições que temos hoje. Durante os cinco anos e meio que mamãe viveu lá, só foi visitar seus pais no dia de despedir para mudar para o Estado de São Paulo, no município de Jaborandí, no ano de 1927. Imagine vocês, quanto que foi aumentando o sofrimento deste casal de idosos. No ano de 1926 um filho e uma filha com suas respectivas famílias que moravam em Rezende despediram-se deles e foram para Jaborandí (SP). Em 1927 mais uma de suas filhas, a Sebastiana, que é a minha mãe, foi com sua família para jaborandí. No ano de 1929 o terceiro filho e o décimo primeiro filho (o caçula), com suas famílias, mudaram-se da fazenda do pai e juntaram-se aos seus irmãos em Jaborandí. Ao todo foram cinco filhos, duas filhas e mais de vinte e cinco netos, que eles nunca mais viram.  Como devem ter chorado meu avô e minha avó pela ausência dos filhos e netos. Nessas partidas era como que tivessem morrido, nunca mais se veriam, como de fato nunca mais se viram.
   Ao chegar em Rezende, desembarcamos, tomamos um lanche num “reservado” e fomos a pé até a fazenda Santa Maria (nossa nova morada), a poucos quilômetros da cidade. Os “trens de casa” das cinco famílias que foram despachados de Barra Mansa para Rezende só chegariam três dias depois, porém, não quebrou nenhuma peça. Ali estava a engenhoca para moer cana-de-açúcar e fazer garapa e café. O pilão para socar ou moer os cereais, pois ainda não havia máquinas de beneficiamento (os fazendeiros tinham os monjolos e os moinhos tocados à água para socar e moer, mas os colonos não). As panelas também estavam intactas, pois eram de ferro e ou esmaltada, também os pratos e as canecas eram esmaltados. Os canecões eram feitos de lata de óleo ou de doces, com um cabo (alça) postiço. Nessa época (1921) Rezende já era uma cidade mediana, tinha bom comércio, suas ruas eram 

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calçadas com paralelepípedos, tinha o batalhão do exército, porém não havia meios de transporte além do trem. Nesta fazenda eles iam tocar roça, plantar arroz, milho e algodão, mas teve um incidente, o patrão demorou em fazer o contrato e passar o serviço, assim eles desistiram e foram embora. Moraram somente dez dias ali.
   Sabendo, na cidade, que o senhor Mário de Paula, morador da cidade do Rio e proprietário da fazenda Boa Sorte, procurava famílias para derrubar a mata e formar lavoura de café, pegaram o serviço, sem conhecer o local, e mudaram para lá. Imagine o sofrimento dessas mulheres, fazia apenas dez dias que haviam chegado de mudança e já tinham que sair. Colocaram todos os “trens” das cinco famílias em cima de um carro de boi da fazenda Boa Sorte e puseram os pés na estrada.  O carro foi cheio com a mudança, e as pessoas andando a pé. Andaram mais de dezoito quilômetros para chegar na outra fazenda, numa estrada cheia de morros, pedras, e riachos sem pontes. As pessoas eram as seguintes: o vovô Zózimo e a vovó Gertrudes, o seu filho Antonio, e o seu neto Sebastião (que foi criado por eles); o José e a Jovelina tinham a Maria, o Paulo, e o Geraldo que, pela pouca higiene naquela fazenda, faleceu dias depois; o Ezequiel e a Sebastiana tinham o Nestor (eu) e a Maria do Carmo, a Otília que era a filha mais velha havia falecido em Rio Claro, com dois anos e oito meses, vítima de lombrigueiro; o Manoel e a Maria tinham a Jovelina, a Vergília (Zizí) e o João; o José (caçula) e a Vergília tinham o Sebastião. A vovó já de idade, e as outras quatro mulheres todas com dois ou três filhos cada, exceto a tia Vergília que, com um ano de casada, tinha apenas um. Cada uma, além de uma sacola na mão, levava um filho no colo nessa longa caminhada, que durou o dia todo. Saíram de manhã e foram chegar somente à tardinha com a mudança. No percurso desta estrada, da cidade até a Boa Sorte, tinha duas casas, a do Bento, distante uns cem metros da estrada, onde cruzava com o rio do mesmo nome, e adiante a do Eufrauino que era na beira da estrada, entre o cafezal.
   Ao chegarem na fazenda, notou-se que não haviam casas

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desocupadas para eles morarem. Sendo eles empreiteiros, teriam que construírem suas próprias casas com as madeiras da mata que iam derrubar para fazer a plantação de café. Então ali perto do terreirão de secar café tinha um ranchão que, parte dele, servia de cozinha para a fazenda, onde três cozinheiras, negras, cozinhavam para sessenta camaradas ex-escravos. O administrador da fazenda, senhor Albino Aragão, deu parte daquele rancho para eles se acomodarem, e assim ficaram ao lado da cozinha todos amontoados, não sei o bem certo, mas imagino um mês. Esse seria um tempo razoável, imagino eu, para que eles pudessem cortar a madeira, transportá-la até ao local, armar as estruturas da casa, colocar as madeiras laterais à pique, enripá-la inteira do chão ao teto, cortar o sapé e cobri-la, amassar o barro e rebocá-la. – Esta construção é a tal chamada de casa de pau-a-pique -. Acredito também, que fizeram primeiro a casa do vovô e as cinco famílias mudaram juntas para ela, pois, era a casa maior e melhor de todas. Só então é que foram construir as outras. Terminada as construções, então foram derrubar a mata para a cultivação.
 - Obs: Sobre esse senhor Albino de Aragão (que era português e muito bom), soubemos no ano de 1933, quando já morávamos em Jaborandí, que no ano de 1932 durante a revolução os soldados foram fazer revista em sua casa para ver se achavam armas escondidas, porem não acharam, mas, não se contentaram. Perto da fazenda Três Marias que o senhor Albino administrava, passava um rio por nome de Sesmaria e não tinha ponte sobre ele na estrada, então obrigaram-no a ir até a beirada do rio e atravessá-los em suas costas até a outra margem do rio, um de cada vez; depois disso ainda o mataram. -
   A casa que fizeram para o vovô era melhor e maior, tinha mais cômodos; era num campo aberto, belas pastagens e mais próximo à sede da fazenda. As casas foram construídas numa distancia de duzentos metros uma da outra, assim entre a primeira e a última dava uns oitocentos metros A localização das outras quatro era num lugar bem pior. Nos fundos tinha um riachinho e depois dele era mata. Na frente tinha um grande morro (por nome de morro

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redondo), seu solo era pedregoso, em certo lugar tinha pedra cristal. No pé deste morro, num grotão, tinha uma mina d’água e também uma de pedra malacacheta. Ele era coberto por uma capoeira, e calculo que este morro media uns cem alqueires de terra. Depois da casa do vovô, distante duzentos metros, a segunda casa era do José (tio Zeca), mais cento e cinqüenta metros, a terceira, era a do Ezequiel (papai). A quarta casa que era do tio José (caçula) e tia Vergília, não pôde ser feita no mesmo distanciamento, porque ali o pé do morro era mais largo, e havia a mina de malacacheta e um barrocão; então foi construída além da barroca depois da curva do morro, longe trezentos metros da terceira e num outro alinhamento. A casa do Manoel (tio Neco) era a quinta e última, e ficava na beira da mata que depois derrubaram para formar o café, longe duzentos metros da penúltima. As casas eram distantes entre si porque cada qual tinha que ter seu próprio quintal. Este quintal era para plantar: cana-de-açúcar para fazer garapa e dessa garapa fazer o café, os chás e os doces (não usavam o açúcar como hoje); mandioca, para fazer bolos, biscoitos, quitutes e brevidades (mandioca era o maior alimento ali na ocasião); um pomar, com grande variedade de frutas; fazer um mangueirão para os porcos; e uma boa área para criar galinhas.
   O serviço de derrubada de mata é igual uma guerra, o trabalhador tem que ter cuidado e muita sorte para não se machucar. É galho seco nas copas das árvores que podem cair ao bater o machado no tronco, é cipó que segura as árvores já cortadas e podem rebentar-se a qualquer momento pegando o machadeiro desprevenido, é cobra venenosa, é aranha, etc... Também era abundante naquelas terras um tipo de coqueiro por nome de brejaúva, formavam touceiras iguais bananeiras e seus espinhos eram terríveis, as folhas secas espinhosas ficavam espalhadas pelo chão. E naquele tempo, todos, sem exceção, trabalhavam descalços. O tio José, caçula, com menos de vinte anos, casado há um ano, sentindo saudades da terra natal e dos pais, poucos meses depois, com a esposa e o filho voltou para Rio Claro morar novamente na fazenda do seu pai, meu avô Silvino.

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   Como já disse, foi muito difícil essa empreitada. O vovô Zózimo levou dinheiro, fruto da venda do sítio; com isso ele deu uma ajuda às cinco famílias no primeiro ano. Os dois anos seguintes foram remediados. Ao perceberam que no quarto ano o café não produziria e que no quinto também não prometia, e igualmente os cereais, cultivaram meio alqueire de terra e plantaram mandioca. Foi este mandiocal, e um canavial plantado ao lado das casas que os livrou de fazerem dívidas. Além de comerem mandioca com melado de cana, farinha e brevidades de polvilho, ainda vendiam na cidade. Para isso construíram um aparelho para fazer farinha e polvilho. Cada família tinha o seu dia certo na semana para fazer farinha. Lembro-me como se fosse hoje; papai ia ao mandiocal, arrancava as raízes, colocava-as num balaio, punha-o nos ombros e levava para casa numa distância de mil metros. Chegando em casa ele raspava a primeira casca e lavava as mandiocas. Depois naquele aparelho, através de uma manivela, papai girava o ralador (era uma grande roda com ralos) e a mamãe segurava as raízes de mandioca nos ralos. Após a mandioca ralada, era colocada no tipiti (uma espécie de jacá, bojudo, que eles faziam de taquara), travava a prensa e deixava escorrendo para escoar a água e separar o polvilho. No outro dia cedo tirava a prensa, dava umas pancadas no tipiti para voltar ao seu formato, pegava aquela massa, quase seca, passava na peneira para esfarelar, colocava-a num tacho quente e com duas pás jogando-a para cima longo secava, e com um rodinho de madeira ia mexendo-a para lá e para cá, em poucos minutos estava torrada. Lembro-me que papai ia todos os sábados vender farinha e polvilho na cidade, algumas vezes levava também frangos e ovos. Eu, dos seis até aos nove anos de idade, jamais deixei um dia sequer de acompanhar meu pai nesses sábados. Ele levava vinte litros de farinha e os frangos e ovos, e eu levava cinco litros de polvilho. Caminhávamos o dia inteiro. De estrada eram trinta e seis quilômetros; eu com sete anos, não sei como acompanhava meu pai, pois ele andava rápido fora do comum, todos o admiravam. Ao entrar na cidade já no primeiro bairro tinha uma freguesa por nome de América, essa

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mulher, alem de comprar farinhas todas as vezes, ainda, depois de pagar o papai, ia na cozinha e trazia duas canecas de leite, uma para mim e a outra pro papai. Essa senhora de bom coração era irmã do senhor Licínio de Carvalho que tinha fazenda em Jaborandí. Saíamos da casa da dona América e parávamos no armazém da dona Emília, que era sua irmã e também comprava; era neste armazém que os Oliveira faziam suas compras, pois tinham bons créditos. Dali íamos para a casa do nosso patrão, um sobrado alto e bonito, papai batia palmas, o senhor Mário de Paula abria a janela do quarto lá em cima, e perguntava: o que você tem de bom aí; o papai respondia: tenho farinha de mandioca bem torradinha, polvilho, frangos e ovos. Nisso, enquanto a empregada descia para pegar a encomenda com o meu pai, lá de cima ele jogava uma moeda de um tostão e dizia: pega aí menino, essa é pra você, a moeda batia no chão e eu pegava-a no pulo. Ai meu pai falava, vamos à padaria do Seo Lupércio, que é padrinho da Carmelina, lá comíamos pão quente e doce; saíamos e entravamos na igreja, depois de rezar íamos ao armazém do Morel, ali papai comprava fumo e aviamentos (munição) para espingarda. Missão cumprida, papai me falava, agora vamos pisar quente que já é tarde. Quase na saída da cidade ele ainda comprava dois pães de duzentos reis, mandava passar manteiga e embrulhar, ai nós pisávamos quente na estrada. Ao chegarmos no meio da jornada parávamos numa sombra de árvore e, depois de comer os pães, continuávamos a caminhada, chegando em casa no escurecer.
   A fazenda Boa Sorte devia ter uns dois mil alqueires de terra, imagino eu. Sua topografia era razoavelmente boa, havia morros, mas, não alto demais, mesmo esses morros, eram cultiváveis ou serviam de pasto para o gado. Havia na fazenda grandes valos feitos pelos escravos antes da abolição, medindo 3mts de largura por 2mts de fundo e muito longo de comprimento. Antigamente eram os valos que marcavam as divisas das propriedades, não havia cercas como hoje. Três coisas ali impressionavam a minha cabecinha de criança: esses enormes valos, as carreiras de bambu, que eram quilométricas, plantadas nas divisas das fazendas e um

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enorme açude. Com a água daquele açude era gerada toda força-motriz daquela enorme propriedade. A água caía sobre uma grande roda-d’água que girava um eixo com engrenagem, polias e correias, e nesse mecanismo estavam acoplados, o moinho de fubá; o monjolo; o engenho de pinga, melado e açúcar escuro; a moenda de mandioca para fazer farinha e polvilho; e um dínamo para gerar energia elétrica para iluminar o casarão da fazenda. O proprietário senhor Mário de Paula morava na cidade do Rio de Janeiro e passava somente o verão em Rezende, assim longe dos olhos do patrão a fazenda ficava um pouco abandonada. Daqueles ex-escravos que citei acima, os casados moravam com a família em casinhas de pau-a-pique, já os solteiros moravam na senzala, todos juntos. Havia à trinta e três anos acabado a escravidão no Brasil, mas na fazenda Boa Sorte não. Aqueles negros não recebiam salários e comiam, todos juntos, daquela comida da fazenda que as três cozinheiras negras faziam. A ração resumia nisso: feijão preto, no lugar do arroz era canjiquinha de milho (uma espécie de quirera); e como mistura era: mandioca, cará, abóbora (verde ou madura) e um angu de fubá. Eles sujeitavam essa escravidão porque não conseguiam serviços em outras fazendas, por serem ex-escravos. Havia um armazém na fazenda onde os colonos faziam suas compras mensais e só pagavam no fim do ano, mas tinha poucas mercadorias e com preços elevadíssimo, era ali a diversão daqueles negros, eles passavam o fim de semana em volta do armazém tomando cachaça e pitando cigarro de palha com fumo de corda que os colonos pagavam para eles. Nós, os Oliveira, por sermos empreiteiros éramos independentes, então não éramos obrigados a comprar neste armazém, além do mais, tínhamos créditos na cidade, assim comprávamos onde queríamos.
   O local onde construímos nossa colônia era um pouco separado daquela enorme fazenda, era bem distante da colônia grande e chamava-se fazendinha. Para mim este local tinha um mistério, acho que essa parte da fazenda que estava separada e abandonada era fruto de brigas por território, e quem tomou posse pode até ter matado a família inteira do então proprietário; ou então, o antigo

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proprietário pode ter contraído uma grande doença, como a peste, e ter dizimado a família inteira. Olhem os fatos que me levaram a pensar nisso: ao lado da casa construída para o papai tinha um pé de pitanga muito velho, era altíssima, e seu tronco muito grosso – posteriormente essa árvore serviu como poleiros das galinhas da mamãe-, do outro lado uma enorme touceira de bambus. Uns cinco metros acima, no meio do matagal, tinha um alicerce velho de uma casa grande, suas paredes foram construídas até a altura de um metro, apenas. Perto do alicerce passava um caminho fundo, muito velho, onde passavam os carros de boi que iam buscar os cereais nas lavouras dos Oliveira. Um pouco mais para cima, já no início do morro que me referi acima, bem em frente a nossa casa, haviam quatro sepulturas velhas. Eu era um menino de nove anos e meio, mas, me lembro bem, tinha um quadrado de pedras em volta de cada uma delas. O que fazia a gente desconfiar do mistério era o fato de essa “fazendinha” a três quilômetros de distância da sede da fazenda e as coincidência que haviam. Por exemplo: aquela enorme pitangueira, aquele alicerce parado há muitos anos, as quatro sepulturas no mato, a touceira de bambu, e ainda logo adiante tinha um enorme valo, largo, fundo e comprido, parecendo ser neste local a divisa daquela propriedade. Lembro-me que este valo era perto da casa do tio Neco, e que o tio Zeca plantou uma carreira de bananeiras dentro dele, essas bananeiras produziam cachos enormes, fora do comum. O local era feio, mas para quem gostava de caçar igual o meu pai, aquilo era um paraíso. Ali tinha muitas matas virgens. O papai não deixava sua espingarda em casa um só dia, onde estava a sua ferramenta de trabalho na lavoura, lá estaria a sua espingarda. A qualquer momento que ele escutasse um jacu, um nhambu guaçu, ou qualquer tipo de caça, ele deixava a enxada no eito, pegava a espingarda e saia atrás procurando. Logo ele voltava com a caça na mão e dizia: já tem mistura para amanhã. Naquela floresta tinha todo tipo de caça e pesca; tais como, capivara, cotia, paca, quati, tatu, queixada, onça, tamanduá, jaguatirica, esquilo, macaco, pomba do ar, juriti, margosa, codorna, nhambu guaçu, nhambu chitã, nhambu chororó, rolinhas,

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jacu, paturi, pavão, surucuá etc., e muito peixe nos rios.
   Quando, no primeiro ano de plantação, o milho que era plantado entre as ruas do café começou a secar, os macacos e os porcos do mato (queixada) fizeram a festa no meio do milharal. Os animais vinham pela mata do cafundó e entravam na cabeceira da lavoura e ali devoravam tudo. Os roceiros os espantavam, mas não adiantava, pois eram ariscos, fugiam pra mata e logo voltavam. Assim sendo, meu avô com seus filhos e genros combinaram uma caçada para pegá-los. - No meio de uma lavoura nova, sempre sobram alguns troncos das árvores que foram derrubadas, e desses troncos nascem galhos novos e alguns são deixados para servir de sombra para os trabalhadores -. Cada um pegou uma arma e cada qual ficou em cima de um toco escondido. Meu avô levou uma baioneta (que tinha sido usada na guerra contra o Paraguai) encabada num cabo de enxada, como uma foice. O papai, o tio Zeca e o tio Neco levaram espingarda e o tio José que, já era casado mas, tinha apenas dezoito anos e era o caçula do vovô Silvino, não tinha experiência com arma de fogo, então os irmãos mandaram ele levar uma foice, pois se levasse uma arma de fogo poderia errar a pontaria e acertar um deles. Ates do anoitecer foram para a roça e se esconderam, cada qual em seu lugar. Após o crepúsculo veio a escuridão, tudo ali era silêncio, que só era quebrado pelo cantar de grilos, curiangos, corujas, e aqueles gritos assombradores dos urutáuros. Tem coruja que quando grita, em noite escura, dá para arrepiar os cabelos. Nessas alturas o tio José, mocinho novo, já estava tremendo de medo. Quando foi lá pelas oito da noite os porcos vieram, calcularam que tinha mais de cem porcos na vara. Foram derrubando os pés de milho e comendo as espigas, só se ouvia o estralejar dos dentes. Os que tinham espingarda procuravam vê-los, mas não conseguiam, pois a escuridão era intensa. Não viam se a espingarda estava no ponto de mira para puxar o gatilho. Passados dez minutos os porcos perceberam, pelo faro, que havia pessoas por ali e enervaram, começando a assoprar e bater os dentes com mais intensidade. Um dos queixada começou esfregar e morder no tronco que estava o tio José (caçula), ele com

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muito medo deu um grito e uma foiçada no escuro que deixou os porcos mais bravos ainda. Aí é que a coisa ficou feia, os porcos endoidaram-se e rodearam todos em volta daqueles tocos, grunhindo, batendo os dentes e mordendo o que achavam pela frente, fizeram um arraso no milharal. Nisso o papai e o tio Zeca deram dois tiros a esmo (um cada espingarda) para espantá-los, e assim os queixadas foram devagar se afastando e adentraram na mata. Passaram um medo terrível, pois se alguém tivesse caído do toco não sobraria nem ossos para levar para o cemitério. Somente depois de vinte minutos é que sentiram seguros e puderam descer do esconderijo. Ficaram todos de perna mole, não conseguiam parar de pé, uns davam gargalhadas, outros choravam de nervosos, mas todos queriam dar um tapa no caçula, José; só não conseguiram porque o vovô interveio. Portanto, para não perder grande parte da safra, colheram o milho meio verde e puseram espalhado no terreiro para acabar de secar, e só depois guardá-lo no paiol.
   Terminado o primeiro ano do contrato o tio José (o caçula) voltou com a tia Virgília para Rio Claro, foi morar novamente na fazenda de seu pai. Quem continuou com a sua empreita foi uma família estranha, e também ocupou a casa que ele deixou na colônia. No quarto ano em que moravam na fazenda Boa Sorte o tio Antonio (que era o caçula do vovô Zózimo) namorou uma moça chamada Maria, moradora da fazenda, mas minha avó não consentia o casamento, então por este motivo ele terminou o namoro e, também, deixou a casa dos pais, foi morar e trabalhar em Jaborandí na casa de uns amigos, que também eram de Resende.
   Após um ano de trabalho em Jaborandí, ele foi visitar seus pais em Resende e contou tantas vantagens da nova terra que deixou todo mundo entusiasmado; e como haviam terminado o contrato, o tio Zeca, o tio Neco e o vovô Zózimo mudaram para Jaborandí, no mês 9/1926. Somente a família do meu pai continuou morando lá.
   Antes de fixar residência em Jaborandí, meu avô Zózimo morou por pouco tempo em Aparecida (SP). Por serem muito

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religiosos, tanto meu avô Zózimo Isidoro quanto minha avó Gertrudes, quiseram parar nesta cidade, e lá moraram alguns meses. Meus avós acreditavam que estando em Aparecida, estariam mais em contato com Deus, queriam participar das santas missas todos os dias, e Aparecida era e é o lugar ideal, pois lá é a capital religiosa e a sede da Padroeira do Brasil. Tudo o que eles queriam tinha em Aparecida, só não contavam com a saudade dos filhos e dos netos, que começou amargurar seus corações, então seguiram viagem em frente e se juntaram com os filhos em Jaborandí. Nesse espaço de tempo, em que morou em Aparecida, meu avô comprou um pequeno hotel e começou a trabalhar. Mas, por ele não ser do ramo, logo precisou vendê-lo, pois, os negócios não iam bem.
   Eu nunca soube porque o papai não quis mudar com os irmãos, naquele ano para Jaborandí, e, sim, ficar sozinho naquele lugar deserto. No meu pensar só uma coisa justifica. É que lá tinha caça abundante e o papai era um caçador inveterado. Aquilo estava no sangue. – Mesmo na velhice, aqui no Estado de São Paulo, ele caçava, e o mais interessante, caçava até onde não tinha caça -. Papai havia feito um contrato com a fazenda Boa Sorte para plantar cana-de-açúcar. Já havia cercado o terreno e preparado a terra, ele estava animado. Eu havia completado nove anos, e tinha três irmãos mais novos. Hoje eu imagino naqueles meses que ficamos ali sozinhos morando, o quanto que mamãe deve ter sofrido sentindo a falta dos parentes, a colônia ficou deserta, como a casa que o vovô saiu era melhor e maior, então mudamos para ela, as outras ficaram vazias, exceto a do tio José, nela morava uma família estranha. Passados seis meses que estávamos sozinhos, uma família que morava na colônia grande ia de mudança para Jaborandí. O pai deste rapaz já morava em Jaborandí e foi buscá-lo também. Meu avô sabendo disso mandou, por intermédio deste senhor, uma carta para o meu pai, que, ao lê-la, mudou completamente de opinião, e rompeu o contrato no meio do ano. No outro dia bem cedo começou a debulhar o milho para vender, e falou para a mamãe: nós vamos para Rio Claro despedir dos

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parentes, de seu pai, de sua mãe, e vamos mudar para Colina ou Jaborandí em São Paulo. Eu era criança, porém percebi que a mamãe ficou alegre em sair daquele lugar, e ir passear na casa de seus pais e revê-los depois de seis anos. E percebi também que, dias depois, ela entristeceu-se, pois, ao mesmo tempo em que iria revê-los, iria também se despedir deles, agora ia de mudança para muito longe, ia para outro estado e ficar setecentos quilômetros distante, esta seria a última vez à vê-los, era uma despedida mesmo; como de fato o foi.
   Como já disse; eu nasci na fazenda dos meus avós materno Sr. Silvino e Sa. Eugênia, mas lá vivi somente até aos três anos, por isso tinha poucas lembranças deles, somente agora com nove anos que, de fato, eu vim a conhecê-los, portanto foi a primeira e a última vez que os revi. Nesta viagem permanecemos quinze dias na casa do vovô Silvino, me lembro que vi minha avó muito velha e cansada, não tanto pela idade e sim pelo sofrimento. Inquieta ela sentava-se e levantava-se constantemente de um banquinho que havia na cozinha, e não falava com ninguém. Acredito que ela havera ter a tal de depressão, mas naqueles tempos ninguém conhecia essa tal doença. Eu posso até afirmar, com convicção, que era mesmo depressão, pois, ela tinha criado dez filhos e só três estavam perto dela, os outros sete haviam partidos para longe. Dois foram em 1916 para Birigui (SP) e cinco haviam ido em 1921 para Resende, e agora esses mesmos cinco foram para Jaborandí (SP). E com os sete filhos também foram os seus queridos netinhos, que ela jamais os veriam.
   Dois anos após essa despedida, isso no ano de 1929, ela faleceu com setenta e dois anos de idade. Pela distância e pelas condições daquela época seus filhos não puderam ir ao seu enterro; e nem no do vovô Silvino, nove anos depois. O vovô ficou viúvo com setenta e cinco anos de idade, depois de todo esse sofrimento com a ausência dos filhos, e agora sem a esposa, para não sofrer muito com a solidão, casou-se com a empregada da casa, e, com ela, teve mais dois filhos. Um desses meninos faleceu logo e o outro se foi embora com sua mãe após a morte do meu avô em 1938, e nunca mais soubemos dele.

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   Eu infelizmente não tive o gosto de conversar, abraçar, conhecer melhor, pedir a benção e ser abençoado com e pelos meus avós materno. Como era difícil naquelas épocas! Veja, um casal que tinha um sítio de cinqüenta alqueires de terra, criado dez filhos, e terem somente três filhos morando com eles. Como foi grande o sofrimento deles: a maior parte dos netos eles não conheceram e nem os netos à eles; não havia a fácil locomoção como hoje. Veja como são diferentes os caminho das pessoas, eu, por exemplo, nesse aspecto, tive mais sorte que meus avós. Não tive sítio e nem fazenda, mas, todos os meus oito filhos são casados, saíram de casa, mas moram todos perto de mim. Hoje (15/05/2003), na minha família, somos em cinqüenta e duas pessoas e todos moram pertos.
   Nesta viagem a Rio Claro para dar a despedida, passamos também por Barra Mansa, para despedir do tio Nico e tia Nica, irmã do papai, e lá permanecemos por três dias, pois naquele final de semana casavam duas de suas filhas, Antonia e Maria. O tio Nico morava em seu sítio ha alguns quilômetros da cidade, como chegamos em Barra Mansa no cair da tarde e se fôssemos direto para a fazenda, a pé, chegaríamos tarde da noite, então papai procurou pela casa de um tal de Pedro de Amorim, que era seu colega e rio-clarense. Seu Pedro morava ao lado da linha férrea, e justamente onde as duas se cruzavam. A linha que ia de São Paulo para Rio e a que vinha de Minas Gerais para Angra dos Reis. A primeira passava em nível ladeando as margens do rio Paraíba do Sul. A outra passava sobre uma ponte grande e alta, cruzando por cima, tanto o rio como a outra linha. Por azar nosso, havia chegado um parente do seu Pedro e ia também passar a noite ali. Colocaram colchões no chão pela casa inteira, mas com a movimentação e os apitos dos trens (o de São Paulo passava de meia em meia hora), nas duas linhas, e por esse senhor estar com gripe e tosse, não dormiu e nem deixou ninguém dormir. Assim passamos a noite e no dia seguinte, cedo, fomos a pé para o sítio do tio. Na sua propriedade tinha um cafezal e um canavial muito bom. Tinha um engenho com três moendas que era girado através de dois cavalos e ficava dentro de um barracão. Seu sítio era num lugar alto e

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bonito, dele se avistava um grande horizonte. O casamento das suas filhas foi assim. Logo após um gostoso almoço foram para a igreja na cidade. As duas noivas e as mulheres saíram andando na frente, e os dois noivos e os homens foram atrás, todos a pé. Alguns homens ajudavam os noivos levarem os dois baús com as roupas das noivas, cada um da sua noiva respectivamente. Lembro-me que da casa onde estava eu os vi, ao voltarem casados, quando apareceram na curva do caminho, os quatro noivos na frente e os convidados cantando e festejando atrás. Depois houve uma festa muito boa e baile. -Quando os noivos eram ricos fazendeiros iam para a igreja de trole ou montados em cavalos, a noiva ia sentada de lado nos arreios -. Somente na segunda feira é que fomos propriamente para Rio Claro.
   Depois de quinze dias, que estávamos na casa do vovô, felizes, alegres, matando a saudade, despedimos dos parentes e voltamos para Resende. E no dia combinado com o senhor Miguel, partimos de mudança para São Paulo. Saímos de casa cedo, pois teríamos de andar dezoito quilômetros da fazenda até Resende. Meu pai me entregou num pacote a espingarda, que ele havia desmontado, embrulhada num jornal e disse: tome esta espingarda, leve-a com cuidado e só separe dela quando chegarmos em Jaborandí. Além de levar meu irmão João no ventre, mamãe carregava no colo o José e puxava pela mão a Carmelina. Eu com nove e a Maria do Carmo com sete anos andávamos ao lado dela, e o papai carregava duas malas cheias de roupas. Como era de costume todas as vezes que íamos à cidade, também nesta, paramos no último córrego próximo à cidade para lavar os pés e calçar, pois era comum andarmos descalços e levar os calçados pendurados nos ombros até a entrada da cidade. Chegamos na estação e o seu Miguel já estava nos esperando, acompanhado com a família do seu filho José de Almeida, nora Rita, neto José, uma menina chamada Ruth que era filha de criação, e junto também foi a moça Elisa que era irmã do, hoje (falecido), sogro do meu cunhado João Pires de Oliveira. Essa moça foi morar na casa de um tio em Jaborandí. Tomamos um lanche e embarcamos para S. Paulo. Quando o trem estava

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chegando em Queluz (SP), é que o seu Miguel percebeu que havia esquecido sua mala na estação de Resende. Sendo ele um homem traquejado, não se afobou, disse para o papai e pro seu filho, vocês seguem em frente e parem na estação de Aparecida e me esperem. Eu desembarco aqui em Queluz, tomo o trem para Resende, apanho minha mala na estação e retorno num outro trem, e reencontro com vocês em Aparecida. Lá, reembarcaremos novamente num outro trem e seguiremos a viagem até a capital de São Paulo. E assim foi feito.
   Chegamos em São Paulo na estação do Brás, e fomos de subúrbio até a estação da Luz. O subúrbio estava lotado como sardinha na lata, as mulheres precisaram viajar em pé. Nos solavancos daquele trem, que mais parecia um carro de boi, minha mãe e a dona Rita caíam; aquela multidão dava gargalhada e a dona Rita virou uma jararaca, queria bater em todos aqueles homens.  Chegamos na estação da Luz já era tarde da noite, imagine, eu, um menino do meio do mato dentro da estação da Luz à noite, aquilo era um fim de mundo. Lembro que nós naquela enorme plataforma da estação esperando o trem não suportávamos o barulho e os movimentos dos outros trens fazendo manobras, e alguns partindo, era um barulho terrível. Após quinze horas de viagem eu, cansado, via dali da plataforma os carros que cruzavam passando por cima da estação através dos viadutos, seus faróis batiam em meu rosto que embaralhava toda minha visão, além do barulho dos apitos dos trens e buzinadas dos carros, era uma coisa arrepiante.
   Depois de longa espera chegou o trem, para o qual havíamos comprado as passagens. Este trem era enorme (muitos vagões), seus vagões eram de madeira e a máquina era tocada a fogo (a tal maria-fumaça). Saia fumaça e faísca por todos os lados. O trem estava cheio igual sardinha na lata, viajamos aquele resto de noite inteirinho e chegamos em Colina (SP) logo depois do almoço. O tio Zeca e o tio Antonio nos esperavam na estação. De Colina para Jaborandí fomos de caminhão. O motorista Antonio de Faria que foi contratado para levarmos até Jaborandí, tinha um pequeno

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caminhão, seus pneus eram maciço, não tinham ar, o caminhão era duro como o carro-de-boi. Este motorista não tinha muita experiência, pois colocou algumas cadeiras no caminhão para que as senhoras viajassem sentadas. Porém não amarrou as cadeiras na carroçaria, deixando-as soltas. Depois de muito esforço as cinco mulheres subiram no caminhão e sentaram nas cadeiras, mas, não ficaram mais que um minuto sentadas nelas. O caminhão saiu da estação e quando foi virar para pegar a avenida que há em frente, indo para o lado do bar do Guido Brait, as cadeiras deslizaram e não ficou uma só mulher em cima. A minha mãe e a dona Rita caíram deitadas dentro do caminhão. A dona Rita ficou tão brava, xingou o motorista, e não queria mais ir de caminhão, dizia que ia a pé. Só então é que arrumaram alguns panos, estenderam no assoalho da carroçaria e as senhoras foram sentadas nos panos.
   Chegamos na fazenda do Licínio Carvalho, em Jaborandí, e ficamos três dias na casa do vovô Zózimo. A cidade de Jaborandí era pequenina como a de Rio Claro. O vovô e os tios Zeca e Neco moravam ali já havia um ano, e arrumaram serviço para o papai na fazenda São José, propriedade do senhor Amauri Nogueira, filho do Nho Moço, a uma distância de dois quilômetros uma da outra, e, da cidade. A terra da fazenda do Licínio, no bairro União, era branca e arenosa, mas a da fazenda São José do Amauri Nogueira, era vermelha, poeirenta, deixava uma sujeira no corpo e na roupa, que só com água não lavava, era preciso sabão forte. Esta fazenda do Amauri tinha uns cento e dez alqueires, e era parte da grande fazenda Jaborandi do senhor Teotônio Nogueira (Nho Moço), que havia sido desmembrada e dada ao filho como parte da herança. No ano de 1927 o patrão roçou vinte e cinco alqueires de capoeira, num antigo pasto, e formou café. O papai pegou oitocentos pés novos para formar e três mil pés do café velho (tinha sete anos) para cultivar. O patrão deu uma casinha de tábua com três cômodos pequenos para nós morar. Deu-nos também uns caibros, umas tábuas e pregos para fazermos os móveis. O tio Zeca, sendo um bom carpinteiro, e com a ajuda o papai serraram aquelas madeiras e construíram os móveis. Fizeram duas mesas, alguns

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bancos para sentar, a prateleira para guardar os utensílios da cozinha e as tarimbas (camas). As tarimbas eram assim: fincavam quatro pedaços de madeira no chão (o piso das casas era de terra), pregavam duas travessas, colocavam as tábuas, e em cima colocavam os colchões que eram cheios de palha de milho. A casa tinha três cômodos, a sala e a cozinha, pequenos, o quarto um pouco maior ,mas ficou pequeno pois, precisou pôr três tarimbas; a dos meus pais, a das meninas e a minha. Quando eu completei doze anos fui dormir na cozinha - meu pai fez dois cavaletes pra por as tábuas em cima - e com isso piorou ainda mais para minha mãe, porque todas as noites ela tinha que armar a minha cama, e todas as manhãs desarmá-la; pegava o colchão, as tábuas e os cavaletes e punha-os encostados no canto da cozinha, atrás da porta. Moramos tanto tempo ali, mas nunca sobrou um tostão para o papai comprar objetos para casa. Foi difícil morar ali, porque na família éramos em oito pessoas; além da casa ser pequena ainda não tinha cisterna para apanharmos água potável. Nós pegávamos água em um buraco, feito, na beira do córrego; essa água era praticamente do córrego, mas não era corrente. Acontece que essa água estava contaminada e fez mal para a família inteira. A Maria do Carmo adoeceu com hepatite, o papai ficou muito tempo com problemas intestinais e as crianças ficaram anêmicas. O meu pai tinha que resolver o problema, então ele foi conversar com o Amauri, seu patrão, e este lhe autorizou a fazer um poço no quintal perto de casa. Eu tinha dez anos e me lembro que quem furou esse poço foi o mesmo que trouxe a nossa mudança, o senhor Antonio de Faria. Ele fez a cisterna e colocou o caixão de madeira; não sei quem foi que pagou, se o patrão ou papai, pois havia alguns fazendeiros miseráveis. Nessa colônia tinha cinco casas, e só a nossa tinha poço perto da casa, as outras quatro apanhavam água no buraco ao lado do rio. Moramos oito anos nesta colônia, e lembro que aquelas quatro famílias continuaram fazendo buracos na beira do rio e pegando água lá.
   A única vantagem que vi em ter mudado da fazenda Boa Sorte (RJ) para a fazenda do Amauri (SP), foi a distância que ficavam da

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cidade. Enquanto que, em Resende era de dezoito, em Jaborandi é de dois quilômetros apenas e estrada melhor. Da nossa casa escutávamos o barulho da cidade. A lavoura de café divisava com o perímetro urbano; e por ser tão perto, quando havia um funeral de uma pessoa rica, ou importante, ou muito querida no município, a banda musical acompanhava-o tocando aqueles dobrados tristes, mas muito bonito, e nós, do meio do cafezal, ouvindo as músicas ficávamos sabendo que havia falecido uma pessoa importante naquele dia.
   Se nós, quando chegamos de mudança na estação de Colina, em vez de termos idos às direitas até Jaborandi - onde a terra é roxa e as grandes fazendas eram recém-colonizadas, na maior parte, pelos próprios ex-escravos, havendo grande miséria - tivéssemos ido para as esquerdas no município de Colina, divisando com Monte Azul, Severínia, ou até de Barretos - onde as terras são brancas, havia mais sítios, e as fazendas eram colonizadas, quase na sua totalidade, pelos povos europeus (português, italiano e espanhol) e não havia miséria – não teríamos sofrido tanto. Embora devo ressaltar que, um dos grandes causadores daquele sofrimento foi a crise financeira, mundial, em 1929 e que durou alguns anos. A crise atingiu em cheio a lavoura cafeeira, ninguém queria café nem de graça. E para complicar, em 1930 Getúlio Vargas que tinha perdido a eleição para presidente do Brasil se rebelou e deu um golpe de estado, depondo o vencedor, o então presidente Wasingthon Luiz do palácio da república e tomou o poder. Em 1932 houve a revolução constitucionalista, mais um agravante. Nessa época papai e mamãe tinham cinco filhos, um dia de serviço do papai para a fazenda, o patrão lhe pagava apenas quatro mil reis, enquanto que uma lata de banha de apenas dois quilos custava oito mil reis, banha esta que tinha água misturada para aumentar o peso, e quando mamãe fazia fritura a banha espirava pela cozinha inteira. Vejam a disparidade, papai precisava trabalhar dois dias para comprar dois quilos de banha. Nessa época da crise os colonos não recebiam em dinheiro, o patrão dava uma ordem 

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(requisição) com um valor xis, o empregado só podia comprar aquele tanto, e, num armazém pré-determinado. Sendo assim não tinha escolha, teria que comprar ali, mesmo que fosse mais caro.
   Na revolução de 32 os rapazes na idade militar não dormiam mais em casa, pegavam travesseiros e cobertas e iam dormir no meio do cafezal, porque os Junqueira (fazendeiros) anunciaram que iam denunciar os rapazes para serem levados para o porto Cemitério a fim de abrirem picadas na mata e enfrentarem os combatentes mineiros e baianos que estavam chegando no rio Grande onde iam atravessar para São Paulo através daquele porto. Nesse tempo aconteceu um fato engraçado, se eu não me engano foi no dia 09/07/1932, estando eles escondidos no rancho no meio do café, e o frio estava de rachar, todos acordados viram que na estrada que passava em frente a colônia um movimento intenso de carros, foi a noite inteira passando carros com seus faróis acesos. Os rapazes escondidos cochichavam, ainda bem que escondemos cedo, senão eles nos pegariam e mandavam-nos o porto Cemitério. Os carros daquela época eram o Ford 29 (Ford bigode) e o Chevrolet, que tinha um porta-mala grande e ressaltado atrás. Nesse tempo não havia boa comunicação, as notícias chegavam com muito atraso. Tremendo de medo aqueles rapazes não dormiram naquela noite, e na manhã do outro dia também não voltaram para casa, temendo coisas piores. Aconteceu que, os mineiros e os baianos haviam adentrado ao estado de São Paulo e vinham rumo à Rio Preto e à Barretos. Quando os tubarões de Barretos souberam da notícia pegaram suas famílias e com seus carros fugiram para as fazendas onde tinham parentes ou conhecidos, e como Jaborandi não tem estrada de ferro, foi lá que os barretenses escolheram para se esconderem. - Só depois que raiou o sol é que foram avisar os rapazes o que de fato havia acontecido a noite -. E nesse dia, inteiro, passou trens de hora em hora na estação de Colina levando mineiros e baianos que desembarcavam na estação da Luz em São Paulo, pois a revolução havia terminado após São Paulo ter se entregado. É, portanto, por vários motivos que sofremos em Jaborandi.

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   Nessa fazenda do Amauri tinha dois mangueirões grandes para criar porcos, mas só para a fazenda, os colonos não podiam ter mangueirão e não podiam criar. Também tinha pastos bons para o gado, mas os colonos não podiam ter uma só vaca no pasto para dar leite aos filhos. Como eu disse acima, por ser colonizada por ex-escravos e por eles não terem experiência, não havia pés de frutas nas casas da colônia, só havia fruteiras na casa do patrão e dentro do mangueirão. Então nós íamos pegar frutas dentro do mangueirão, mas, nem essas eram nos dada, pois o camarada da fazenda gritava lá do chiqueiro: Sumam daqui cambada de moleques atrevidos. Estão morrendo de fome? Não vê que as frutas (goiaba, manga, laranja, lima, jaca, fruta-do-conde) são para os porcos! Nunca conseguimos roubar uma só fruta daquele mangueirão. Aí eu pensava na minha terra natal, Rio Claro, quantas frutas, quanta fartura tinha lá. Pensava nas matas que vinham até perto de casa, nas fruteiras, nos parentes morando juntos, no barulho que ouvia da mata, no cantar dos passarinhos, as risadas dos jacus, os urros dos bugios, os gritos dos urutáuros e das corujas; e no brejo no fundo dos quintais eu ouvia a saracura três-pote cantar assim: quebrou três pote, quebrou três pote, quebrou três pote, pote, pote, pote. Esse cantar da saracura, na madrugada, ficou gravado na minha cabeça até hoje, e também o cantar da juriti, da jacutinga, do sabiá-laranjeira, do pássaro-preto, do tiziu, do gavião cauã etc... .
   O senhor Amauri tinha quatro filhos estudando em São Carlos, e eles só iam nas férias para casa. Na fazenda tinha um pequeno engenho tocado a tração animal que fazia somente pinga. Depois ele construiu um maior tocado a energia elétrica – eu trabalhei na construção deste engenho – este além de fabricar mais pinga, também fabricava açúcar. Fez um terreirão cimentado para secar café. Tinha uma fabrica de fazer farinha de mandioca. Algumas vezes no ano ele vendia porcos gordos para o frigorífico Anglo de Barretos (o caminhão saia lotado). Das suas vacas leiteiras ele vendia todos os dias dois tambores grandes, de leite, que eram levados para a cidade de Jaborandí para desnatar, o creme de nata

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ficava na desnatadeira, o soro desnatado voltava nos tambores para a fazenda e ele dava para os porcos de seva. Este patrão, mesmo vendo a miséria que imperava naquelas pobres famílias, preferia dar as frutas e o leite para os porcos, mas não dava e nem vendia para os colonos. O seu Amauri até que era bom para conversar com os empregados, porém, sua mulher era um pouco brava com nós molecada, com nossos pais ela era mais amena. Naquele tempo, com a crise de 1929, havia muita miséria naquela fazenda.
– Em 1927 meu pai tinha trinta e um anos; o senhor Amauri trinta e dois, ele era um homem claro de olhos azuis, e era natural de Rezende (RJ), porém, isso, eu só soube há poucos anos -.
   Nós moramos oito anos ali. Nossa casa era a primeira da colônia, distante apenas cem metros da casa do patrão; e em todo esse tempo, a menos que eu não saiba, eu nunca vi a patroa andar aqueles cem metros para conhecer e conversar com mamãe. Mamãe era pobre, mas era gente. Mamãe fazia todo o serviço de casa e ainda trabalhava na roça, às vezes ia trabalhar para a fazenda, cortando cana. Mas mamãe era uma senhora sábia, filha de fazendeiro, bem educada, na vida e na religião, ia aos domingos à missa na igreja matriz de São Gabriel, a mesma igreja que ia a patroa, e mesmo assim nunca a dona Zilica achegou-se em minha mãe para conversar e desejar-lhe um bom dia; perguntar o seu nome, onde você nasceu, está tudo bem, os seus filhos tem saúde? Não, nunca ela fez isso. (Posso até estar errado, mas foi isso que ficou na minha mente).
   Como já disse, a casa que moramos no Amauri era pequena, ela media no máximo trinta metros quadrados divididos em três cômodos, ou seja; sala, quarto e cozinha, construída em tábuas e seu piso era de terra. Também disse que em 1927 éramos em seis pessoas, porém com o passar dos anos a família foi aumentando, de forma que daí cinco anos éramos em nove na família e a casa continuou no mesmo tamanho. Aqui eu vou fazer uma comparação um pouco sinistra, mas verdadeira: as casas dos colonos eram piores do que os chiqueiros de seva dos porcos do nosso patrão, pois, o chiqueiro de seva tinha mais de cem metros quadrados,

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uma construção primorosa, boa cobertura, bom assoalho, repartição para banho de sol, água fresca e limpinha, abóbora, frutas, leite desnatado e milho a vontade, limpeza todos os dias. Em suma, para os porcos (animais) tudo, para os homens (humano) nada.
   Nós moramos nesta fazenda de 1927 até 1935, porém eu já trabalhava na roça desde os seis anos de idade lá em Rio Claro, não tive boa infância. Trabalhava o dia inteiro, e à noite, cansado, sentava num banco duro de madeira para estudar, tinha uma mesinha feita com tábuas de caixão de querosene para escrever e por a lamparina do lado. A fumaça da lamparina vinha no meu rosto e ardiam os meus olhos. E o meu professor era o meu próprio pai; sabem por quê? Primeiro porque não havia escolas na fazenda, segundo porque como já disse acima, além de meus avós serem proprietários de terras, eram pessoas cultas, eu nasci num berço de famílias cultas. Meu pai tinha um primo que era professor na cidade do Rio de Janeiro e este rapaz ia sempre passear na casa do meu avô em Rio Claro (RJ) e passava as férias também lá, e nessas idas ele ministrava aulas para os parentes, meu pai soube aproveitar a chance e aprendeu muito bem a leitura e a escrita. Com esse seu conhecimento, além de dar aulas para os filhos, meu pai ensinava também as outras crianças da colônia.
   Aos doze anos eu, certo Domingo, chegando à igreja para participar da santa missa, avistei ao lado da igreja um circo, e o nome deste circo era Nova Yorque. Tinha uns cartazes grandes mostrando bem no alto o trapézio, e no trapézio um artista lá em cima de pernas para cima; tinha também um carro chevrolet com cinco pessoas dentro sendo puxado por um palhaço através de seus cabelos. Eu fiquei com uma vontade, louca, de ver o espetáculo. Participamos da missa, fomos pra casa e logo depois do almoço eu fui falar com meu pai que queria ver aquele espetáculo. Papai disse: mas de que jeito? Não temos um tostão em casa! Entristeci-me, baixei a cabeça e quase chorei. Mamãe viu minha tristeza e pediu para o papai vender um saco de milho e com o dinheiro levar-me ao circo. Papai retrucou dizendo: você não sabe que com


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essa crise ninguém quer milho nem de graça? Mas como o coração de mãe sente e enxerga longe, ela insistiu: o compadre Pelegrini é comprador de milho para o frigorífico Anglo de Barretos, quem sabe você falando com ele, ele entenderá nossa situação e compra o milho nosso. Papai foi e conversou com o compadre que - depois de reclamar da situação (tinha muito milho estocado), mas para que o menino não ficasse doente – comprou dois sacos de milho por cinco mil reis; sendo que meu pai tinha que debulhar ensacar e levar na casa dele. Com o negócio feito fomos pra casa debulhar o milho. Pusemos as espigas amontoadas num canto da cozinha, e o papai com uma mão de pilão deu umas cacetadas, depois terminamos de debulhar com as mãos. Ensacamos e o papai pos nas costas e levou meio saco de cada vez, a uma distância de um quilômetro. À noite fomos no circo e gastamos os cinco mil reis com o ingresso, e eu fiquei feliz da vida. Trabalhamos oito anos nessa fazenda e nunca juntamos dinheiro, tudo que ganhava dava somente para a comida. Quando precisava de remédio, roupa ou calçado, tinha que se valer de coisas extras como; vender galinhas, alguns sacos de milho, tinha que se virar. Em 1927 Jaborandí era pequeno, deveria ter uns quinze mil habitantes entre o urbano e o rural, mas todos os anos havia assassinato. Na pequena Jaborandi tinha uma boa banda musical e bom time de futebol. Na minha idade de catorze a dezessete anos joguei futebol na fazenda que eu morava, ainda hoje me lembro os nomes dos jogadores; 1- Fábio; 2- Voni; 3- Jesus; 4- Germano; 5- Otavio; 6- Nenzio; 7- Geraldo; 8- Faustino; 9- Nenê; 10- Luiz; 11- Nestor. Nossa faixa etária era praticamente igual, com poucas diferenças. - Hoje, eu com oitenta e cinco anos, fico pensando onde estarão esses colegas, que de 1932 a 1935 jogávamos na fazenda Jaborandí. Como eu ficaria feliz, se encontrasse pelo menos um daquela turma para conversar e matar a saudade daquele tempo bom. Eu sei que há muito tempo já morreram uns, como o Nenzio, o Nenê, o Luiz, mas, deve ter outros vivos pois, como eu, terão oitenta e cinco anos.
   Quando chegamos de mudança na fazenda do Amauri, morava lá uma família italiana, era o Sr. Antonio Cônsolo e a dona Adélia,

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mas o seo Antonio não estava em casa, por motivo de doença (suas pernas incharam, fora do comum, e marejava água, não houve médico para curá-lo) ele estava em Cascalho, distrito de Cordeirópolis (SP), fazendo tratamento com um famoso padre, pároco, da igreja Nossa Senhora da Assunção, deste distrito. Passado um mês ele voltou, e um ano depois ele faleceu. Eles estavam bem de vida, tinha uma vaca, uma novilha, cavalo, porcos, e morando naquela colônia de misérias, de ex-escravos, não quiseram ficar mais ali e mudaram para a colônia do Moço, foi lá que ele morreu. - Antes essa família morava em Araras (SP) -. Durante esse ano (de doença) a dona Adélia teve uma menina que foi batizada pelo nome de Ana, e meus pais foram seus padrinhos. Coitada da dona Adélia; logo que perdeu o esposo o seu filho Olímpio foi morar na casa da sua avó na cidade de Olímpia (SP). O Agostinho que era o filho mais velho não era muito certo, não cuidava bem da mãe. Os filhos mais novos, o João e o José, não havia quem agüentasse aqueles moleques, ela perdeu o sossego de tantas reclamações contra eles. A dona Adélia deve ter ficado santa por tanto sofrimento. Após tudo isso, ainda, sua filha por nome Izolina era noiva de um rapaz (casariam logo) que o raio matou. Mas a Izolina já estava grávida e deu à luz uma menina. Envergonhada, ela também deixou a mãe e foi morar na cidade de São Paulo, como precisava trabalhar para criar a filha, levou consigo a Ana sua irmã caçula para cuidar do neném. Coitada da dona Adélia ficou só com o Agostinho e os dois arteiros, ela trabalhava na roça de sol-a-sol, só quando escurecia é que ela voltava para casa trazendo um feixe de lenha na cabeça para fazer fogo no fogão e preparar a janta.
   Aqui vou contar um fato impressionante que aconteceu com meu pai. Era uma noite de sexta-feira e seu compadre o senhor Antonio Cônsolo estava muito mal; papai pôs o chapéu, pegou o cassete e foi visitar o doente. Sua casa ficava noutra fazenda a seiscentos metros da nossa. Na hora de voltar para casa, papai desejou-lhe boa saúde, despediu-se e saiu na escuridão. – Saindo da casa tinha cem metros numa descida para chegar no córrego,

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passando a ponte mais sessenta metros tinha um pulador, do outro lado do pulador tinha uma colônia de casas de tábua e vinte metros após o pulador tinha uma capelinha, aí seguindo a direita tinha mais trezentos metros para chegar em casa, e nesse trecho tinha uma porteira -.  Papai andou uns trinta metros rumo ao córrego e notou uma luz na capelinha, notou também que vinha em seu encontro um bando de cachorros latindo correndo atrás de alguma coisa, não sabia o quê, pois a escuridão era intensa. Ao desviar para dar passagem aos animais ele descuidou e caiu num buraco fundo tal qual sua altura, quando ele olha para cima vê na boca do buraco um bicho preto, grande, que dava roncos de fazer medo, no desespero ele deu um grito e uma bordoada, não acertou, mas o bicho foi embora roncando. Passado o susto ele saiu do buraco e foi descendo olhando aquela luz na capela, quando deu por fé estava entrando dentro d’água no rio, retornou no caminho certo e passou sobre a ponte. Andou mais cinqüenta metros e passou o pulador, mais alguns metros passou pela capelinha e seguiu às direita (aqui que o problema aumentou). Ao pegar essa reta ele percebeu que vinha um vaga-lume atrás dele numa distância de dez metros, nessas alturas ele já estava desconfiado, pois o vaga-lume nem passava ele e nem ficava para trás, seguia sempre na mesma distância. A porteira que ele ia passar tinha tábuas largas, então papai pensou: quem sabe ele bate na tábua e vai para outras bandas. Porém, depois de passar a porteira, o papai olhou para trás e viu a luzinha atravessar entre as tábuas e continuou lhe seguindo. Depois da porteira era a colônia e nossa casa era a última. Na roça alguns tinham o costume de sair pela porta da cozinha e não fechar com a tramela, somente amarrar com uma tira de pano; então ele pensou: eu vou pelos fundos e o vaga-lume passa reto, vai lá pro lado da casa da fazenda. Do canto da casa até a porta da cozinha tinha cinco metros de distância, quando, ao começar abrir a porta, ele olha para trás e vê o vaga-lume que chegou e parou ao seu lado, nisso deu-lhe um nervoso e ele disse: você esta querendo entrar na minha casa? Vou te mostrar já! E deu varais bordoadas de cassete, mas não acertou nem uma. Com isso o vaga-lume

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 apagou e desapareceu. E ele não entendeu o mistério. Passado alguns dias, conversando sobre isso, seu colega falou que o papai não devia ter batido naquilo porque, sendo o senhor um homem muito religioso, vinha de uma boa ação, a noite estava escura, foi a partir da igreja que a luz começou te acompanhar e foi até a porta da sua casa, estava na cara que era um anjo que te acompanhava e estava iluminando seu caminho.
   Lembro-me também que certa vez nós precisávamos comprar roupas, tanto para a roça como para irmos à missa nos domingos. Para isso papai vendeu vários sacos de milho, com essa venda arrecadou cinqüenta mil réis. No sábado seguinte papai, eu e o negrinho apelidado de Controlo fomos a pé para a cidade de Colina. Papai levou os cinqüenta mil, quanto ao Controlo não sei quanto levou. Saímos às cinco horas da manhã, após andarmos doze quilômetros chegamos em Colina e fomos direto para a Casa São Domingos, grande estabelecimento de secos, molhados, armarinhos, tecidos, enfim; naquela época as lojas vendiam de tudo, não eram especificadas como hoje. Com aqueles cinqüenta mil réis papai comprou um enorme pacote de roupas que mal conseguiu levá-lo nas costas para casa. O Controlo também comprou. E após andarmos pela cidade, visitar a Matriz de São José e tomarmos um lanche reforçado num bar, pusemos os pés na estrada e partimos de volta com aquela carga nas costas, chegamos em casa às três horas da tarde.
   Todos os lugares que papai ia, ele me chamava e eu topava, e com isso andávamos muito, qualquer lugar que fôssemos íamos a pé. Também era costume sempre sair de madrugada, por exemplo, cinco horas da manhã. Certo dia fomos passear na casa do tio Paulino que havia se mudado para a fazenda Santo Antonio no município de Terra Roxa (SP). Para esse passeio ele convidou também o Benedito Inácio, rapaz esse, que se dizia ser primo do papai; mas o papai falava que era primo de criação, pois além dele ter o sobrenome diferente ainda era de raça negra. Saímos às cinco horas da matina e caminhamos um bom tempo no escuro entre a lavoura de café do senhor Amauri, atravessamos o pasto e saímos

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na estrada que ligava Jaborandi à Terra Roxa na altura da fazenda do João Marino. E perna para quem tem, pisamos na estrada. Passamos na fazenda Palmeiras, e antes de chegar na divisa com a fazenda Aparecida largamos a estrada e seguimos à esquerda, andamos um quilômetro e chegamos no rio Palmeiras. Ali tinha uma usina hidrelétrica e o nome da fazenda era Itaporã, seu proprietário era o senhor Guilherme de Moura Andrade. A Itaporã era uma das fazendas mais bonita e organizada que existia no Estado de São Paulo; juntamente com as fazendas Guarani e Piratininga, do senhor Auro de Moura Andrade, no município de Bebedouro (SP). – Uns diziam que esses dois Moura Andrade eram parentes, outros diziam que não -. Dali da usina até chegar na sede da fazenda andamos cinco quilômetros. Continuamos andando e chegamos na fazenda Santa Cruz, também do Moura Andrade, só após esta e que chegamos na fazenda Santo Antonio. Ali visitamos o tio Paulino e sua família, almoçamos, e quando foi à tarde saímos de volta, chegando em casa de noite. Naquele dia andamos quarenta quilômetros, vinte na ida e vinte na volta, e eu tinha apenas treze anos. Fui criado na maior pobreza, mas para mim não tinha e não tem tempo ruim, por ser o mais velho de uma família de oito irmãos, comecei a trabalhar de enxada com apenas seis anos de idade e por conseqüência ajudei o papai criá-los quase todos. Eu cheguei em Jaborandí com nove anos de idade (em 1927) e saí com dezessete, mas me lembro quase todos os nomes dos comerciantes da época, na cidade, que por sinal a maior parte era entre sírios, libaneses e turcos. Das lojas eram, Calixto, Felipe, Faridi, Alexandre Chubaci, José Chubaci, José Salomão, Alfredo Salim. Das padarias eram o Camilo Azuri e o José Salomão. Armazém tinha o Tite, o Zeca Matias, o João Augusto, o Salvador Brinquinho. Farmácias tinham duas, a do Alexandre Borges e a do Alexandre de Melo. Tinha duas sapatarias, uma igreja, um campo de futebol. Em 1927, na minha visão de menino de nove anos, era mais ou menos assim o comércio de Jaborandí.
   - A fazenda Jaborandí, que já me referi acima, era enorme e o seu proprietário era o senhor Teotônio Nogueira (mais conhecido

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por Nhô Moço), era parte dessa fazenda as terras que foram doadas para formação do Patrimônio de São Gabriel de Jaborandí, ela faz divisa com a cidade. Como seu proprietário era mais conhecido pelo apelido, também a fazenda era conhecida pelo mesmo apelido, toda referencia informal que era dada a ela, era como fazenda do ‘Moço’. Esse costume já vinha desde os primórdios da colonização do município, pois sendo ela formada desde o início com mão de obra escrava – na época da colonização o senhor Teodoro era jovem, e os pretos velhos tinham por costume chamar os patrões jovens de Sinhô Moço e Sinhá Moça ou Sinhazinha – então esse apelido perdurou mesmo depois de velho porque, mesmo em 1930 após tantos anos da lei Áurea, ainda a mão trabalhadora da fazenda era formada por oitenta por cento desses descendentes de escravos, e na realidade viviam praticamente como escravos. Esses “ex-escravos” eram quase cem famílias, trabalhavam a troco da roupa, comida, fumo e pinga. Eles chegavam da roça, em vez de irem para casa iam para o engenho, lá eles iam ao tonel de pinga enchiam as canecas e ficavam bebendo, pitando e conversando até tarde da noite, só depois é que iriam para suas casas -.
   Agora em 1935 eu estava com dezessete anos e a Maria do Carmo com dezesseis, então falamos pro papai: vamos embora daqui, aqui não trabalhamos mais, não conseguimos juntar um tostão. Passado uns dias papai saiu cedo de casa e Deus o acompanhou. Ele foi procurar serviço na maior fazenda que havia no município de Colina, a fazenda Mandaguari e achou, foi contratado para tocar cinco mil pés de café, o seu proprietário era o senhor Coronel Luciano de Mello Nogueira, essa propriedade tinha um milhão e dezessete mil pés de café. Por ser muito grande, esta fazenda era dividida em secções; nós fomos morar e trabalhar na secção da Boa Esperança e quem administrava a Boa Esperança era o senhor Durval Nogueira, filho do Coronel Luciano. (Luciano de Melo Nogueira era primo do Antonio Teodoro de Melo Nogueira, mas, entre as duas fazendas havia uma diferença, como, da água para o vinho).

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   Passado alguns dias papai foi acertar as contas na fazenda com o senhor Amauri. Após os cálculos e algumas conversas meu pai voltou para casa com duzentos e cinqüenta réis no bolso, e era só. Também o vovô Zózimo acertou conta com senhor Amauri e se mudou. Nesse acerto o patrão disse para meu avô: o senhor está devendo quatrocentos réis para a fazenda, aí meu avô disse: o pior é que eu não tenho nenhum réis para poder te pagar. E assim – como se diz na gíria - saiu da fazenda com uma mão na frente e outra atrás. Imagine uma pessoa trabalhar oito anos numa fazenda e não ter onde cair “morto”.
   No dia marcado o patrão da fazenda Mandaguari, sabendo que nossa família era grande, mandou dois carroções de quatro rodas buscar nossa mudança, só que a mudança que nós tínhamos coube em apenas meio carroção, um carroção voltou vazio. Terminado de carregar a mudança na carroça, os dois crioulos carroceiros queriam tomar uma pinga. Então o papai abriu a mala de roupas e pegou os duzentos e cinqüenta réis, do acerto de contas com a fazenda, e deu aos dois que, indo ao engenho, compraram um litro de pinga e tomaram todo. Só então é que montamos nas carroças e partimos de mudança para a Mandaguari sem nenhum tostão no bolso, mas com fé e coragem, e Deus na frente.
   Agora sim podíamos dizer que tínhamos saído do inferno e entrado no céu, pois na fazenda Mandaguari, secção da Boa Esperança tudo era melhor, tal como; o patrão, os colonos moradores, as colônias, as casas, a lavoura, a terra era mais branca e numa melhor localização. Na Boa Esperança tinha a casa do fiscal e duas colônias grandes, uma de cada lado do riozinho, e só morava gente boa ali. Para nós que saímos de uma casinha ruim de três cômodos e entramos numa casa com todos os confortos, grande, boa, com três quartos, sala cozinha e dispensa. No quintal então, ficamos admirados ao vermos batata doce por todos os lados, cachos de banana nanica e maçã no ponto de colher, muita fruteiras, terreiro grande. A fartura ali era tanta que a família que saiu da casa em que entramos nem colheu as frutas, as batatas e as bananas. Tinha um grande mangueirão com quarenta e nove

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alqueires que servia para os porcos, as vacas, os cavalos, todos os animais. Era um tropel de animais, porque todos os colonos tinham muitas cabeças de porcos e também vacas e cavalos. Perto da colônia onde os porcos batiam mais, tinha capim margoso e guanxuma branca, no resto era só capim gordura. Algumas famílias mais desatentas não fechavam no chiqueiro a porca preste a parir, então quando sentiam falta dela esperavam de três a quatro dias, ai ela aparecia, eles a fechavam para tratá-la durante três horas. Ao soltá-la ela saia correndo desesperada para dar de mamar aos leitõezinhos, então seu dono corria atrás para encontrar a ninhada e trazer para o chiqueiro. Quem nunca viu um ninho de porca não acredita, mas é muito bonito. Quando é no chiqueiro, ela pega todas as palhas de milho que há e faz o ninho. Quando é solta no mangueirão ela amontoa todo tipo de capim e mato que encontrar por perto e entra debaixo. Ali, escondida, ela pari e os leitões ficam protegidos contra ataques de predadores e moscas varejeiras, pois se uma mosca desovar no umbigo do leitão e ele não for tratado, formará uma bicheira que o levará a morte.
   Foi ali na fazenda Mandaguari que começamos, de fato, a nossa vida no Estado de São Paulo. O Coronel Luciano e a Mandaguari eram a mãe dos pobres. Por ser muito grande (tinha sete colônias grande na fazenda, tais como: Boa Esperança, Nova Olinda, Santa Cruz, Grão de Bico, do Sapo, do Mercadinho e Vermelha) e seu proprietário ser homem bom, a fazenda Mandaguari acolhia famílias do Brasil inteiro, não descriminava ninguém, porém, nem sempre era correspondida, pois havia no meio desses, “os falsos colonos” e com isso ela era prejudicada - um exemplo disso foi uma grande parte da lavoura que margeava a estrada de Colina a Jaborandí, pois criou tanta praga (graminha) naquele solo que foi preciso arrancar os pés de café daquela parte da lavoura. Foi na secção da Boa Esperança que eu passei a minha melhor parte da juventude, onde comecei ter bons amigos. Nesta fazenda tinha umas quinze famílias que já moravam há quinze ou vinte anos nela e estavam muito bem financeiramente, e, que tempos depois mudaram para a cidade em Colina e implantaram seus próprios

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negócios. Lembro-me de algumas famílias; Luiz Basso, Túlio Basso, o Tiéia, José Filomeno, José Flor, Jerônimo Flor, Benedito Flor, João Pimentel, José Moleiro, Luiz Preto, Paulo Catizani, Antonio Catizani, Joaquim André, Manoel André, Benedito Caboclo, Sebastião Frauzino etc...
   No primeiro ano as nossas tabelas de café não eram boas, mas o patrão deixou plantar duas covas de milho em cada vão de pé de café, assim a colheita do cereal compensou a baixa safra do café. No ano seguinte a fazenda separou uma pequena parte do cafezal que era ruim, mandou arrancá-lo para fazer roça ou pasto, assim ficou cem por cento boa sua lavoura cafeeira. Ai melhorou ainda mais a nossa situação financeira, pois o café produziu muito bem. Também neste ano o patrão mandou roçar uma capoeira de lixa, terra de primeira, e dessa gleba nós pegamos uma quarta de terra pra plantar, a terra era tão boa que colhemos vinte sacos de feijão mulatinho (especial) e muitos carros de milho (especial), só não me lembro quantos foram. Mas tiveram alguns inconvenientes também nessa roça, tais como; os tocos de lixas eram demais, brotavam rapidamente e tinham que serem cortados, havia muitos buracos de tatus, tinha muitas cobras cascavel, precisávamos de todos os cuidados para trabalhar naquela roça, mas graças a Deus nada de mal aconteceu. Pensem bem, nós, que havíamos vendido nossas terras no Rio onde vivíamos razoavelmente bem, ter passado oito anos no município de Jaborandí quase passando fome, e agora nesta fartura, parecia que estamos no céu. Já neste segundo ano o papai começou a comprar os móveis e utensílios para a casa (cama, mesa, cadeira, guarda-roupa); comprou também um cavalo. No ano seguinte ele comprou um outro cavalo, e o nome deste era Branco. O Branco era meio doido, queixudo, só queria disparar na correria, diziam que ele foi cavalo de boiadeiro, por isso que ele não tinha paciência. Certo dia eu fui ao pasto pegar esse cavalo para passear. Como era de costume, todos os dias eu montava para levá-lo para casa, nesse dia eu fiz o mesmo. Amarrei a corda no pescoço do cavalo, fiz uma volta na corda em volta de seu focinho (focinheira) e montei em pêlo, no seu lombo.

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Mas, nem bem tinha me assentado ele saiu na carreira, morro abaixo, não havia nada que o fizesse parar, porém, de repente ele saiu do caminho e subiu um barranco, e ao descer eu deslizei e fui parar em seu pescoço, nisso com uma chacoalhada ele me jogou no chão no meio da estrada e parou em cima de mim. Passado dois meses eu estava passando a carpideira no café com esse cavalo, já havia trabalhado dois dias seguidos, no terceiro o sol estava muito quente, quando deu meio-dia eu desarreie-o da carpideira e vinha montado para casa para dar água e tratá-lo. Quando num repente, no meio da caminhada, ele empinou e deu uma boleada e caiu, nisso eu já estava no chão, não sei de que lado eu caí, só sei que ele quase caiu em cima de mim. Ainda deitado no chão deu-lhe uma tremenda tremedeira, mas logo se pôs de pé e saiu numa carreira que parecia mais uma corrida na raia, também saí correndo, mas cheguei bem depois em casa.
   A data da fundação da Paróquia de São José, de Colina, é 30/07/1918, mesmo ano em que nasci 17/04/1918. Antes, neste mesmo lugar, havia uma capelinha construída com madeiras. Conta-se que no ano de 1918 houve uma grande geada na região de Colina. Foi devastadora sobre a lavoura cafeeira. Naquela noite, o Cel. Luciano de Mello Nogueira (grande produtor de café) fez uma promessa: Se a sua lavoura de café não fosse devastada pela geada, ele ajudaria construir de alvenaria uma outra igreja bem maior, no local da capela de madeira. Notou-se que seu cafezal foi o que menos sofreu com a geada naquela região. E assim ele cumpriu sua promessa, sendo o maior contribuinte financeiro para a construção desta grande e bela igreja, num total de 15:739$000. , mais os 10 contos de réis do sino. O sino desta Matriz é um dos mais belos que existe no interior paulista, jamais foi encontrado um de igual sonoridade e valor. Seu peso está calculado em 750 quilos. Mede 1,00x1,10m de altura e boca. Mesmo à grande distância, suas badaladas são ouvidas nitidamente, cujo som grave traz lembranças dos tempos da infância. O sino principal foi fundido em bronze e um outro metal (um quilo deste), a fim de


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aumentar a sonoridade do mesmo. O preço total deste sino foi de 10 contos de réis, incluindo sua instalação. Seu doador, também, foi o Cel. Luciano de Mello Nogueira.
   A fazenda Mandaguari tinha uma parte de invernada que ia desde a sede da fazenda até a estação ferroviária de Mandembo, em Bebedouro (SP). Certa noite a sirene da fazenda (essa sirene, dependendo o lado do vento, era ouvida há vinte quilômetros de distância) tocou nos chamando para ir apagar um fogo na mata perto de Mandembo. Ao menos um de cada família tinha que ir. Andamos a pé dois quilômetros da Boa Esperança até a sede, lá colocamos as ferramentas no assoalho do caminhão e subimos em cima, nossos pés iam ao meio das enxadas, enxadões, foices, machados, um perigo danado. Pegamos a estrada Colina / Bebedouro (naquele tempo não tinha asfalto, era só buraco na estrada), lembro-me que chegamos em Mandembo o trem das oito da noite estava parado na estação, entramos no mato e trabalhamos até a meia noite para apagar o fogo. Apagar fogo na mata é um perigo, lá tem de tudo, cobra, escorpião, aranha, galho seco com fogo que pode à qualquer hora cair em cima da gente e muito mais. A mata incendiada parecia uma cidade iluminada. Nesta vez eu ainda era solteiro, mas, dezesseis anos mais tarde quando eu morava na fazenda Monte Belo, e o meu patrão senhor Henrique Paro tinha um mil e cinqüenta alqueires de terra neste mesmo lugar, ou seja, perto da estação de Mandembo, voltei novamente combater outro fogo.
   Na Boa Esperança acontecia pouco baile, então nós colegas combinávamos e íamos à fazenda São Joaquim, pois lá tinha um bom salão com bailes freqüentes aos sábados. A distância era de cinco quilômetros, andando pelo meio do cafezal, lá ficávamos até meia noite e retornávamos, porém, antes de ir para casa parávamos na casa dos irmãos Joaquim e Manoel Inácio que eram solteiros, não tinham mais pai e mãe, e eram bons violeiros. A casa era grande e no quintal tinha muitas bananeiras. Primeiro nós íamos à cozinha tomar chá e comer bananas, depois na sala eles riscavam as violas, cantavam e nós outros num grande sapateado fazia a

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poeira levantar. Daí duas horas íamos dormir. Às seis horas da manhã do Domingo eu me levantava, tomava um café preto e ia com meus pais participar da missa das sete, regressando antes do meio-dia para casa. À tarde eu ia jogar futebol, muitas vezes quando o jogo era numa fazenda distante, voltávamos lá pelas nove horas da noite, aí era só dormir para no outro dia de madrugada ir pra lavoura. A estrada para ir da colônia da Boa Esperança até a sede da fazenda, que é a Mandaguari, tinha dois quilômetros de distancia, esse trecho era um pasto rapado onde ficava a tropa de burros da fazenda. Na beira dessa estrada o patrão cercou uns quinhentos metros quadrados e plantou flores e folhagens, era uma maravilha. Cinqüenta metros distante dali tinha um murundu, e neste morro fincaram um cruzeiro e, que por sinal era muito bonito, todas as semanas ali tinha reza do terço e cumprimento de promessas. Noventa por cento dos moradores da fazenda éramos católicos e gostávamos demais de rezar neste cruzeiro. A Pina Basso é quem puxava o terço, e todos os jovens, moços e moças, íamos nessa reza. A fazenda Mandaguari tinha um bom time de futebol, o campo era às margens da estrada Colina / Jaborandí. Em 1938 a minha irmã Maria do Carmo casou com o Benedito Gomes de Souza e foram morar na fazenda da Cava, quase divisando com Monte Azul Paulista.
   Quando o coronel Luciano repartiu a fazenda para os filhos, esta fazenda entrou em decadência e por isso precisamos procurar um outro lugar para morar e trabalhar.
   No dia seis de outubro do ano de 1939 mudamos para a fazenda São Francisco do Turvo (colônia do Tobias), da viúva do senhor Martiminiano Dinís Junqueira, no mesmo município. Eu já conhecia o Turvo, havia ido várias vezes lá jogar, a passeio, e muitas vezes para beneficiar arroz, pois no Turvo tinha máquina beneficiadora e na Mandaguari não. O turvo era uma potencia em grandeza, beleza e organização. Nós, que há quatro anos atrás vivíamos naquela miséria na fazenda do Amauri, nunca imaginamos em poder morar numa fazenda como essa do Turvo, parecia um sonho muito distante, mas agora, após morarmos

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quatro anos na fazenda Mandaguari, este sonho virou realidade. Aqui, com o nosso trabalho e com a Graça de Deus, tudo deu certo. No dia 06/10/1939, quando eu cheguei e estava descarregando a mudança de cima da carroça na casa número 23 da colônia do Tobias, nesta fazenda do Turvo, na mesma hora e na mesma colônia na casa número 10, também a família do senhor Joaquim Pires de Oliveira descarregava a dele. Na casa número 18 já morava uma filha do seu Joaquim, de nome Ana, casada como José Splendor (Bepe). Já nos primeiros dias eu fiz amizade com o Lázaro Pires, irmão da minha futura namorada, Maria. No dia 11/10/1939 quando eu voltava com meu pai e meus irmãos de uma inspeção na lavoura, encontramos com minha futura namorada que ia com seu pai e seus irmãos, Lázaro e Flávio, para conhecer a lavoura que iriam trabalhar. Lembro-me que meu futuro sogro Joaquim Pires - que foi um homem muito alegre e conversador – parou e cumprimentou meu pai Ezequiel de Oliveira – que era muito extrovertido também -. Nesse primeiro encontro, eu olhei para aquela jovem bonita, que por sua vez, também olhou para aquele jovem lindo, e ali, naquele instante, começava uma nova e grande família. Sempre que encontrávamos trocávamos olhares, e também quando ela vinha à casa de sua irmã. Exatamente num Sábado, dia 11/11/1939, fui à sua casa, ela recebeu-me em frente da casa, me lembro que além da porta, que estava aberta, tinha um portãozinho que era para os cachorros não entrarem na casa. Conversamos sobre vários assuntos e também sobre o namoro; quando ao despedir-me ela disse: se for para casamento você pode voltar no Sábado que vem e falar com o meu pai. No Sábado seguinte, lá estava eu falando com o senhor Joaquim, que perguntou para quando eu queria o casamento, no que respondi que seria para o final do próximo ano, assim ele gostou, pois, sua filha ficou mais um ano carpindo a lavoura com ele. Namoramos treze meses, num namoro honesto e sadio, casamos no dia 21/12/1940, na igreja de São José em Colina, e vivemos unidos e felizes durante 58 anos. Hoje, em espírito, minha esposa ainda continua unida com a família; e eu continuo minha jornada aqui na

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terra, na mesma união, com os filhos, filhas, genros, noras, netos, netas, bisnetos e bisnetas, fazendo-os felizes e abençoando-os. Trabalhei aquele ano, agrícola, junto na lavoura com meu pai, e no próximo mês de Setembro eu peguei, na mesma fazenda, o meu próprio serviço separado do meu pai. Assim do dia primeiro de Outubro até o dia do casamento eu trabalhei sozinho, solteiro, na minha empreitada. Quando casei já tinha casa (no.19), pra morar, com alguns móveis, minha roça, minha empreita de café, meu arroz e feijão começando produzir, e um capado gordo na seva. Como eu jogava bem futebol, no clube da fazenda, e pelo fiscal gostar muito do esporte, pegamos grande amizade (ele gostava muito de mim), todos os dias ele passava ao menos uma vez no serviço, e brincava, falando: O que você é? É solteiro, é casado, é largado, é desquitado ou é tico-tico no fubá e dava risada gozando de mim. Eu virava e dizia para ele: pode dar risada, faz dois meses que estou assim, mas, se Deus quiser daqui a vinte dias eu estarei com a cabocla dentro de casa. Aí ele saia dando risada e falando: fica firme, porque Domingo o jogo é contra a fazenda Itaporã e o time deles é bom. Domingo eu quero ver poeira levantar no nosso campo; e eu continuava trabalhando feliz. Esse fiscal era o senhor Aristides Batista, um caboclo querido por todos que moravam na colônia do Tobias; esse homem veio de uma outra fazenda (do nosso patrão, Junqueira) da cidade de Igarapava (SP). O ano agrícola nessa fazenda começava no dia primeiro de Outubro e terminava no dia trinta de Setembro.
   Os anos mais felizes da minha vida foram os seis anos que eu vivi na fazenda São Francisco do Turvo, em Colina (SP). Foi ali que eu comecei a minha querida família, e trabalhava sem aborrecimento algum no serviço. Além da lavoura o patrão deu um pedaço de terra, nova, de primeira para nós plantar milho arroz e feijão. Só no primeiro ano de casado, além de milho e arroz, eu colhi vinte e um sacos de feijão. Quando mudei no Turvo eu tinha oito cabaças de porco. Daí um ano quando casei já tinha, além dos dois porcos gordos na seva, mais doze cabeças no chiqueiro; chiqueiro, este, que eu construí com madeira de coqueiros.

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   Havia vários coqueiros secos no pasto, então eu derrubei, rachei e fiz em lascas. O assoalho eu fiz com as pranchas mais largas e a cerca e o madeiramento da cobertura, fiz com as mais estreitas, mas tudo de coqueiro, e cobri com sapé. Em pouco tempo eu já tinha a minha porcada, uma vaca dando leite para as crianças, pois a família foi crescendo e já tinha, a Lídia, o José e o Antonio. Também logo comprei uma máquina de costura para a Maria costurar algumas roupas para as crianças, e até as minhas.
   A colheita de café do ano de 1940 ficou gravada na minha mente pro resto da minha vida. O cafezal carregou demais. Naquele ano a fazenda mandou colher todo o café no pano, a colheita inteira. Começamos colher no dia dezenove de maio, com o café em cereja, e terminamos a colheita, com o café já seco, no dia seis de setembro. Nessa fazenda todo o café era apanhado na mão, mesmo quando estava seco, não podia chacoalhar com um cassete. Na fazenda moravam cento e vinte famílias, entre grandes e pequenas. Se na família a pessoa fosse sozinha para trabalhar, juntava-se com uma outra sozinha, pegavam uma rua e trabalhavam juntas, em dois. E se na família fossem em quatro, cinco ou seis trabalhadores, pegavam duas ruas seguidas e trabalhavam juntos. Então era uma correria, pois, quem era em menos tinha que acompanhar as famílias grandes. Se atrasasse perderia a sua rua no eito, nesse caso pegaria a próxima um quilômetro à frente, e para mudar de uma rua para a outra tinha que levar nas costas, o garrafão cheio de água, o embornal com a comida, a escada de madeira que era para apanhar as ponteiras dos pés de café, a peneira, os dois panos que, somando juntos, davam quarenta metros quadrados de tecido, e tinha também de levar o saco de café, se ao terminar a rua não tivesse completado a medida certa, para completá-lo com cento e dez litros, exatos. Os sacos usados na colheita eram de lona, com capacidade para cento e vinte litros, fabricados na Alpargatas Roda, e eram fornecidos pela fazenda. Havia três locais para a medição do café, na extensão do carreador, numa distancia de oitenta metros longe um do outro. Então a gente enchia o saco até na boca amarrava e punha no lombo e levava até

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o ponto de medida mais próximo, se por um descuido faltasse café para completar os cento e dez litros, nem se fosse apenas meio litro, tínhamos que voltar no eito para buscar. Também era de costume o fiscal colocar a medida em cima de um pequeno encerado, e todo o café que, ao despejá-lo, caísse fora da medida em cima do encerado não podíamos pegar; diziam que esse café era doado para as Santas Casas de Misericórdia de Barretos e de Ribeirão Preto. Eu ouvi dizer que somente em um dia desta colheita encheram dez sacos com este café que caiu fora da medida, imaginem quantos sacos encheram em noventa dias de colheita.
   A lavoura de café no Turvo era dividida em tabelas de mil pés; porém dependendo da necessidade havia uma pequena diferença, às vezes mais às vezes menos. Eram vinte ruas (carreiras), distanciadas vinte e dois palmos uma da outra, com cinqüentas pés de café plantados numa distância de dezoito palmos um do outro. Entre a décima primeira e a décima segunda rua era fincada uma prancha (tabela) de aroeira, que fora bem aparelhada na serraria, medindo um metro de altura acima da terra, por quarenta centímetros de largura, os vinte centímetros próximos da terra era pintado de piche, o restante era de branco, na parte branca estava escrito, com letras de forma, o número da tabela com a quantidade de pés de café existente nela.
   A fazenda do Turvo era do senhor Francisco Martiminiano Junqueira (conhecido por Quito Junqueira), sua esposa era a senhora Teolina Diniz Junqueira, no total ele tinha vinte e quatro fazendas (em vários municípios paulista), e a usina União de açúcar, pinga e álcool, no município de Igarapava (SP). Seo Quito era cunhado do governador, paulista, Altino Arantes. Só no município de Colina tinha duas enormes fazendas, o Turvo e a Baguaçu. Nas suas fazendas tinha criação de animais de raça, e animais exóticos, também nessas fazendas, certa vez circulou uma revista editada pela fazenda com fotos e artigos exclusivamente de suas propriedades e eram distribuídas gratuitamente aos seus colonos. Porém nessa época, que morei lá, o senhor Francisco já

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era falecido, mas a Dona Teolina era viva. Por não terem filhos, quem dirigias as fazendas era seu sobrinho Francisco Martiminiano Junqueira Sobrinho (o Martiminianinho). Cada uma das vinte e quatro fazendas tinha um administrador - neste cargo havia um revezamento constantemente entre os administradores de todas as fazendas do patrão - e vários fiscais. Lembro-me de vários administradores; Heitor Bombig, Cartulino Buck, Orlando Alonso, Lourenço Marques Vilela, Justo Machado e José Nogueira. Lembro-me com muitas saudades do senhor Justo Machado, este administrador veio de Igarapava cobrir a vaga de um outro que estava doente. O senhor Justo ficou somente três meses conosco, isso foi no ano de 1944, mas deixou muitas saudades. Este homem além de ser bom era um excelente esportista, e tinha muita influência na diretoria das fazendas.  O senhor Justo gostava muito de mim. Eu joguei no time do Turvo de 1939 até 1945, no ano de 1940 era essa a formação da nossa equipe; 1) Mário, 2) Valentim, 3) Raul, 4) Gabriel, 5) Alexandre, 6) Valdico, 7) Juca, 8) J. Santos, 9) J. Badia, 10) Luizinho, 11) eu, Nestor. Diziam que eu era o melhor (Nº. 11) ponta esquerda da região, driblava bem, não errava um passe, chutava com os dois pés e acertava o alvo, acertava o gol mesmo estando de costa para ele, era disciplinado, nunca briguei em campo. Num certo jogo após ter passado várias vezes pelo meu marcador, um negro forte de um metro e oitenta e cinco de altura, num lance peguei a bola antes do meio do campo e fui driblando, passei por vários, por último foi o meu marcador, que saiu correndo atrás de mim como uma fera querendo me pegar (mas não conseguiu), só depois de cruzar a bola é que eu olhei para trás e vi o que estava acontecendo. Vi o meu pai que, não largava de um podão aonde ele ia o podão estava junto, era o meu torcedor número um e vendo que aquele jogador queria me machucar, vinha correndo dentro do campo atrás do negrão com o podão levantado preste a decepar sua cabeça, se naquele lance o jogador tivesse me machucado certamente meu pai teria sido um criminoso, pois ele teria matado o rapaz com o podão, tudo por causa da brutalidade com que o beque direito vinha atrás de mim.

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Nesses meses que administrou o Turvo, o senhor Justo Machado levou-nos oito vezes (todos os jogadores de futebol da fazenda do Turvo) em Barretos para assistirmos os jogos profissionais; ainda me lembro de alguns: Barretos x Rio Preto; Barretos x Uberaba; Barretos x Jaboticabal, Barretos x Batatais etc... Tinha uma jardineira (ônibus) que fazia a linha de Colina à fazenda dos Coqueiros, então o senhor Justo Machado fretava esta jardineira para levar-nos a Barretos nos Domingos dias de jogos. Além de pagar o frete, ele também pagava a entrada no estádio e ao terminar o jogo ele nos levava num bar e pagava um sanduíche de pão com mortadela e um refrigerante para cada um. Terminado o lanche voltávamos festejando para casa, chegávamos já estava escuro. Um dos jogos que eu assisti em Barretos que me marcou muito foi o Corinthians x Palmeiras, um jogo beneficente e terminou empatado em um a um. Ainda me lembro da escalação do Corinthians: 1) Cabeção, 2) Homero, 3) Olavo, 4) Roberto, 5) Goiano, 6) Hidário, 7) Cláudio, 8) Luizinho, 9) Baltazar, 10) Carboni, 11) Simão; os reservas foram: Gilmar, Alam e Julião. A escalação do Palmeiras eu não me lembro. Nesse dia, porém, não fomos de jardineira, fomos de trem de Colina a Barretos, e, para felicidade minha, fomos no mesmo trem que viajava a grande esquadra corinthiana. Quando o trem parou na estação de Barretos, na praça da estação havia mais de três mil pessoas esperando o coringão, era rojão para todos os lados e banda de música tocando. Desembarcamos e saímos juntos com os jogadores do Corinthians no meio daquela multidão. Caminhando lado a lado com os jogadores, eu (que era considerado o melhor ponta esquerda da região, várias pessoas quiseram me levar para São Paulo para jogar em um time profissional, porém, por circunstância da vida não foi possível) vivi o meu momento de glória, pois, caminhei entre os três melhores atacantes da época, Cláudio, Luizinho e Baltazar. As pessoas me olhavam e, imagino, pensavam será que este jovem é um novo contratado do timão; e eu ia feliz com a galera.
   A Dona Teolina mandou construir um hospital para os pobres na cidade de Ribeirão Preto, eu não o conheci, mas ouvi muita gente

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dizer que conheceu. No ano de 1944 a viúva Dona Teolina mandou fazer uma arrecadação em dinheiro entre todos os seus colonos e funcionários das vinte e quatro fazendas e da usina e, junto com esse montante, ela acrescentou uma doação própria numa quantia bem maior, com a soma total da arrecadação ela comprou um avião militar e mandou para o então presidente Getúlio Vargas que, por sua vez, mandou para as forças armadas brasileira que estavam guerreando na Itália. Não sei dizer se ainda existe algum pedaço deste avião, ou onde que ele esteja, mas, posso dizer que eu e minha esposa contribuímos dando um pouco do nosso suor para terminar a guerra.
   Ali no Turvo aconteceram muitas coisas boas para mim, onde casei, joguei muito futebol, muitos amigos, onde eu mais gostei de trabalhar. Foi onde eu morei pela primeira vez em casa com luz elétrica. Como nem tudo nesse mundo é bom, foi também ali que passei a segunda guerra mundial de 1939 a 1945. Nessa época houve muita carestia no Brasil, todos os produtos importados ficaram escassos. A maior parte da população pobre sofreu muito, não tinham querosene, sal, fubá, trigo, não podendo fazer o pão comiam o resto do almoço ao meio dia na hora do café. Tudo era racionado para mandar para os soldados na guerra. Como minha família, a do meu pai e do meu sogro tinha bons créditos, tanto na fazenda como na cidade não sofremos tanto. Na fazenda do Turvo tinha um bom armazém que fornecia de tudo, secos e molhados. Além de alimentos e utensílios, vendia roupas, calçados e ferragens, e ainda, durante todo o tempo da guerra forneceu sal e querosene para todos os empregados da fazenda, pois esses produtos eram escassos em todas as cidades do Brasil. Tinha uma boa farmácia que dava assistência gratuita a todos recém-nascidos da fazenda, máquina de beneficiar arroz, moinho de fubá, uma boa serraria e um bom time de futebol. Tinha quatro carroções de quatro rodas puxados por seis burros que serviam para transportar de tudo que era produzido na fazenda, uma bela cocheira, grande terreirão com lavador de café, máquina de beneficiar café muito grande e um excelente escritório. Moravam cento e vinte famílias

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distribuídas entre cinco colônias, tais como; a do Tobias, a do Cheiroso, a da Brasileira, a da Escola e a da Serraria. Ainda tinha duzentos e cinqüenta alqueires de mata virgem. Dentro dessa mata tinha uma nascente que formava um açude no tamanho de dois hectares, onde tinha muitos pássaros e bichos, paturi, garça, saracura, jacaré e outros. A água deste açude corria formando um regato que saia do mato e atravessava o pasto até desaguar num córrego maior. Para entrar na mata e ir até a lagoa tinha uma picada paralela ao regato. Meu pai sendo bom caçador constantemente ia lá buscar caças. Num dia de Agosto, depois da colheita, ele chamou seu filho caçula, Luiz, que tinha doze anos para ir caçar com ele. Ventava muito e o pasto estava todo seco. Para evitar queimadas, a fazenda já havia feito os aceiros em todas as cercas e também beirando a mata. Eles andaram através daquele aceiro beirando a mata uns três quilômetros e não encontraram nenhuma caça. Quando faltavam cem metros para chegar no cafezal meu pai escutou uma pomba juriti cantar em uma árvore a quinze metros atrás, onde já tinham passados. Papai disse pro Luiz que ia matar a pomba para não voltar sem nada e pediu para ele que ficasse esperando ali. Papai atravessou a cerca de arame para o lado do pasto e, quando estava com a pomba na mira da espingarda preste a puxar o gatilho, escutou um berro de onça e os gritos do menino que vinha correndo ao seu encontro. Imediatamente ele passou por debaixo da cerca e correu ao encontro do filho que estava branco como uma cera e tremendo de susto e medo. Nisso a onça que, certamente vinha distraída para beber água no riozinho próximo, se assustou ao deparar inesperadamente com o menino, percebendo e ouvindo meu pai, deu novamente outro miado assustador e adentrou na mata. E eles foram pra casa sem levar nada. Depois desse fato meu pai sempre dizia que: se a onça tivesse percebido eles antes dele ter deixado o Luiz sozinho, ela teria matado o menino, pois ela saiu justamente onde ele estava.
      No ano de 1943 ou 1944 aconteceu um fato interessante, pode até não ser verdade o que, depois, disseram o que era, mas que eu vi eu vi. Num dia santo de Corpus Christi, que naquele ano se deu

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no dia vinte e quatro de junho (dia de São João), às dezenove horas enquanto eu ascendia a fogueira (na fazenda todas as famílias faziam fogueiras), passou no céu uma tocha de fogo tão grande, luminosa e barulhenta como se fosse um avião a jato, vindo do leste para o oeste, que seu clarão deixou a noite clara como um dia, e uns minutos após ouvimos um estouro terrível que estremeceu a terra. Como ninguém tinha rádio na fazenda, ficamos vários dias sem saber o que era, só depois de dez dias é que veio a notícia que aquela tocha havia caído no outro lado do continente no mar do Chile. Uns dizia que foi um míssel, outros diziam que foi um avião de guerra que havia passado ali e caído no mar.
   Em abril de 1939, deu-me uma dor tão forte nos olhos que, quase fiquei cego. Passei uma semana enxergando muito mal, quando melhorou e eu olhei no espelho, até tive medo, os olhos estavam brancos (não via a menina); o mais prejudicado foi o esquerdo e, por este motivo, com setenta e nove anos perdi essa vista.
   No dia 23/10/1943 à tarde, após chegar da roça e tirar a camisa, enquanto a Maria esquentava água para eu tomar banho, formou um tempo de chuva feio, com nuvens negras, medonho. Enquanto isso eu peguei o José no colo e fui ver a nuvem que começava chover. Ao voltar, passando embaixo da lâmpada (que era instalada no portal entre a sala e a cozinha para clarear os dois cômodos), deu um relâmpago com raio que me puxou para cima e me jogou no chão, tão encolhido que esfolei todas as juntas dos dedos dos pés e das mãos, o José caiu por baixo de mim e bateu a testa no chão. Formou-se um risco (vergão) vermelho no meu peito e nas costas do menino, entre as partes que nós estávamos encostado um ao outro. Nós dois desmaiamos. Meu sogro, que morava cinco casas distante, socorreu-nos e puxou a língua do menino que estava afogando-se. Passado uns minutos, já em cima da cama, voltei em si e, na cama ao meu lado, o menino também estava bom, sem maiores complicações. Aquele raio pegou na primeira casa da colônia e foi parar na última. Na casa cinco, feriu muito uma senhora húngara, na casa oito, feriu a Maria Belini, na casa dezenove, feriu eu e meu filho e na última casa, que era de

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tabuas, arrancou quase uma parede inteira, mas não feriu ninguém. Veio o médico e deu só iodo para nós passarmos nos ferimentos, ele achou que estávamos fora de perigo. Porém, eu fiquei com uma dor nos nervos das pernas por quase um ano, não conseguia me movimentar bem no futebol.
   Depois de uma colheita grande de café, numa sexta-feira, eu falei com o fiscal Pedro Falcão, que não ia trabalhar no sábado, pois precisava ir à cidade, e ele autorizou. Era fim de Agosto e o sol naquele dia foi muito quente e, eu suado, bebi muita água gelada do garrafão. Na noite para o Sábado passei uma febre muito alta e me atacou o ouvido com uma dor terrível. Meu pai, que era meu vizinho, foi na farmácia da fazenda e o farmacêutico receitou óleo de capuava para pingar no meu ouvido. Com esse remédio, fui melhorando, em poucos dias não sentia mais dor, porém, fiquei surdo do ouvido direito. Passado um ano, também num dia da Sábado, andando com o meu pai para irmos ao armazém, quando estávamos no mesmo local quando há um ano havia começado aquela dor, percebi que fez um barulho e desentupiu o meu ouvido; eu passei o dedo e percebi que tinha saído uma cera preta, velha, e comecei a ouvir novamente.  
   Estou com oitenta e cinco anos de idade, e até hoje, somente uma vez, por motivo de doença, eu fiquei impossibilitado para trabalhar, e esta vez foi em agosto de 1945. Numa noite de Sábado, muito fria e de muito vento, eu acordei à meia noite com os gritos de uma galinha que a Maria tinha posto para chocar ali perto da porta da cozinha. Pulei da cama só de camiseta e cueca, abri a porta da cozinha e saí naquela ventania, ascendi a lamparina, mas o vento apagou-a, voltei para dentro peguei uns jornais, botei fogo e joguei-o perto do ninho. Nisso a galinha vinha para o meu lado se arrastando e pude ver o gambá, após ter chupado todos os ovos, que vinha atrás dela mordendo-a. Com um cabo de enxada, que eu tinha nas mãos, matei o bicho, mas a galinha não sobreviveu, pois ficou muito machucada. Por causa dessa friagem a minha perna direita, na altura da coxa, inchou parecendo um pneu e deu uma dor insuportável que durou três meses, assim eu fiquei acamado

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sem poder trabalhar. Meus parentes acabaram de fazer a colheita para mim, fez a esparamação, e também a minha mudança para a fazenda Colina. Sofri muito nesse ano, pois além de sair do lugar onde eu mais gostei de morar e trabalhar, fiquei doente, e, tem um agravante a mais, o ano agrícola do Turvo acabou um mês depois de ter começado o ano na fazenda Colina onde mudei. Pois vejam; eu acamado mudei com um mês em desvantagem em relação aos outros colonos. Quando lá cheguei os outros já tinham carpido e plantado seus mantimentos, e eu de cama nem ir à roça podia. Meu sogro teve mais sorte, ele pegou a empreita de seu cunhado, João Hermann, que havia deixado após trinta anos de serviço, era bem caprichada. A casa e a empreita que eu peguei era do Sebastião Arlindo um caboclo muito bom, mas, aconteceu que no começo do ano anterior ele foi limpar o poço de sua casa e morreu lá embaixo na água. A viúva ficou com duas meninas, (dez e doze anos). O administrador mostrando seu lado humano não dispensou a viúva, porém a lavoura ficou prejudicada com o mato, elas não conseguiram executar todos os serviços. E eu naquele estado, doente, fui o “felizardo” em pegar justamente essa empreita. 
    Logo que fiquei doente fui consultar o Dr. Manoel Palomino que me disse: você precisa ir para o hospital para rasgar isso, porém eu não tinha como fazer isso; ele receitou umas injeções que, somente o quarto farmacêutico procurado consegui decifrar o nome dela, após tomá-las melhorou um pouco. Quinze dias após da mudança, amparado por um pedaço de pau, eu caminhei dois quilômetros da fazenda até a cidade e fui consultar o Nelsinho (um farmacêutico mato-grossense que usava os cabelos compridos, era descendente de indígenas e que consultava em sua residência; só mais tarde é que ele se estabeleceu numa farmácia) que me falou: eu vou te dar três injeções, essas são fortes demais, se precisar você volta que te dou mais três. Tomei as três injeções e fiquei curado. Quem as aplicou foi o senhor Firmino Picelli, que morava na fazenda Colina.
   Aqui vou dizer porque precisamos mudar da fazenda São Francisco do Turvo, já que ela era tão boa, então por que mudar?

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Acontece que, tudo ia muito bem no Turvo, quando de repente chega uma notícia dizendo que a fazenda ia se descolonizar e tocar suas lavouras com “camaradas”, empreiteiros, paus-de-arara, volantes. Quem quisesse ficar, podia; mas tinha que trabalhar como volante, por dia. Como todas aquelas famílias gostavam de plantar, criar animais, progredir, e de agora em diante não podiam mais, saíram todas. E assim também saí. Éramos em mais de cem famílias, e somente uma ficou, pois já trabalhava de volante na fazenda e morava fora das colônias numa casa separada, distante uns três quilômetros. Sabem o que aconteceu com aquela, bela, formosa, lavoura de café do Turvo? Dentro de três anos os oitocentos mil pés de cafés morreram secos no meio da quiçaça (mato). Aquela bela lavoura ficou sendo terra de ninguém. Quem trabalha como volante por dia, não pega amor pela lavoura. Os “camaradas” amolam bem as enxadas (deixa um fio que dá para fazer a barba), encaba-a num cabo bem curto, e invés de carpir, eles roçam o mato por cima da terra numa altura de dois a dez centímetros, e desse jeito, passado uma semana o mato já cresceu novamente e sufoca a lavoura. E é assim que tudo se acaba, com o intuito de lucrar mais, as pessoas descuidam do que tem.
   Com a descolonização todas aquelas famílias trabalhadoras foram embora. Em seus lugares a fazenda contratou camaradas vindo de várias regiões do Brasil (principalmente do nordeste), para trabalhar. Em pouco tempo encheu a fazenda com esses volantes, como essa gente não cria raízes onde trabalham, não formam sentimentos afetivos pelas coisas, onde estão, pois tudo é passageiro. E por isso depredaram tudo. Queimaram as cercas, depredaram as casas, quebraram e/ou cortaram os pés de frutas, desmancharam os galinheiros, os chiqueiros e os paióis, e por fim, até, puseram fogo naquela grande mata virgem. A mata dos queixadas (como era chamada) queimou durante quinze dias. A fumaça (desta queimada) cobriu os céus da região durante um mês, atingiu desde a cidade de Jaboticabal, Morro Agudo, Orlândia, Guairá, Barretos, Colômbia, Olímpia, Monte Azul Paulista, Bebedouro, Viradouro e outras. Queimou uma riqueza incalculável

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entre fauna, flora e madeira-de-lei. Quando morávamos lá, o colono não podia tirar nem um pau de lenha dessa mata, ela era a menina dos olhos da fazenda, e três anos após, em poucos dias, essa riqueza se transformou em cinzas e pó.
   Bom, agora na fazenda Colina, com um mês de atraso e mancando de uma perna fui para o serviço, como o mato era demais, eu carpi somente no meio da rua e plantei o arroz e feijão nesta faixa limpa. Assim, além de adiantar minha plantação, o mato não sufocou o mantimento, e eu pude terminar, sem afobação, a capinação total da lavoura e, com a graça de Deus, colhi, entre o do café e um pedaço de roça, vinte e cinco sacos de arroz. Como eu mudei um mês atrasado em relação ao ano desta fazenda, eu recebi o primeiro pagamento antes de começar a trabalhar, e só depois de um mês é que eu fui à fazenda do Turvo receber o último pagamento; mesmo mancando eu caminhei catorze quilômetros até o Turvo e mais catorze de volta até a fazenda Colina.
   Junto comigo mudaram a família do papai, do meu sogro e do meu cunhado Lázaro Pires. Lá já moravam o tio da Maria o Lázaro Rodrigues e o meu primo Sebastião José dos Santos, éramos em seis famílias parentes na fazenda Colina. Um dia o fiscal, senhor Lídio Ferreira, vendo minha situação e a situação da lavoura, cedeu-me uma besta e uma carpideira para dar uma passada cada lado da carreira do arroz e do feijão, sobrando apenas um pouquinho para carpir de enxada, e disse ainda: eu reconheço que essa empreita não estava em condições de ser entregue para o senhor, pois a viúva e as meninas não conseguiram terminar o serviço, mas vejo que o senhor tem coragem e vai vencer. Como de fato venci, no fim do ano já tinha despraguejado meu café. A maior parte das famílias desta fazenda já morava a mais de trinta anos ali, era um lugar muito bom, distante da cidade somente dois quilômetros, uma terra branca que podia trabalhar a semana inteira com a mesma roupa e não parecia suja. Era uma terra branca arenosa que, ao bater o sol, brilhava tanto que atrapalhava a nossa visão. Nos dias de Sábado aquela italianada (famílias mais velhas

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do lugar) punham um saco branco, vazio, nas costas e às oito horas iam todos para a cidade. Lá eles andavam de armazém em armazém, de loja em loja procurando preços melhores, onde achavam compravam.
   O dono da fazenda Colina era o Doutor Lamouniere de Andrade, e sua esposa era a senhora Mariana Dias de Andrade. Nessa época o Doutor já não tinha boa saúde, sofria do coração. O meu sogro, em todos os dias de São João, fazia festa, fogueira, rezava o terço e, além de rojões, soltava um morteiro (uma peça de ferro, oca, cilíndrica, quinze ctms. de diâmetro por quarenta ctms. de altura, vazio ele pesava sete quilos; carregava-o com duas xícaras de pólvora, socava uma bucha de papel, socava pedaços de tijolos e mais bucha, e o estopim era carregado primeiro, depois botava fogo no estopim, saia correndo para se proteger e esperar o estrondo, o tiro era tão forte que chegava derrubar de susto algum animal descuidado no pasto – isso eu vi na fazenda Santa Cecília, uma mula caiu). A casa do meu sogro ficava cem metros de distância da casa do patrão, o meu sogro deu o primeiro tiro e o patrão mandou o fiscal mandar parar, pois estava passando mal por causa do tiro. Aí foram para a colônia nova, bem mais longe, mas puderam dar somente um tiro e precisaram parar. Muitas vezes eu vi, lá ou em outra fazenda, cinqüenta metros longe do morteiro, xícaras cair da prateleira com o estouro.
   Tão difícil como a saída da Fazenda do Turvo, foi ao sair da Fazenda Colina. Era uma fazenda ótima para morar, boa para trabalhar, era encostada com a cidade, estava gostando dali. Porém só pude morar um ano nela. Naquele Setembro de 1946 tudo corria bem, quando, derrepente, surgiu a notícia que o patrão já tinha vendido a fazenda para o Estado de São Paulo - que ia arrancar toda a lavoura de café - para criação de animais e experiências agronômicas, anexando-a a outra já existente. E nesses casos não precisariam de colonos. Aí foi uma correria, todos precisavam achar nova colocação, já estava tarde e restavam poucas. Meu pai foi para a fazenda do senhor Pedro Spechoto, meu sogro e o seu filho Lázaro foram para a fazenda Aparecida, em Jaborandí, o tio

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Lázaro Rodrigues foi para os Piai, meu primo Sebastião foi para o Ângelo Polizeli, e eu, infelizmente, só consegui serviço na Fazenda São Joaquim. A Maria estava grávida, do quarto filho, então eu pedi para o fiscal que queria mudar logo, ele disse que a casa ainda não estava desocupada, mas, que tinha uma de três cômodos e que era a ultima casa da colônia, Barra Preta, se eu quisesse poderia mudar nela e daí alguns dias mudar na definitiva. E assim fiz. Só quando mudei naquela casa que estava vazia é que eu fui entender porque ninguém queria morar nela. De parede-meia morava, há muitos anos, uma família e nessa família tinha uma moça doente com tuberculose, ela tossia a noite inteira e nós não podíamos dormir. Na minha opinião aquele fiscal não foi honesto comigo. Sabendo que eu tinha três crianças pequenas e a esposa no sétimo mês de gravidez do quarto filho, sabendo também que os quartos, das duas casas, eram vizinhos e sem forro; e sabia que lá tinha uma moça com doença transmissível e a casa estava cheia de percevejos; se fosse honesto não teria mandado eu morar ali.
   Sofremos durante quinze dias com essa insegurança, e mudamos no dia 06/10/1946 para a casa definitiva. Quando foi no dia vinte e dois de novembro deste mesmo ano, às dezesseis horas, nasceu o Nestorzinho. Nesse dia em que nasceu esse meu quarto filho eu estava trabalhando muito longe de casa. Distante da colônia tinha uma estrada boiadeira que, há cem anos, passavam bois vindo de Goiás e Mato Grosso para o frigorífico de Barretos, e ali, todos os colonos tinham uma tabela e nesse dia eu estava trabalhando nela. Ao fim do dia quando cheguei em casa, me disseram: Seu filho já nasceu, a Maria teve mais um menino. Eu fiquei contente e fui ao quarto vê-los. Foi o único filho que não me deu trabalho no dia do parto; no dia seguinte fui na cidade registrá-lo. Essa estrada vinha do lado da fazenda Quebra-cúia, passava na fazenda do Turvo e seguia o corredor divisando as fazendas São Joaquim e Mandaguari. Nessa época, ali na fazenda, morava um velho goiano que fora boiadeiro em sua juventude. Ele nos contava que havia passado várias vezes naquela estrada conduzindo boiada. Disse que vinham de Goiás e passavam em Ribeirão Preto ates de chegar

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em Barretos. Falava que cinqüenta por cento das estradas eram no meio do sertão e muitas vezes, encontravam com onça deitada no galho de uma árvore, por cima da estrada, e quando a boiada ia passando ela pulava no lombo do boi e com isso a boiada estourava. Os bois se enfiavam pelo meio do mato e davam muito trabalho para reuni-los de novo. Contava, também, que presenciou muitos crimes nas pousadas, por causa de jogos. Ele me disse um dia que, a última boiada que ele ajudou a trazer, entregaram em Ribeirão Preto e ficaram festejando por uns dias, na região. E nessa viagem ele arrumou uma namorada na cidade de Sertãozinho e, de tanto que ele gostou da moça, desertou dos companheiros e não voltou mais para Goiás. Casou com ela em Sertãozinho e logo mudou para Colina. Este homem criou dez filhos e faleceu já bem idoso.
   Nos primeiros dias que morei no São Joaquim eu sofri demais. Eu, juntamente, com mais dois companheiros recém chegados, fomos cortar capim em uma capineira na tabela da estiva. Essa tabela ficava na beira de uma estrada poeirenta, que ao passar as carroças, transportando os cereais, fazia um poeirão que caia todo sobre o capim. A cada enxadada que dávamos, aquela poeira subia e nos cobria de pó. Depois de cortados, nós pegávamos o capim com uma forca e jogávamo-lo em cima da carroça, e com isso aquele pó caia sobre os nossos pescoços e dava uma coceira terrível. O que amenizava o nosso sofrimento era que os meus dois colegas, o Juquinha e o Tião cantavam embolada do Zezé Gonzaga e baião do Luiz Gonzaga, o dia inteiro. E assim a gente esquecia um pouco o calor e a poeira.
   O que eu gostei na fazenda São Joaquim foi que o pagamento era feito de trinta em trinta dias, outra coisa, tinha uma assistência infantil muito boa. Todos os dias, vinha de Barretos um médico muito bom por nome de Doutor Júlio e consultava toda a criançada da fazenda. E o que eu não gostei foi do sistema de trabalho. Para as famílias pequenas era muito difícil. A família considerada pequena era composta de o marido, que trabalhava na roça; a esposa, que cuidava dos filhos em casa; e os filhos (no meu caso

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quatro crianças); tocava de três a quatro mil pés de café, uma quarta de terra para plantar, e morava e uma casa de três cômodos. A família considerada média era a que tinha três pessoas para trabalhar na roça, além da esposa que cuidava da casa; tocava de seis a oito mil pés de café, três quarta de terra para plantar e morava em uma casa de cinco cômodos. A família considerada grande era a que tinha o chefe da família, mais dois moços e duas moças para trabalhar na roça, um menino (de dez, doze anos) para levar almoço para eles, além da dona de casa; tocava de dez a doze mil pés de café e um alqueire de terra para plantar. Na família pequena, além de ser sozinho para trabalhar, ter vários filhos pequenos e morar somente em três cômodos, se não conseguisse cuidar bem da lavoura, a fazenda colocava camaradas, com pagamento, por conta do colono. No São Joaquim, toda semana tinha que trabalhar um dia para a fazenda a troco de soldo mísero. O serviço daquela família pequena ficava parado, e por não ter quem levasse o almoço, a dona de casa, sua esposa, deixava os filhos pequenos trancados em casa e saia andando pela fazenda, inteira, procurando o local onde seu marido estava trabalhando; tinha dia que andava duas horas até encontrá-lo. Funcionava assim. À noite o fiscal passava de casa em casa e batia na janela do quarto, dizendo: amanhã vai trabalhar por dia, é para você estar no ponto às cinco da manhã, porém não dizia em qual secção a gente ia trabalhar. Às cinco horas do dia seguinte lá estava aquela multidão de homens no ponto, só se ouvia a voz e via as brasas dos cigarros dos fumantes; não se via mais nada naquela escuridão. Em seguida chegava o fiscal geral e os feitores, um a um, por sua vez, escolhia de seis a dez homens e levava-os consigo para trabalhar, cada qual para um setor da fazenda. Houve vez que, a pessoa que levava o almoço precisou passar em seis turmas para achar o marido, que já estava “morto” de fome, bem depois do meio dia.
   Eu tinha uma novilha e, no ano de 1947, ela pariu um belo bezerro e era boa de leite. No pastinho que ela ficava era um brejo, e dele à minha casa tinha uma distancia de quinhentos metros. Mesmo assim, lá, eu fiz um piquete, amansei-a e todos os dias de

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manhã, ainda escuros e com o céu estrelado, eu ia tirar o leite. Porém, como foi se tornando difícil devido ao que citei a cima - mesmo que o Nestor Filho tinha poucos meses de idade, mas a mãe tinha bastante leite para o sustento do menino – então vendi a vaca com o bezerro e comprei um cavalo e um carrinho de mola (carroça) para me ajudar nos serviços da roça. Para mim foi bom, pois eu ia à cidade todos os meses com o carrinho. Na fazenda São Joaquim moravam, mais ou menos, cento e cinqüenta famílias divididas entre as colônias: Beija-flor, Olaria, Nova, Coloninha, Barra Preta (onde eu morava) e ainda tinha a secção da Estiva. O proprietário do São Joaquim era o senhor Lucas do Valle, o administrador era o senhor Germano Coleto, o fiscal geral era o senhor João Pontelo, e fiscais (feitores) eram os senhores, Arnaldo Mascane, Joaquim Alves, Aquiles Manholé etc... No mês de Maio de 1947, com autorização da fazenda, todos os colonos foram tirar lenha na mata. A mata ficava cinco quilômetros das colônias e divisava com a fazenda da Estiva; de dentro do mato a gente avistava as casas da Estiva. Como eu era sozinho para trabalhar, combinamos eu e o Sebastião do tio Zeca para trabalharmos juntos e tirar lenha para as duas famílias. O Sebastião era solteiro e se casou naquele ano, eu já era pai de quatro filhos e tinha vinte e nove anos. Para entrar nessa mata tinha uma grande picada por onde era transportada a madeira que era cortada. Entramos uns duzentos metros, escolhemos um bom lugar e começamos cortar e rachar a lenha. Tinha umas perobas secas, cheias de nós, difíceis para serem rachadas. Para este serviço nos levamos dois machados, uma foice, um trançador, três cunhas de ferro, uma marreta, uma lima, um garrafão de cinco litros com água e o embornal com o almoço e o café. Tinha família tirando lenha, tanto no lado de cima como no lado de baixo da picada. Trabalhamos três dias. Às três horas da tarde do terceiro dia ouvimos um falatório no início da picada. Era o fiscal que veio aos berros e falou: Quem tirou lenha do lado de cima da picada não vai poder puxá-la para casa, somente puxarão os que tiraram do lado de baixo. Questionamos a razão mas, não adiantou, não pudemos

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levar a lenha para casa, perdemos três dias de serviços difícil. Por este motivo os colonos ficaram magoados e procuraram nova colocação para o ano seguinte. Eu arrumei na fazenda Aparecida do senhor Plínio Sampaio, em Jaborandí.
   Ao final do ano nos, que já tínhamos terminado os compromissos com a fazenda São Joaquim, queríamos entregar o serviço para mudar, mas o fiscal geral, muito ruim, não o recebia. É que naquele ano começou a chover, mais cedo, em Setembro e por isso, depois da esparamação, começou nascer mato (beldroega), assim o fiscal obrigou todos os colonos dar mais uma carpa na lavoura, como chovia muito o mato não morria, brotava de novo. Então por pirraça, porque naquele ano iam sair da fazenda setenta famílias que estavam magoadas com ele, o fiscal geral não liberava as famílias.
   Como meu sogro já morava na fazenda Aparecida, também mudei para lá. Fomos juntos eu, meu primo Paulo e o primo/tio Tião, mudamos na secção da Santa Cecília; o tio Zeca, o Sebastião seu filho mudaram para a secção do Quentão. Para buscar a nossa mudança o senhor Plínio mandou o tratorista (crioulo) João Manoel com o trator e uma carretinha. Após colocarmos a mudança em cima da carreta, que ficou tão alta e desajeitada, deu medo de por a mulher e as quatro crianças em cima daquilo. Mas, como o sertanejo tem muita confiança em Deus, subimos e lá fomos nós, com a carreta fazendo ziguezague por aqueles caminhos cheios de buracos, daquelas fazendas. No fim de outubro despedi da fazenda São Joaquim e nunca mais voltei lá.
   Mudei na fazenda Aparecida no dia 20/10/1947. Lá, antes de começar trabalhar na lavoura, eu precisei tirar madeira no mato e consertar o paiol, o rancho do carrinho, o mangueirão e o chiqueiro. A família que havia saído da casa tinha usado as madeiras do paiol e do chiqueiro para queimar no fogão. Mal comecei tirar a madeira, veio a Maria me chamar lá no mato. É que o, recém-nascido, João Carlos filho do meu cunhado Lázaro tinha falecido. Nessa ocasião o Lázaro estava numa situação precária, tanto financeira como depressiva, impossibilitado para resolver a

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situação, então fomos lhe ajudar. Já era quase hora do almoço e não tinha condução, então, como ir? Da Aparecida até Colina tinha doze quilômetros e de Colina até o Turvo mais doze. Se fôssemos a pé até Colina, perderíamos o ônibus que partia ao meio dia da cidade para o Turvo. Sem saber o que fazer, eu e meu sogro que também ia comigo, quase como que um milagre, ao olharmos para o lado direito da colônia três casas adiante da nossa, vimos um caminhão carregado de canas, e o motorista (João Basso) era muito amigo meu e irmão do Antonio, que era casado com minha prima Zizí. Pedimos uma beira, e ele disse: na cabine já não tem mais lugar, então vocês têm que irem em cima da carga, porém, vão se sujar com a poeira da estrada. Aceitamos a beira, eu com vinte e nove anos e meu sogro com sessenta e um, pusemos uns panos sobre as canas, sentamos em cima e agarramos nas correntes que travavam a carga e fomos para Colina. Deste modo deu tempo de tomarmos o ônibus na cidade para o Turvo. Passamos a noite na casa do Lázaro, além da família, só estava eu e meu sogro, não tinha mais ninguém. Quando foi uma da tarde veio um carro de praça para levar o anjinho. Eu acho que foi o administrador que pagou aquele enterro, pois, o Lázaro não tinha condições. Eu e meu sogro fomos no banco traseiro do táxi e eu levei o caxãozinho no colo até a cidade. Da porta do cemitério até a cova, um pouco foi eu que levei e outro pouco foi meu sogro. Depois do enterro voltamos a pé de Colina até a Aparecida.
   Nos quatro anos que morei na Aparecida eu participei da Irmandade dos Congregados Marianos na paróquia de São José de Colina. A missa que os congregados participavam, era a das sete horas da manhã. Após a missa tínhamos mais uma hora de reunião, orações e leitura do Ofício de Nossa Senhora. Todos os Domingos eu levantava às 5:30 hrs, preparava-me e saia às 6:00 hrs, em jejum, a pé, andava doze quilômetros até a cidade e chegava para a missa das 7:00 hrs. A reunião terminava entre 9:00 h e 9:30 h. Após eu ia num bar tomava um café e comia um pão quente e saia de volta para casa, a pé, chegando sempre depois das onze horas. Só então é que eu ia almoçar (aqui eu faço uma observação, o

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horário do almoço na fazenda era 8:30 h). Nessa época o nosso pároco era o padre Amaro Muniz, um padre muito bom. Mas por causa de perseguições (o povo anticristão, da cidade, levantaram muito falso testemunho dele) ele foi embora. Num Domingo depois da missa nós marianos encontrávamos reunidos na sacristia da igreja, então nesse dia o padre Amaro despediu-se de nós, abraçando-nos um por um chorou muito por causa da injustiça e maldade que fizeram com ele. Padre Amaro voltou para a Espanha, sua terra natal, mas, por gostar muito do Brasil, lá ficou menos de um ano e retornou para cá, porém, não mais para Colina (SP) e sim para uma pequena cidade na região de São José do Rio Preto (SP). Como já era idoso, poucos anos depois, ele faleceu.
   A fazenda Aparecida era um lugar bom de se morar, era lugar de futuro, bastava trabalhar com vontade. Somente com a colheita de um ano eu vendi cinqüenta sacos de arroz. Porém quem mora no que é dos outros é difícil criar raízes, e lá não foi diferente. O meu patrão era o senhor Plínio Ferraz Sampaio. Com o Sr. Plínio Ferraz Sampaio aconteceu um fato pitoresco. Por ser morador na capital paulista, ele ia uma vez por mês em sua fazenda e lá permanecia até uns quinze dias trabalhando, tanto na administração da fazenda como na representação de tratores em uma concessionária, de sua propriedade, na cidade de Colina. Na minha opinião, este senhor era o único homem, naquela época e naquela região, que usava bermuda. Nessa época o delegado de polícia de Colina era o Dr. Miguel (muito respeitado por sinal), mas, por ele ter baixa estatura, lhes chamavam de Miguelzinho (este mesmo Dr. Miguel foi o delegado que fez o Campanholi fechar os seus porcos no chiqueiro para não comer as plantações do papai, na fazenda Spechoto). Certo dia, vestido com bermuda, dirigindo o seu trator ele foi até a cidade de Colina. Quando o delegado viu aquele homem em cima do trator vestindo calça curta, parou-o e lhe intimou a ir numa loja comprar uma calça comprida e vesti-la, pois do contrário ele iria para a prisão. O Sr. Plínio, que não era bobo, obedeceu ao delegado, mas, continuou usando suas lindas bermudas lá na sua fazenda.

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   Eu, já no terceiro ano, trabalhando na fazenda fui tomado de surpresa com a notícia de que o senhor Plínio havia vendido a fazenda para o senhor Fábio Uchoa, grande fazendeiro no município de Terra Roxa (SP). Trabalhei mais um ano e meio com o novo patrão, que continuou com o mesmo contrato. Porem, para iniciar o quinto ano ele propôs um contrato bem diferente do anterior, o contrato era para tocar café à meia, e por eu não sentir segurança (achei que a lavoura não produziria bem nos dois próximos anos) mudei-me da fazenda. Foi nesta fazenda, Aparecida, que nasceu a minha filha Maria Aparecida. Nesse dia em que ela nasceu (26/01/1950) estava uma chuvarada danada, precisei me agasalhar muito bem para buscar a parteira. Por ela morar longe de minha casa, eu cortei um atalho pelo meio de um arrozal que tinha a minha altura e estava cacheando. A água da chuva e dos cachos de arroz caía sobre minha cabeça, descia pelo meu corpo, e saia no calcanhar; por aí você vê como é difícil a vida do roceiro. Na fazenda Aparecida não passava a jardineira, para irmos à cidade tínhamos que ir de carrinho. Por não haver estrada apropriada, transitávamos boa parte da viagem pelo corredor boiadeiro. Nesse trajeto, várias vezes, eu com a Maria e as crianças encontrávamos com boiada, para tanto era preciso dar meia volta com o carrinho e parar, para que o cavalo ficasse de costa para a boiada, senão poderia sentir medo e disparar. Após passar o ultimo boi, virávamos e continuávamos a viagem. O meu cavalo chamava Mimoso, era tordilho (que mais tarde ficou pedrês) e muito manso.
   Tinha um capão de mato, de dez alqueires, na fazenda Aparecida. Nessa mata tinha uma picada que a atravessava de um lado para o outro, era uma estrada antiga abandonada à quarenta anos. Ela ligava a sede da fazenda Aparecida à fazenda Santo Antonio que, no passado, fazia parte da mesma fazenda e que fora vendida para o senhor Lourenço Marinho. No alto dos troncos das árvores beirando a picada de um quilômetro, ainda tinha os sinais da linha telefônica, que servia para a comunicação entre a sede da fazenda e a secção de Santo Antonio. Eu morei na secção da Santa

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Cecília que ficava distante da sede dois quilômetros. Na ponta da colônia ficava a casa do fiscal e dessa casa até aquela matinha tinha mais duzentos metros. Na fazenda Aparecida não tinha energia elétrica e nem ônibus, como já disse antes, mas tinha escola, onde a Lídia e o José começaram a estudar. No quintal de minha casa tinha vários pés de frutas, tinha duas mangueiras grandes, uma era Bourbon e a outra Espada, e debaixo desses pés de manga eu tinha várias caixas de abelhas (Europa) que forneciam grande quantidade de mel para minha família. Em frente à colônia tinha o pasto, o campo de futebol e o mangueirão de porcos; para entrar nesse mangueirão, me lembro que tinha um pulador bem alto.
   Narro aqui um fato acontecido no dia sete de Agosto de um mil novecentos e quarenta e nove, na fazenda Quiçaça que era vizinha da fazenda Aparecida. Era um dia de Sábado, no dia anterior eu havia convidado meu primo Tião, que também morava na Aparecida, para visitarmos meu querido pai e minha querida mãe que moravam na fazenda Spechoto em Colina. No raiar do sol daquele Sábado eu peguei o meu cavalo tordilho (mimoso), tratei-o e o arreei; como eu, também o meu primo fez com o seu cavalo castanho de nome Pinhão. Depois de tomarmos um bom café, saímos, montados. A distancia era doze quilômetros até Colina e mais oito até o Spechoto. Logo que saímos, lá pelas sete horas, começou uma ventania muito forte vindo contrária a nós, que jogava areia em nossos olhos. Como a força do vento era tanta, precisávamos segurar o chapéu na cabeça com uma das mãos e com a outra segurar firme a rédea, pois os cavalos ficaram atrapalhados com a força do vento. Nós fechamos os olhos para não entrar aquele pó, e os cavalos iam passo a passo, não sei se com os olhos abertos ou fechados como nós. O vento era tão forte que certas rajadas parecia que ia tirar-nos de cima do cavalo. Chegamos na casa do papai com a roupa toda suja e com os olhos cheios de terra. Ventou o dia inteiro, e à noite aumentou ainda mais a ventania, fazia tanto barulho no telhado da casa que não podíamos dormir. Quando foi às vinte horas, a noite tornou-se

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clara quase como o dia, por todos os lados que olhávamos havia fogo (queimadas). Com aquele tempo seco e a ventania, um simples foguinho, que aumentava com a força do vento, foi se alastrando, devorando tudo, pasto, lavoura, roça, mata, o que achava pela frente. O vento só foi acalmar no outro dia. No Domingo almoçamos mais cedo e saímos de volta para casa. Pouco adiante do Spechoto, ali na ponte do rio José Venâncio, já começamos avistar a devassidão causada pelo fogo. Ele pegou daí dos três mata-burros e foi queimando tudo até na fazenda da Onça. Um outro foco de fogo foi na fazenda Coqueiros. Lá, além de queimar toda a roça, queimou cem carros de milho que estava amontoado esperando a debulhadeira, no dia seguinte, para beneficiá-lo. Milho, este, que praticamente já estava vendido, mas, foi devorado pelo fogo, deixando um grande prejuízo para o roceiro. Na medida que íamos cavalgando, íamos vendo a catástrofe causada pelo fogo. Quando chegamos no cafezal que trabalhávamos, por ser um lugar alto, ao olharmos para aquela imensidão do horizonte, pudemos ver que nas fazendas, da Barra, Quiçaça, Itaporã, estava tudo preto, só se via carvão e cinza. Ao chegarmos em casa o pessoal ainda estavam todos assustados e com medo. Então ficamos sabendo que um foco do incêndio havia começado na fazenda da Barra, distante um quilômetro da colônia que morávamos, e se alastrou. E que uma família conhecida nossa, estava preparando a terra para plantar; havia queimado o sisco da roça e praticamente apagado o fogo. Por ser dia de sábado, trabalharam até ao meio dia e foram para casa descansar o final de semana. Porém, depois de uma queimada, sempre ficam algumas brasas acesas no meio das cinzas. E naquele dia o vendaval impetuoso assoprou tanto que reacendeu aquelas brasas e as levou para outras roças e pastos secos, se alastrando tanto a ponto de causar aquela calamidade. O vento foi tão forte que nem o rio conseguiu barrar o fogo, as faíscas voaram para o outro lado do rio Palmeiras, formaram labaredas e foi lambendo tudo. Disseram, depois, que a velocidade do vento era de cem quilômetros por hora. Quando o fogo entrou na fazenda Itaporã, do senhor

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Guilherme Moura Andrade, os colonos foram todos para a coluna de fogo para tentar conte-lo e apagá-lo. À certa altura, o fogo avançou rápido demais que obrigou o senhor Guilherme Andrade, que estava montado em sua besta, boa e esperta, sair correndo e refugiar-se em um cafezal ao lado, saindo um pouco sapecado pelo fogo. Também alguns colonos refugiaram-se ali. Porém a maior parte da turma estava longe do cafezal e se obrigaram a correr para o lado oposto e se protegerem dentro de uma moita de Leiteiro (árvore que tem a madeira mole. Até então, eu nunca soubera para que serviria essa madeira), esse tipo de árvore só dá em terra ruim, e também, é uma qualidade de árvore que não trocam as folhas, não ficam secas, estão sempre verdes. Por esse motivo, dentro desse capão de Leiteiro não tinham folhas secas, nem nas árvores e nem no chão, também não tinha capins dentro da moita, assim eles ficaram protegidos, ali dentro, e não sofreram nada. O fogo queimou tudo que existia envolta, mas não penetrou no capão de árvores por não haver nada seco ali dentro. Mas, como nunca tudo é perfeito, dois de seus colegas não tiveram a mesma sorte, sufocaram com a fumaça e morreram queimados no fogaréu. No outro dia foram encontrados os seus corpos carbonizados, e ao lado suas ferramentas queimadas, uma foice e um facão. Se não fosse aquela moita de árvores no meio do pasto, teriam morrido duzentos homens, a metade dos trabalhadores da fazenda. Depois dessa passagem eu fiquei sabendo para que serve esta árvore de pau Leiteiro; serve para salvar vidas.
   Agora é que eu vou falar o fato da fazenda Quiçaça. Um camarada que estava também apagando o fogo, e que morava perto daquele pasto que o fogo vinha devorando tudo, correu para casa com a intenção de salvar sua família. Quando ele chegou, o fogo já havia chegado em seu rancho. Sua esposa tinha acabado de sair com os dois filhos menores e correram para um arrozal que tinha no fundo do quintal, na intenção de voltar buscar os dois mais velhos que dormiam no outro quarto. O marido, entrando na casa, só achou os dois meninos, acordou-os e arrastou-os para o quintal, pois deduzira que a esposa e os outros filhos estariam na roça de

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arroz e que eles também iriam. Porém, antes, tinham que atravessar em baixo de uma cerca de arame que separava o quintal do arrozal. Como o vento e a fumaça eram fortes demais, tirando-lhes o fôlego e a visão, se perderam um do outro e de direção. O pai conseguiu atravessar a cerca e encontrar a esposa e os dois filhos pequenos, mas os dois maiorzinhos só os encontraram no amanhecer do dia seguinte carbonizados perto da cerca. No Domingo seguinte o nosso fiscal levou uma carreta com o trator, cheia de roupas e mantimentos para aquela família, tudo arrecadado em nossa colônia.
   Morei ali de Outubro de 1947 até Outubro de 1951. No ano que eu entreguei o serviço, chegou um fiscal (Samuel Paulo da Cunha) para trabalhar na fazenda que, por sinal, era meu amigo desde a fazenda do Turvo. Lá nós éramos vizinhos (de casa), ele era nosso fiscal, e lá, ele havia namorado a minha irmã Carmelina. Então este rapaz insistiu para que eu ficasse, pois conhecia meus bons serviços, disse até que faria um melhor contrato para mim, dava café à meia, como eu quisesse, mesmo assim eu saí, pois já tinha combinado com meus parentes e fechado contrato com outra fazenda.
   Agora eu, meu sogro e meu cunhado Lázaro atravessamos novamente para o outro lado da cidade de Colina, lado oeste, ou seja, para o lado de Severínia, e fomos morar no bairro Monte Belo na fazenda do senhor Henrique Paro; que por sinal era a melhor, mais bem montada e mais organizada daquele bairro. Quando ali cheguei eu tinha trinta e três anos, a Maria tinha trinta e um, e tínhamos cinco filhos. Depois que acertamos o contrato com o senhor Henrique, perguntamos se ele traria o nosso milho junto com a mudança; ao que ele responde que não seria viável financeiramente por causa da distancia, e nos aconselhou que vendêssemos o nosso milho lá, e, que ele nos forneceria do seu aqui da fazenda. E acrescentou: vocês vão admirar o tamanho e a qualidade do milho que vou reservar para vocês. E também não vão ter o trabalho de retirar o milho do paiol para depois tornar recolhê-lo. No dia seguinte à mudança fomos na fazenda buscar o

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milho. O patrão mandou dois carroceiros com duas carroças, e fomos juntos para a fazenda Três Pontes, também de sua propriedade. Quem havia colhido o milho era o senhor Jerônimo Paulino (campeiro da fazenda). De fato as espigas eram bonitas e grandes que precisamos colocar duas sobre-tampas na carroça para que coubessem os cinqüenta balaios de milho nela. Nessa fazenda do Henrique morei durante seis anos. Foi nessa fazenda que meus filhos mais velhos começaram ajudar-me nos serviços da roça. De manhã iam para a escola e depois do almoço iam para trabalho. Essa mudança para o Monte Belo foi muito boa, não estranhamos nada, lá era muito bom de se morar. Nesta fazenda do Henrique Paro foi um dos melhores lugares em que morei. O patrão era bom, as casas muito boas, sua lavoura era ótima, terras boas, o pagamento era de trinta em trinta dias; no ano em que mudamos foi instalado a energia elétrica na fazenda. Tinha ônibus diariamente para a cidade. Tinha pasto a vontade para o cavalo e a vaca (de leite) do colono. Quando o colono tinha a vaca (solteira), ou novilha, ou garrote o patrão mandava o campeiro levá-las junto com seu gado para a invernada da fazenda Três Pontes – propriedade sua – e era bem tratado; como se fosse da própria fazenda. No quintal de minha casa tinha uma mina de água especial. Tinha um grande mangueirão no fundo da colônia, que era para os porcos dos colonos. A inauguração da força elétrica na fazenda do senhor Henrique Paro foi no dia de São João de 1952; neste dia houve grande alegria, tanto na sede como entre os moradores da fazenda. O senhor Henrique Paro foi o primeiro fazendeiro que instalou eletricidade no Monte Belo, para isso, ele puxou a rede desde a fazenda do governo até a sua. Não me lembro quanto tempo, mas, acho que, dois ou três anos depois os outros fazendeiros também instalaram luz elétrica em suas propriedades, iluminando de vez o Monte Belo inteiro. Com a energia elétrica foi uma alegria; eu que já tinha o cavalo e o carrinho, comprei uma vaca, com cria, (seu nome era Fazendinha) do senhor Adriano Monteiro, e ao mesmo tempo, comprei um radio (SEMP) que, além das boas músicas sertanejas, ouvia outros bons programas.

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Tinha uma Escolinha, e no ano seguinte construíram um Grupo Escolar (Adão Correa Melges), onde meus primeiros quatro filhos receberam o diploma do curso primário. Hoje este Grupo chama-se Escola Estadual de Primeiro Grau Benedito Paro. No primeiro ano de contrato o senhor Henrique deu as terras para os colonos plantar milho e arroz lá perto da lagoa (na Fazenda Lagoa, de sua propriedade), sua terra era há tempo cultivada, mas continuava muito boa (fértil). Junto com a semente do milho eu misturei uns bons punhados de semente de abóbora e plantei-as juntos. Quando o milho começou espigar – no fim de Dezembro - os pés de abóbora foram se alastrando, alastrou tanto que se encontraram todos. Dava até medo de entrar no meio do milharal com aquele aboboral, pois lá havia muitas cobras cascavel. Porém, depois que o milho secou a palhada ficou mais arejada e as abobreiras produziram fabulosamente bem. No mês de maio eu colhi o milho e depois colhi as abóboras. Fiz um enorme monte de abóboras no meio da roça e as vendi para o senhor Felipe, dono do hotel Brasil e do frigorífico Colina, na cidade de Colina (SP). As abóboras encheram um caminhão, e o senhor Felipe me pagou duzentos réis por unidade, e, com isso, tive um bom lucro naquele ano. No segundo e terceiro ano ele nos deu terra, para plantar, em uma outra de suas fazendas (no Cestari, onde os Malpica arrendavam terras). Era numa capoeira divisando com o café dos Conte na fazenda do Pedrinho Paro. O meu pedaço de terra era o mais distante, pois era o último, divisando com a cerca do pasto onde foi construída a torre para a retransmissão da televisão Tupi, canal quatro. De casa até nessa roça levávamos quarenta minutos, andando rápido. Para chegar nela tínhamos que passar por entre os fios de arame de quatro cercas. Lembro-me que certo dia, nesta roça, todos nós colonos estávamos preparando a terra para plantar e que, logo no início da tarde, deu um medonho vendaval com roda-moinhos fortíssimos, que jamais vi outro igual (imitando os tufões e os tornados). Os sacos de estopa vazios, os chapéus de palha, os embornais e as marmitas vazias voaram todos para o ar, ficando tudo amassado e rasgado de tanto baterem nos tocos;

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a gente olhava para cima e, junto com o poeirão, via os chapéus e as marmitas passando por cima das nossas cabeças e sumindo no ar; teve chapéus e marmitas que precisaram ser jogados fora.
   Com a divisão da herança entre os filhos do senhor Henrique, essa parte da fazenda ficou para o Armandão. Nos anos seguintes me deram terra mais perto, ali mesmo na fazenda onde era a colônia e onde era toda a lavoura de café que eu tocava. Na fazenda do João Henrique Paro era um local muito bom pra se morar era um lugar excelente para um pai de família criar seus filhos. Foi nessa fazenda que, em 06/10/1953, nasceu a minha filha Terezinha, e, também, a filha Sebastiana no dia 27/01/1957. Nesse dia vinte e sete, o João Henrique deu uma grande festa com churrasco e bebidas para todos os empregados e mais alguns convidados na secção que morava o Aurélio Cestari, para comemorar a inauguração de uma sede naquela secção. Como a Maria não estava muito bem, ficou em casa; eu fui, mas, apenas comi um pouquinho e voltei para casa. Quando em casa cheguei já encontrei a Maria em trabalho de parto e a senhora Aparecida Tezzoni de Salvi fazendo às vezes da parteira que não pode vir pois estava doente. A dona Aparecida não tinha grande prática e, para complicar, o parto era de alto risco. Corri na fazenda para telefonar para o médico, mas o patrão ainda não havia chegado da festa. Porém logo chegou e a patroa dona Adelaide – muito prestativa - me atendeu e ligou para a cidade. Por ser domingo foi difícil encontrar o Dr. Alcides, mas felizmente logo que o encontrou ele chegou. Eu fui esperá-lo na estrada e encaminhei-o até minha casa, para que ele não precisasse procurá-la, e assim não perdesse muito tempo. E, graças a Deus, com a chegada do médico, daí meia hora já estava tudo resolvido. Nasceu uma linda menina que leva o nome da minha mãe. Também foi nesta década de cinqüenta que a Maria, por causa de muito trabalho e muitos filhos novos, passou por muito sofrimento devido a sua tireóide. O Doutor Astolfo de Araújo, de Barretos, disse que ela precisaria de uma cirurgia, mas, que, naquela época, só poderia ser operada em São Paulo, que se fizesse no interior poderia não ser bem sucedida.

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Porém, pela nossa dificuldade de locomoção para a Capital, ele fez um bom tratamento que durou um ano e ela ficou boa. E continuou sendo, até aos setenta e oito anos quando faleceu, aquela companheira leal, mulher forte, trabalhadeira, guerreira, honesta, fiel, me ajudando em tudo para que nossa família, de fato, fosse uma família cristã.
   Eu estava muito bem na fazenda do João Henrique, não entendo como eu fui deixar o café de colono para tocar café à meia (45%) justamente na época da crise cafeeira. Em setembro de 1957 eu mudei para a fazenda do senhor Antonio Paro (no mesmo bairro, Monte Belo) para tocar café á meia. No primeiro ano não tive sorte, e posso até dizer que fui azarado. Vejam bem; a lavoura que eu peguei tinha dado carga no ano anterior, e no ano subseqüente (1958), que era a minha primeira colheita, não produziu nada, e, para o meu azar, o preço da saca de café que no ano anterior era de CR$ 910, 00, abaixou, por decreto do Presidente Juscelino K. de Oliveira, para CR$ 500,00. Vejam, além de não ter quase produto para vender, ainda o preço caiu pela metade. Passei dois anos no sufoco financeiro, o que me valeu foi as reservas que levei da fazenda anterior. – Com a construção de Brasília, a expansão da malha viária e a implantação da industria automobilística no Brasil, o Presidente (mineiro) queria mesmo era acabar com a lavoura cafeeira paulista; e conseguiu!
   Era na fazenda do senhor Antonio Paro que tinha todas as atrações do Bairro Monte Belo; tinha o campo de futebol, onde o time disputava o campeonato amador; tinha um belo armazém de secos & molhados, onde todo o pessoal da redondeza comprava; a maior parte dos fregueses comprava com prazo de um ano para pagar. Eu, porém, por ter guardado um dinheirinho e por não gostar de comprar nada fiado (comprava mais à vista), pouquíssimo eu comprava fiado neste armazém, eu gostava de fazer minhas compras no comércio da cidade.
   Uma coisa muito boa que tinha e ainda hoje tem lá é o grupo escolar, a minha casa era bem em frente. Uma outra coisa muito especial que tinha e tem lá é a igreja, Capela de Nossa Senhora

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Aparecida, onde todo aquele povo se reunia para a celebração da santa missa, houve um tempo em que era celebrada todos os Domingos. O senhor Antonio Paro era o catequista de todas as crianças do Monte Belo. O xodó do Bairro mesmo era a quermesse da igreja que acontecia todos os anos no início de setembro, esse evento fabuloso levava o nome e a fama do Bairro para os mais longínquos rincões. A distancia da minha casa até ao Grupo era de oitenta metros, até ao armazém era de cento e cinqüenta, até ao campo era de trezentos, e até à igreja era de quinhentos metros. Esta fazenda fica numa distancia de catorze quilômetros da cidade. No segundo ano (1959) eu já estava com a lavoura bem tratada, estava repolhuda, toda despraguejada então ela produziu – em média – quarenta sacos por mil pés. Morei cinco anos na fazenda do senhor Antonio Paro, nos dois primeiros quem administrou foi o seu filho José Antonio Paro (Bepim), e nos outros três anos quem administrou foi um outro seu filho, o caçula, Antonio Paro Filho (Tonico). Para o quinto e último ano do contrato a lavoura prometia boa colheita, o café estava bem viçoso, repolhudo (enfolhado), a botoação foi excelente, porém faltou chuva no mês de agosto e setembro e, por isso, os botões não chegaram à floração, eles amarelaram e caíram. A chuva só chegou no mês de novembro. Por esse motivo o senhor Antonio Paro Filho, que tinha e tem um bom coração, reconhecendo que não íamos ter colheita, nos propôs alteração no contrato e nos deu mais terra para plantar. E também nas tabelas que o café era mais fraco, e que iam ser arrancados no final do ano, concedeu-nos para que plantássemos duas covas de milho entre os vãos de pés de café. Como eu sempre fui bom plantador, então eu pedi para o Tonico que me deixasse plantar mamona no pedaço de roça que ele havia me dado a mais, e ele consentiu. E assim todos os sábados eu com meus filhos íamos colher mamona e trazíamos com a carroça para o terreiro de casa para secar. Com a venda dessa mamona eu fiz cinqüenta contos. Naquele ano, vários moradores abandonaram o contrato, no meio, e foram-se embora; alguns para a cidade e outros para outras fazendas. Eu que nunca larguei contrato no meio acreditei e tive

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sorte, terminei o contrato, mudei contente e também contente ficou o patrão. Com a venda do pouco café que deu e do milho que colhi na roça e no café, duzentos mil cruzeiros; da mamona, cinqüenta mil; da vaca que vendi para o Mário Spechoto, vinte e sete mil; da novilha que vendi para o Sebastião A. de Oliveira, treze mil; do carrinho e o burro arriado que vendi para o Silvio (baiano) de Oliveira, vinte e cinco; com mais sessenta mil que eu tinha em depósito na caixa econômica federal, apurei trezentos e setenta e cinco (contos) mil cruzeiros (moeda da época).
   Com esse dinheiro eu comprei um lote de terra por cento e cinqüenta mil cruzeiros em Americana, e paguei mais sete mil da escritura, isso foi no mês de julho de 1962. Depois de uma semana cansativa, consegui contratar um pedreiro (Augusto Casadei) para construir sessenta e cinco por cento da casa, ou seja, quatro cômodos, e um banheiro com fossa no fundo do quintal - naquela época não tinha rede de esgoto no Jardim São Paulo, isso só chegou em 1967 -, por duzentos e noventa mil cruzeiros. Deixei cinqüenta mil como sinal e no mês de agosto voltei para ver a obra e paguei mais quarenta mil, os duzentos mil restante foram divididos em quarenta prestações de cinco mil cruzeiros, prestações estas, que liquidei em vinte e quatro meses, pagando duas por mês.
   Chegamos de mudança em Americana no dia 17/09/16962. A mudança veio de caminhão e também meio filho José, junto. O motorista e dono do caminhão foi o senhor Sebastião Flor (Fiico), meu colega na mocidade. Eu, a Maria - com o João no ventre – e os outros seis filhos, viemos de Trem. – Conosco também viajou naquele dia o Antonio Cestari e a Júlia Conti, que tinham duas bebês gêmeas, novinhas; uma veio no colo da Júlia e a outra no colo da Maria -. A primeira coisa que eu fiz no dia seguinte da chegada foi comprar tela, as estacas eu trouxe do sítio, para fazer o galinheiro e colocar as trinta galinhas e um galo que eu trouxe na mudança. Meu pensamento era que, com os ovos dessas galinhas, eu não precisaria preocupar-me com a mistura por um bom período, mas, para meu desapontamento, as galinhas não botaram

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um só ovo, acredito que o motivo foi o trauma da viagem. Então, passado mais de um mês, vendi-as quase todas; segurei apenas algumas que, cada final de semana, matava uma e comia. Trouxe também dois sacos de estopa cheios de amendoim com casca e um saco de sessenta quilos de feijão. Do arroz da última colheita, eu reservei vinte sacos e deixei na máquina de arroz do senhor Antonio Areias, em Colina, que, a cada dois meses, beneficiava dois sacos e mandava-os para mim, através da ferrovia, aqui em Americana. Após cinco dias da nossa chegada eu fui trabalhar como servente de pedreiro na construção de uma casa na rua Princesa Izabel esquina com a rua Padre Epifânio Estevam; porém foi por poucos dias, arrumei um outro serviço para ganhar três vezes mais. Então fui trabalhar com um empreiteiro da prefeitura, no serviço de assentamento de guias e sarjetas, isso teve início no dia 06/10/1962. Os meus filhos José e Antonio foram trabalhar na Bosch do Brasil S/A, porém o Antonio trabalhou apenas três meses e o José seis meses, e o Nestor foi trabalhar na Fiobra Têxtil Lta., na secção de estamparia, lá ele trabalhou durante vinte anos. O José e o Antonio ficaram desempregados mais de um ano, depois se empregaram em outras empresas. O que me valia naquele início em Americana era o meio salário do Nestorzinho (naquele tempo o menor de dezoito anos recebia meio salário) e o meu salário que era bom. O serviço era duro, mas, eu ganhava mais que um tecelão, e isso me ajudou a terminar a construção de minha casa e fazer vários casamentos dos meus filhos. Nesse serviço eu trabalhei dez anos. Aqui vou tentar relacionar os locais onde eu coloquei guia e sarjeta: Jardim São Paulo, Nova Americana, Frezarim, São Manoel, São Vito, São Domingos, Santa Catarina, Colina, Praia Azul, e mais; av. São Jerônimo até perto da fibra; av. Brasil, desde a prefeitura até o final da avenida que era no cruzamento com a rua das paineiras; av. Cillos, do seu início até à caixa d’água do Jardim São Pedro; av. Fernando Camargo, toda sua extensão quando foi duplicada; av.dr. Antonio Lobo, do cruzamento da rua Carioba até na indústria Citra - esse foi um dos serviço mais duro e mais perigoso que já fiz na minha vida; a terra

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era tão dura que ali em frete da estação parecia vidro, a picareta batia e pulava para cima, nós arrancávamos aquelas guias velhas e as recolocávamos em um novo alinhamento, elas são de pedra granito maciça e pesam duzentos quilos cada, tínhamos que ter todo cuidado pois, os carros passavam tão pertos que as ferramentas quase batiam neles. Hoje essa avenida é tão bonita, mas só eu sei o quanto sofri para que ela ficasse assim -; av. Bandeirantes, desde a rua Carioba até à GAMA, subimos o Jardim Colina até à Fidam; av. N. S. de Fátima, na extensão que liga a av. Saudade e a av. Paulista; na praia azul fizemos vinte e três quarteirões. Na época da revolução de “64” em que o nosso prefeito foi cassado, ficamos sem serviço alguns meses, e por isso fomos colocar guias em outras cidades. Fizemos serviços em Sumaré, fizemos também dentro das Indústrias Romi em Santa Bárbara D’Oeste, e até num sítio perto do posto Piraju na Via Anhanguera. Com a posse do presidente da câmara como prefeito de Americana, o nosso trabalho voltou ao normal.
   Depois de dez anos de trabalho, saímos porque a prefeitura não deu mais os serviços para o empreiteiro, ela mesma começou a executar os serviços de guia e sarjetas. De 1971 para 1972 eu trabalhei um ano de servente na firma do senhor Miguel, os pedreiros eram os irmãos Cavalari.
   Com cinqüenta e cinco anos de idade eu entrei, no dia primeiro de novembro de 1972, dia de Todos os Santos, para trabalhar na Indústria Nardini S/A, na secção de montagem. Lá trabalhei dez anos e aposentei-me no dia 17/04/1983 com sessenta e cinco anos de idade. Gostei muito de ter trabalhado na Nardini, onde fiz muitos amigos, tanto de Americana como de Santa Bárbara. Os patrões eram bons, e, por um deles ser padre, todos os anos no tempo Pascal, eles realizavam palestras, confissões e santa missa para a celebração da páscoa de seus funcionários católicos. No início que trabalhei lá, a empresa não fornecia refeições, então a maior parte dos dias a Maria, minha esposa, preparava o almoço e levava-o quentinho para mim no serviço. Durante os dez anos que trabalhei na Nardini, todas as vezes que o Corinthians ganhava um

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torneio ou um título de campeonato, eu levava pacotes de balas e distribuía entre os colegas de trabalho. No ano que o título foi conquistado com a vitória sobre a Ponte Preta eu distribuí balas Chita para os colegas.
   Durante esses vinte e um anos de serviços aqui em Americana eu jamais faltei um dia do serviço, e sempre agradeci a Deus por isso. Porém devo admitir que, na época em que deixei a roça e vim para a cidade, se eu tivesse um sítio, eu não teria mudado; jamais eu teria vendido minha terra para morar na cidade; a vida no sítio é muito melhor.
   Como já disse, a primeira providência que tomei foi fazer o galinheiro e a segunda foi procurar duas vagas nas escolas, uma para a Maria Aparecida, que tinha onze anos e estava na quarta série, e outra para a Terezinha, que estava na segunda série e contava com oito anos de idade. Achei vaga para a Maria (Ni) na escola mais perto que havia, isto é, na escola do Jardim São Paulo, que era na rua Florindo Cibim, perto do clube do bosque; para a Terezinha não tinha. Como eu queria que as duas fossem juntas para servirem de companheiras, fui até a escola Heitor Penteado, que era ao lado da Matriz de Santo Antonio, lá achei vaga para as duas, mas, por ser longe de casa e tinham medo dos carros (eram recém-chegadas do sítio), não quiseram ir. Então fui na escola do Sesi, no bairro Frezarim, e consegui uma vaga para a Terezinha. Assim a Maria Ap. estudou no Jardim São Paulo e a Terezinha no Frezarim. Pense bem, uma menina de oito anos recém-chegada da roça, saía às sete horas da manhã de casa, na rua dos Cedros no 536, caminhava até a ponte em frete ao hospital da Unimed, atravessava o córrego, seguia em frente passando pela Distral e ia morro acima, quarteirão mais quarteirão, até chegar na escola, que fica perto da Industria Nardini; e isso ela fazia sozinha, porém, nos idos dos anos sessenta não tinha tanto perigo como tem hoje.
   No dia sete de novembro de 1962, cinqüenta e um dias após à nossa chegada, nasceu o nosso filho caçula o João Bosco. A Maria, minha esposa, sempre lutou ao meu lado, ela foi o grande esteio que me ajudou a sustentar a batalha; e vencemos!

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   Quando terminou o quarto ano da escola e completou doze anos de idade a Maria Aparecida se empregou numa tecelagem, me ajudando no sustento familiar com o seu meio salário. Também a Teresinha, ao completar doze anos, começou a trabalhar na tecelagem. Também a Tianinha, ao completar idade, estudou no grupo escolar do Jardim São Paulo; depois no Kenedy, e logo começou trabalhar numa tecelagem. O tempo foi passando, fomos acostumando com a nova situação de vida, progredimos e vencemos; somos uma família unida e feliz.
   Em 1980, 1982 e 1995 eu viajei para o Estado do Rio para rever a terra em que nasci. Visitei Barra Mansa, Volta Redonda, Rio Claro e Angra dos Reis. Em Rio Claro, minha terra, além de toda a cidade, igreja, cemitério e parentes, também fui na fazenda em que nasci. Lá eu pude entrar no casarão do meu avô, onde minha mãe nasceu e viveu até aos vinte e cinco anos, também revi o local onde era a casa em que nasci. Hoje os proprietários dessa terra são meus primos. Dali também pude contemplar de perto a grande montanha onde ficava o sítio do meu avô paterno, local que meu bisavô, meu avô e meu pai nasceram.
   Aquela família que começou no dia 21/12/1940 com duas pessoas, Nestor e Maria, multiplicou tanto que hoje já somos em cinqüenta e duas pessoas, ou seja; eu e esposa, quatro filhos e quatro noras, quatro filhas e quatro genros, nove netos e oito netas, três sub-netos porque casaram com minhas netas e três sub-netas porque casaram com meus netos, seis bisnetos e cinco bisnetas. Destas cinqüenta e duas pessoas tem quatro falecidas. Hoje os mais velhos já estão aposentados e os mais novos trabalham ou estudam. Todos têm casa para morar, carro para passear, e professam a mesma fé cristã seguindo a santa igreja católica, a mesma de meus antepassados.
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   Quatro gerações

   Meu bisavô nasceu, viveu e morreu no mato, meu avô foi violeiro e meu pai foi caçador. Eu que sou bisneto, neto e filho, não sei para quem puxar. Morar no mato é difícil, tocar viola, é duro de aprender, caçar, eu não tive inclinação, nem pensar. Sempre tive dó dos bichinhos e também dos passarinhos. Dos meus seis aos doze anos, sempre acompanhei o meu pai quando ia caçar. Ele atirava nas juritis, nos nhambus e outras mais; a caça caia e ele mandava eu ir buscar. O coitadinho do passarinho ainda estava quentinho e eu ficava morrendo de dó. Eu era menino, mas já sabia que os passarinhos vivem em casal, e quando a fêmea está chocando não pode largar o ninho, então é o macho que traz a comida, tanto para ela como para os filhotes, após nascerem, até poderem voar e começar a labuta de achar comida. Naquele momento em que eu pegava aquele passarinho em minhas mãos, eu sentia meu coração amarrar, por saber que aquele pássaro poderia ter filhotes no ninho e que iam morrer de fome. Isso deixou marcas profundas em minha memória, a ponto de, até hoje com oitenta e cinco anos e mesmo sendo filho de caçador, nunca ter pegado uma arma de fogo ou um estilingue para matar um passarinho ou um bicho. O único bicho que matei, quando morava na roça, foi cobra venenosa. Também matei porco e galinha para comer. Se for pecado, só desses três é que eu terei que me justificar perante Deus, quando Ele me levar. O meu querido e saudoso pai foi um homem muito bom, foi bem educado na santa religião católica, mas por ter nascido e morado no meio do mato onde tinha muitas caças, começou bem menino e ficou fanático – já veio de berço essa inclinação para caçar - ele tinha a natureza e o espírito de um Bandeirante, não tinha medo de nada dentro de uma mata virgem, aquilo era vida para ele e sendo assim; acredito que não cometeu pecado, pois toda  caça que matava ele comia, era

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como uma sobrevivência. Todos os Domingos antes da caçada ele ia à cidade participar da missa e da santa comunhão. Só depois de cumprir o preceito religioso é que ele saia para a caçada, sua diversão. Meu bisavô Joaquim de Oliveira viveu a vida inteira em seu sítio, em cima da serra no meio do mato, só ia à cidade uma vez por mês, fazer compras e à missa. Gostava muito dos animais e dos pássaros, diziam que às vezes, até dentro da igreja, ele se distraia e imitava o cantar dos pássaros. Meu avô Zózimo Isidoro de Oliveira viveu na roça e trabalhou até cinco dias antes de sua morte, com mais de setenta e cinco anos. Foi um dos homens mais religioso que eu conheci na minha vida, trabalhador, honesto, íntegro, homem santo, homem de Deus. Meu pai Ezequiel de Oliveira sempre trabalhou na lavoura, gostou demais de estar no meio do mato, sofreu muito, pois nunca teve boa saúde, porém, foi um homem honrado, honesto, íntegro, religioso (conhecia e entendia bem a religião católica e à praticava), foi um caçador de primeira. Todos os três (pai, avô e bisavô) primavam pela integridade da família, também eu não fujo à regra. Acredito que eu pareço com os três, puxando um pouco mais para o meu avô.
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   Bilhetinho de aniversário

   No dia 28/06/1998 eu fiquei um pouco mais velho; mas em compensação, também, fiquei mais alegre. Pois neste dia veio ao mundo mais um bisneto, forte e bonito, e foi batizado com o nome de Vitor. Ele é o décimo bisneto meu. Eu quero dar os meus parabéns e que Deus abençoe o Vitor com bastante saúde e felicidade. É o que o bisavô Nestor de Oliveira deseja a você Vitor.
   Meus parabéns para o meu neto Ezequiel e minha neta Viviane. E parabéns ao vovô Nestor Filho e a vovó Zenaide.
   São os votos de Nestor de Oliveira – hoje dia 28/06/99
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   Cipós e Árvores

   Durante os anos que vivi na roça eu entrei muito em mata virgem, por isso conheci vários tipos de cipó e de árvore. Vou relacionar alguns nomes. O cipó Branco é bom para amarrar e contém água boa para beber; se a pessoa está perdida ou caçando, e sem água, no mato, encontrando este cipó, corta-o um pedaço e deixa verter a água dele na boca, ela mata a sede. O cipó Imbé é o melhor cipó que tem para amarrar, é tão bom como o arame; esse cipó Imbé da uma frutinha muito gostosa para os passarinhos que, ao comê-las, levam as sementes para as pontas das árvores, lá elas nascem e descem aqueles fios compridos até ao chão. Tem o cipó Cambira, cipó Prata, cipó Corrente, cipó Urtiga, cipó Sumo, e tem também os cipós que dão mais em campos e roças como; o cipó São João (que por sinal as flores são lindíssimas), cipó Macaco (dá muito nos pés de café) etc... E árvores, conheci; Peroba branca – rosa – poca e mirim, Ipê branco – amarelo – rosa e roxo, Cedro rosa e Cedrinho, Pau-d’alho, Jequitibá, Jatobá, Guarantã, Monjoleiro, Guaissara, Canela, Aroeira, Aroeirinha, Cabriuna, Pitangueira, Pereira, Guatinga, Cinco Chagas, Marinheiro, Pinheiro, Paineira, Pau-brasil, Angico branco e roxo, Graúna, Farinha Seca, Quaresmeira, Amoreira branca, Lixa, Cambará-guacú, Sassafrás, Canafista, Bico-de-pato, Pau-de-imbira, Ingazeiro, Pau-olho-de-cabra, Eucalipto, Suinam, Capitão, Pau-pólvora, Mandiocão, Pindaíba, Amendoim, Timbó, Seringueira, Copaíba, Osso-de-burro, Garapeira, Santa Bárbara, Cinco-dedos, Figueira – tem cinco tipos-, etc...!
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   O Banco do meu Tataravô

   Até no início do século vinte as casas no sítio eram assim: As casas dos fazendeiros e sitiantes eram construídas de taipas, cobertas com telhas comuns e os pisos assoalhados; e as casas dos


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pobres eram de pau-a-pique, cobertas de sapé amarrados com cipós e os pisos eram de terra batida. Os móveis eram feitos em casa. O meu avô Zózimo Isidoro de Oliveira, que era sitiante, tinha as camas e os baús nos quartos; tinha as prateleiras na sala, cozinha e despensa; uma mesa na sala e uma na cozinha; tinha umas cadeiras pesadas que eles chamavam de tamborete; e tinha um banco grande e pesado. Todos esses móveis eram de madeira - que eles tiravam da mata - e feito por eles na própria fazenda. Deste banco eu tenho uma história para contar, ele ultrapassou um século junto com a família. Quando meu avô Zózimo casou e foi morar na casa do seu sogro – a avó Gertrudes, sua esposa era filha única – este banco já tinha mais de cinqüenta anos e pertencia ao meu bisavô Mariano Antunes. Quando o vovô Zózimo mudou-se de Rio Claro (RJ) para Rezende levou o banco junto, pois, com o falecimento do sogro o banco ficou para ele. Foi morar em Aparecida (SP) e o banco foi junto. Mudou-se para Jaborandí, onde morou por seis anos, o banco estava junto. Foi para Colina e o banco também. Dois anos mais tarde voltou para Jaborandí, o banco também foi com ele. Morou mais dois anos em Jaborandí e, com setenta e cinco anos de idade faleceu, o banco estava com ele. Então a avó Gertrudes foi morar na casa de seu filho José (tio Zeca) e levou o banco com ela. Agora este banco começou acompanhar as mudanças de seu novo dono (tio Zeca), que não foram poucas: Entre Colina, Jaborandí e Barretos foram mais doze mudanças, e o banco acompanhou. Chegando a velhice, o tio Zeca foi morar com o seu filho Sebastião na fazenda Monte Belo e levou o banco para a casa do filho. Passados dois anos o tio Zeca e a tia Jove, agora cansados dos trabalhos da roça, foram morar na cidade, na casa da filha Ester em Jaborandí, deixando o banco para o Sebastião. De dono novo o banco fez outra mudança, saiu da fazenda do Jacó Paro e foi para a fazenda do João Henrique Paro, no mesmo bairro Monte Belo. No ano de 1964 o Sebastião mudou-se para Americana e trouxe o banco para a cidade, continuando a tradição. Lembro-me que na festa de casamento do seu filho Zezinho eu vi o banco e ainda pude sentar nele.

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O impressionante era ver numa das pontas daquele banco um rebaixo na madeira, do tamanho de um palmo de mão numa profundidade de três centímetros, causado pelo corte do canivete e do facão do meu bisavô Mariano Antunes quando cortava as palhas e picava os fumos para seus cigarros. Ele ficava horas e horas cortando e picando, palha e fumo, naquela ponta do banco; depois os colocava numa bolsa de couro e os levava para pitar na viagem toda. È que meu bisavô foi tropeiro e viajou muito entre os estados do Rio, Minas e São Paulo. Nessas viagens ele comercializava burros, queijos e doces, e ficava até dois meses fora de casa; o mais famoso comércio de tropas naquela época era Sorocaba (SP), e ele seguia até Piracicaba.
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   À minha irmã Teresinha

   Querida irmã Teresinha é com muito prazer, mas também com muita saudade que lhe escrevo estas poucas linhas, parabenizando-a pelo seu aniversário e, desejando paz, saúde e felicidade para você e aos seus. Enquanto nós (aqui de casa) estamos bem de saúde, graças a Deus. Teresinha, mais um ano de vida você vai completar; e Deus vai te abençoar dando-lhe muitos anos de vida, para nos alegrar. Ele te dará bastante saúde, paz e amor; e eu te dou um lindo buquê de flor. Com a graça de Deus tudo se alegrará, este é o melhor presente que há. Irmã, eu já fiz tantos aniversários, que já nem me lembro quantos. Eu fiz três aniversários em Rio Claro (RJ); seis em Resende (RJ); oito em Jaborandí (SP), no Moço; doze em Colina (SP), Mandaguari, Turvo, Fazenda Colina, São Joaquim; quatro em Jaborandí (SP), Aparecida; onze em Colina (SP), no Monte Belo; quarenta e um em Americana (SP), no Jardim São Paulo. Juntando tudo isso, na minha cabeça faz um reboliço. Não sei se sou velho ou se sou moço, só sei dizer que tudo é um colosso e, que pra ninguém eu fui estorvo, e digo, se Deus quisesse eu começaria tudo de novo. Abraços.
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   Minha primeira filha

   Querida filha, Lídia, hoje é seu aniversário, parabéns e saúde. Foi no dia 10/10/1941 que você veio ao mundo para nos alegrar. Eu e sua mãe estávamos morando em uma casa de cinco cômodos, grandes, e sentíamos a casa muito vazia. Daquele dia em diante, você veio embelezar a nossa casa, já não sentíamos sozinhos, pois, você estava sempre fazendo um barulhinho no quarto. Passado uns dias eu fui até a sede da fazenda, e ali perto do terreirão morava um senhor chamado José Moreti, que era manco de uma perna e tinha uma turminha de filhos pequenos. Todos os retalhos de madeira que sobrava da serraria da fazenda, o fiscal dava-os para o senhor José que, por sua vez, fazia várias peças (brinquedos e móveis) para vender, e assim entrava um dinheirinho extra para ele criar a filharada. Nesse dia eu comprei, do seu José, um berço, muito forte; os dois balanços do berço eram feitos de Amendoim (madeira de lei, fortíssima). Levei-o para casa e coloquei você, querida filha, para dormir. Passado quatrocentos e trinta e oito dias veio ao mundo um garotão, que demos o nome de José, e lá vou eu novamente na casa do seu Moreti. Quando o homem viu-me chegar perguntou-me: Outra vez? E eu respondi, outra vez; e continuei, de agora para frente o senhor não pode parar de fazer berço. Levei outro berço, por sorte o nosso quarto era grande e coube bem. Coloquei o seu berço do lado da mãe e o do José do meu lado. Amarrei uma tira de pano em cada berço e quando, tarde da noite, vocês choravam, eu ou a sua mãe pegava nas tiras e balançava os berços, assim vocês dormiam novamente sem precisarmos levantar. No dia 06/08/1944 nasceu o Antonio, aí você deu o seu berço a ele e eu comprei uma caminha para você. Um daqueles berços foi passando para todos os meus filhos, um por um. O outro eu dei para a Júlia (minha cunhada) e ela usou para todos os seus filhos. Nós morávamos na fazenda do Turvo, na colônia do Tobias. Hoje, ali, não tem mais casas, só tem canavial e uma grande saudade.

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   Naquela grande colônia, em dezembro, na colheita de feijão, era uma maravilha ao olhar aquele povo trabalhando (batendo feijão), era cambão que subia, era cambão que descia, parecendo uma dança de balé, era lindo demais. (10/10/2003)
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   Saudade

   Neste mundo tudo chega e tudo passa, mais uma saudade não passa. Vai ruindo devagar. O sol se vai e deixa a escuridão, mas, no amanhecer, ele volta e tudo se clareia, volta a esperança. Porém, quem deixou esta saudade não é como o sol, que todas as tardes vai e no outro dia volta, afastando a escuridão, esta saudade não vai embora, não desprega do meu peito, ta ruindo sem parar. Por que tudo chega e tudo passa e essa malvada saudade não quer passar? A água do rio vem correndo, nem bem chega, já passa, vai pro mar. A lua cheia vem tão bela, também passa; por que essa saudade não passa? O calor vem e passa, o frio vem e passa, a chuva vem e vai-se embora; só a malvada saudade não sai do meu peito, ta querendo me acabar. Mas Deus é Pai; um dia, saudade, você tem que me deixar, porque tudo vem e tudo passa, você também tem que passar. A lua aponta lá em cima da montanha e vem varrendo a escuridão. Os rios vêem correndo e vem trazendo as folhas secas e vai levando-as para o mar. Essas águas dos rios não voltam mais, são iguais a minha alegria que foi e não quer mais voltar. Vocês nem calculam o que eu tenho sofrido, e essa saudade cada vez aumenta mais. Eu como e bebo, mas só quem passa por essa situação é que sabe o quanto é triste. Se eu ainda tivesse emprego, regular, não teria sofrido tanta saudade, pois o trabalho distrai a pessoa dos maus pensamentos. Eu peço aos meus filhos(as) que estimem e amem muito suas esposas(os). Porque quando se perde a companheira (o) o mundo parece se acabar, toda alegria é só da boca pra fora. O mundo perde a graça, porque tudo passa e a saudade não passa, só termina quando morrer.

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   Se as pessoas soubessem como é triste a vida de quem perde a companhia, nunca daria um tiro, nem mesmo num passarinho, pomba, nhambu, para não deixar um sozinho no ninho. Eu agradeço a Deus por ter-me abençoado com muita saúde e vontade de trabalhar e também pela família que tenho, pois me respeitam e me amam muito. Agradeço pelos meus oitenta e cinco anos de idade e pelos cinqüenta e oito anos vividos junto com minha amada.
Abraços; e peço que Deus continue abençoando minha família. 17/04/2003 - NESTOR.
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   Natal e Reis

   Meus queridos filhos, outra vez chega o natal. O natal de hoje é tão diferente do natal do meu tempo de criança. Naquele tempo os pais falavam para os filhos: Está chegando o dia de natal e você tem que se confessar, comece já examinar sua consciência para não errar e nem esquecer nada. Ninguém pensava em festa de comedeira ou bebedeira. O que se usava fazer, em quase todas as casas, era armar um presépio. Fazia um presépio bem arrumadinho porque, naquela região, a partir do dia vinte e cinco de novembro começava as atividades das Folias de Reis. As folias passavam em todas as colônias, de todas as fazendas e, nas casas que eram permitidos entrar e que tinha presépio, o mestre da folia tinha que ser bom, pois, era dever dele cantar (em forma de versos) saudando todos os santos que estavam expostos no presépio. Os foliões cantavam o nascimento de Jesus e louvavam muito Nossa Senhora. Em nome dos três Reis Magos eles cantavam pedindo e, depois, agradecendo a esmola, e também, para que fosse abençoada aquela família. No final cantavam convidando a família para festa, que geralmente era depois do dia vinte de janeiro. Enquanto os foliões cantavam, os palhaços, usando aquelas roupas vermelhas e estampadas pulavam e dançavam, sempre de olho em alguma coisa da casa (que depois pediam), tais como; ovo,

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linguiça, toucinho, frango, pão, café etc... Além das roupas extravagantes, os palhaços usavam chapéu (na forma de um cone) na cabeça, máscara no rosto e um facão nas mãos; e era com esse facão que eles faziam malabarismo, e as crianças pequenas tinham medo desses palhaços. Quando a folia chegava na frente de uma casa, o porta-bandeira falava: Aceita o Santo Reis, patrão? Se o dono da casa aceitava, entrava todos os foliões, se ao contrário aceitasse somente a bandeira, então o porta-bandeira lhe passava-a, e com a bandeira em mãos o morador percorria todos os cômodos da casa e a entregava de volta ao mesmo, e, junto, sua oferta aos Santos Reis. Essas folias percorriam as casas, de vinte e cinco de novembro a seis de janeiro (dia de Santos Reis). No dia da festa o dono da folia dava uma janta, depois, todos rezavam o terço e na seqüência começava o baile. Quando dava meia noite ele servia pão com café, aí o baile amanhecia.
   Na noite de trinta e um de dezembro ninguém dormia, é que, além das folias de Reis, a rapaziada da colônia saía em turmas fazendo serenatas nas casas e amanheciam o dia Primeiro, cantando.
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   Cafezal

   Com oitenta e cinco anos de idade eu ainda tenho boa memória, lembro-me de fatos acontecidos na minha tenra infância. Por ter nascido e vivido durante quarenta e quatro anos na lavoura, sempre gostei de trabalhar e de plantar, todos os anos quando chega os meses de agosto e setembro, parece-me sentir o cheiro das flores do café e da jabuticabeira. Ao sentir este cheiro me dá uma saudade danada daqueles tempos, nas fazendas grandes. No mês de agosto o cafezal dava a primeira florada, em setembro dava a segunda (que era a melhor e maior) e, no ano que a lavoura estava viçosa, dava uma terceira florada, porém, bem menor que as primeiras. No ano que o cafezal prometia boa produção, alegres os colonos iniciavam os trabalhos, sabiam que no final do ano teriam

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um pagamento gordo, pois, recebiam pela quantidade de sacas colhidas. Porém, no ano que o café não produzia, a colônia ficava triste, é que mudavam muitas famílias para longe e a gente perdia os amigos; tinha que começar, da estaca zero, com outras amizades, com aqueles que vinham de fora. Como eu disse acima, sempre gostei de plantar, e, ainda gosto, quando chegam os meses de agosto e setembro e eu ouço, à noite, a chuva no telhado chego até sonhar que estou medindo o mantimento (semente) para ir plantar na roça. Nesses “sonhos” eu falo pros meus filhos; José, vai logo pegar o Diamante (animal); Tonho, vai pegar a enxadinha; Nestorzinho vai encher o garrafão; Lídia, pega as latas para colocarmos as sementes que vamos plantar na palhada. Parece tudo real (até penso que estou acordado), derrepente eu acordo e fico triste em saber que tudo foi um sonho. De todos os lugares que morei que sonho mais é com a fazenda do Turvo. Este foi o local que eu mais gostei de morar e foi também nesta fazenda que eu vi a maior alegria na vida de minha querida mãe e de meu querido pai; e digo porque: Eles moraram seis anos ali (39 a 45), a semana de trabalho era de cinco dias (Sábado e Domingo eram livres), papai e mamãe gostavam de ir aos finais de semana na cidade fazer compras, ir á igreja e visitar parentes e conhecidos; aos Sábados papai pegava a espingarda e ia naquela grande mata, virgem, fazer o que ele mais gostava, caçar; naquele lugar a mamãe tinha conforto, pois a casa era boa, construída com tijolos, tinha luz elétrica, bom quintal, forno, cisterna, fruteiras; a lavoura do café era perto da colônia e era terra boa; o ônibus que ia para a cidade passava duas vezes por dia e o ponto ficava a cem metros da colônia; ali tinha conforto e fartura; o pasto era bom e perto da casa, não dava trabalho para cuidar da vaca e tirar o leite – a mamãe sempre criou vacas e galinhas, e todos os meses vendia ovos e frangos. E uma vês por ano, vendia um ou dois bezerros, investimento, este, proveniente da herança da venda do sítio do seu pai, em Rio Claro (RJ).
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   Festa no Monte Belo (capela e meu pai)

   Durante os onze anos que morei no bairro Monte Belo eu participei de todas as festas (quermesse) em louvor a Nossa Senhora Aparecida, padroeira da Capela e do bairro. Festa grandiosa, tanto em qualidade como em quantidade; e tornava-se ainda mais bela, por ser realizada debaixo daquela imponente e inesquecível Figueira. Essas imagens jamais deixarão de existir na memória daqueles que participaram deste prazeroso festejo. E prova disso, ainda hoje, lá, a festa é fabulosa. Não mais sob a sombra e a proteção da centenária e magnífica Figueirona, pois, há muitos anos um vendaval a destruiu, mas sim, é realizada no galpão e pátio do nosso queridíssimo, antigo, Grupo Escolar Professor Adão Correa Melges, que hoje é Escola Estadual de Primeiro Grau Senhor Benedito Paro. No dia 09/06/2003, eu e mais doze pessoas da minha família, juntamente com os amigos, fomos em dois ônibus (fretados) nesta magnífica festa do Monte Belo, no município de Colina (SP). Como já disse acima, a festa foi no galpão e no pátio da escola, entre as mangueiras. Trabalham nesta festa a comunidade da igreja e a comunidade da escola, e a renda é repartida entre ambas, em partes iguais. Lá, além de reencontrar com os amigos e com a escola, também visitei a capela e a imagem da Mãe. Essa igreja do Monte Belo, jamais eu deixarei de lembrar, foi nela que casou a minha primeira filha. Nela eu participei de todas as missas que houve aos Domingos, enquanto lá morei. Durante cinco anos eu passei em frente ou ao lado dela, enquanto eu ia ou voltava do trabalho, na lavoura. Tenho muitas recordações alegres desta igreja, mas tenho uma triste também, ou seja: Lembro-me do dia 11/08/1961 quando eu estava passando ao lado desta igreja, vindo do café novo trazendo um feixe de lenha nos ombros, o sol estava terminando de se pôr, eu estava muito cansado, pois, a caminhada da tabela do café novo até em casa era de quarenta minutos, andando ligeiro. Nisso, eu que observava a capela, de repente virei o olhar para a minha direita e vi que a senhora Lúcia saia de sua casa (sede da fazenda) e vinha para o
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lado da estrada em que eu ia passar. Eu, que tinha meu pai doente, pensei; é algum recado que ela vem me dar. Ao chegar perto, ela disse-me: Veio um recado para você, dizendo que seu pai faleceu no hospital de Barretos. - Daquele dia em diante todas as vezes que eu passava (passo) ali na capela me vinha (vem) na lembrança àquela hora triste em que recebi a notícia da morte do meu querido pai. – Cheguei em casa casado, empoeirado, com fome; e o pior, sem dinheiro em casa (o meeiro só vê dinheiro no fim do ano, com a venda do café). Joguei a lenha no terreiro, banhei-me na bacia, no quarto (não tinha banheiro e muito menos chuveiro), vesti-me roupa limpa, comi um pouco e fui para a casa do patrão pedir dinheiro (emprestado) e também ver se ele (Tonico) podia levar-me, juntamente com meu irmão José, para Colina. O dinheiro ele me emprestou, mas levar-nos ele não pode. É que o caminhão estava carregado com duzentos e vinte sacos de café que ele ia levar para Severínia (SP) para serem beneficiados. Porém ele telefonou para a cidade e pediu para um táxi vir buscar-nos. De Colina a Barretos tomamos outra condução.
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   Meu Enxadão ‘Querido’

   Oh! Enxadão querido, quando te pego, em minhas mãos, vêm-me tantas recordações, nesse instante vem-me uma saudade, que sai do fundo do meu coração. Você sabe que essa nossa amizade vem desde o ano de 1941. Lembro-me que foi no começo de setembro que o nosso administrador mandou o fiscal avisar todos nós, colonos, da fazenda para que, quem não tivesse, fôssemos comprar, pois tínhamos um serviço para ser executado e todos precisariam desta ferramenta. Então eu fui para Colina, e lá na Casa São Domingos eu te encontrei e te comprei. A colheita de café daquele ano foi fraca e terminou um mês antes do prazo. Assim a fazenda nos mandou em uma invernada (pasto grande), que ficava na divisa com a fazenda Santa Genoveva, para arrancarmos todos os arbustos de amendoim, arranhagatos, lixas e

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cipós de todas as qualidades, foi um mês de serviço bruto, mas, foi divertido. E você, enxadão, foi meu grande companheiro nessa empreitada. Depois que arrancamos os arbustos fomos roçar as ervas e capins rasteiros. Então foi mais divertido ainda, era bonito ver, aqueles cem homens, todos manejando as suas foices. Levávamos um eito de duzentos metros de extensão, duzentos indo e duzentos voltando, era bonito e engraçado ver o bailar das foices. Naquela invernada havia muitas aves e bichos, pegamos várias cobras cascavel que, em caixas, eram mandadas para o Instituto Butantã. Quantos passarinhos, nhambus e codornas que pegamos! Várias codornas, ao levantar vôos do ninho, batiam nas nossas foices, que estavam no alto para dar o golpe no capim, e caiam mortas. Lembro-me que um cachorro do mato saiu no meio de nós, e, pega daqui e pega dali, ele conseguiu vazar o cerco passando entre as pernas de um colega e saiu ileso fugindo para o mato. Se este enxadão velho falasse, quantas coisas ele ia contar! Já perdi até as contas de quantos tocos ele me ajudou a arrancar. Lembro-me também, que naquela capineira beirando a mata da fazenda do senhor João Henrique Paro, você enxadão ajudou-me a desbravá-la, arrancando todos aqueles tocos. Quantos buracos você fez! E também quantas cercas fizemos juntos! Lembra dos cochos (para colocar os alimentos dos animais) que você ajudou-me a furar, querido enxadão! Devo admitir, enxadão, que você é mais forte que eu; ou seja: você furou aquele coxo de aroeira e não sentiu nada, enquanto que eu fiquei cansado e com o corpo todo dolorido. Meu querido enxadãozinho, você me ajudou a criar meus queridos filhinhos, por isso é que eu lhe estimo tanto. Eu não dou e nem vendo você para ninguém. Você é para mim uma jóia preciosa e me acompanha há mais de meio século. Em todas as casas que nós mudamos, era com você que eu furava os buracos para fazer as cercas e, também, para fincar as estacas dos varais de roupa. Você acompanhou-me durante vinte e um anos, na roça, e quando mudei para a cidade, você também veio, pois a nossa união para o trabalho era tão grande que não tive coragem de ti deixar. Eu coloquei você em cima do caminhão e partimos, porém, eu vim de

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Trem e quando aqui cheguei você já estava me esperando. Um dia desses, ao olhar-te, eu senti dó em ver-te com este cabo de peroba, tão grosso, pesado e comprido. Esse cabo tira boa parte de sua força, na hora de penetrar na terra. Eu estou velho e já estou parando com minha empreitada, ao passo que você, ainda vai longe, vai furar buracos por mais uns sessenta anos. Até lá; somente Deus saberá onde estarei. Da minha parte eu espero estar com nosso Pai no céu. E você, meu enxadão, quando estiver bem pequeno, com sua lâmina toda gasta, vão te vender como sucata e te derreter na fornalha, e, provavelmente, na fundição de ti farão uma nova ferramenta e com isso um outro trabalhador comprar-te-á e vocês seguiram uma nova jornada.
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   Meus Cabelos Brancos

   Eu tenho meus cabelos brancos e gosto deles assim como são. No passado eles eram pretos como carvão, eram fortes, fechados, não caía um só fio no chão. Hoje, quando eu olho pros meus cabelos e vejo que estão brancos como algodão, fico feliz e contente; e sei que eles também vivem contentes comigo, pois nunca quiseram me deixar. Não caíram e nem foram embora com o vento, não quiseram me abandonar. Quando eu tinha apenas vinte e cinco anos de idade, um dia na hora do descanso após o almoço, na roça, o meu cunhado Lázaro me disse: Você já viu quantos cabelos brancos que você tem? Por que você não arranca esses fios? Eu lhe respondi; se eles quiserem ficar aí até os cem anos podem ficar, eu não vou arrancá-los; com isso meu cunhado começou dar risada. Eu, que sempre fui conservador, não gosto de todo esse modernismo. Em alguns pontos, eu acho que pessoas de idade avançada não ficam bem com cabelos tingidos, não é legal, fica ridículo. Já vi pessoas que quis tapar o sol com peneira, mas não teve jeito. Se a minha natureza é de ter cabelos brancos, então deixem eles aí; eu devo, é, agradecer a Deus por eles estarem aí, sempre protegendo minha cabeça do sol e do frio.

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   Os cabelos brancos, é verdade, deixa as pessoas mais velhas, mas, o que importa é a saúde. O meu querido e saudoso pai sempre dizia: Os cabelos brancos são as glórias do homem, e os netos são as coroas. Então eu me sinto bem e feliz, cheio de glórias e coroas, pois, meus cabelos são branquinhos como neve, e tenho dezessete netos e onze bisnetos.
Americana, 26/08/2002.
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   O Natal e o Ano Novo é Tempo de Paz

   Reunião de família no dia de Natal é coisa tão bonita, que outras festas nem pode comparar. Neste Natal do ano 2000 não esteve tão bom quanto aos outros. O João Paulo foi para a praia, o Eduardo foi para Jaguariúna, a Ivone estava doente e, por isso, nem ela nem o Tonho puderam vir na noite do dia vinte e quatro, só vieram no dia vinte e cinco. No dia vinte e quatro foi na casa do meu neto José Roberto e no dia vinte e cinco foi na casa do meu filho Nestorzinho. Só que neste ano não foi tão bom como nos anos anteriores, pois, houve muitas ausências. Meu filho José não quis comemorar o Natal deste ano conosco; nem ele e nem sua família, e isso me entristeceu. Mas acredito que nos anos vindouros conseguiremos reunir a família inteira, novamente. Uma família unida é a coisa mais bonita que tem. Eu sempre ouvia dizer que a minha família era muito unida; mas agora já não tem a mesma  união de antes. É que a turma vai crescendo, a família vai aumentando, vão aparecendo os problemas e as pessoas não têm a humildade que deveriam ter. Porém, sempre há esperança, vamos pedir a Deus que nos conserve sempre unidos. Porque eu acredito que somente com a união na família, e com muita fé em Cristo, é que as famílias vencerão esses “empecilhos”. Como era bonita a família de Nestor de Oliveira e de Maria Pires de Oliveira, era de fazer inveja. De quando me conheço por gente, sempre ouvi dizer que a família dos Oliveira (meus antepassados) só sabia trabalhar, rezar, ser honesto, se reunir em família e divertir.

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Na história da minha família (os antigos e ainda alguns atuais) conta-se que eram – todos –trabalhadores, religiosos (católicos), pescadores, caçadores; e que os mais velhos catequizavam, contavam histórias, contavam as sagas da família para os mais novos e as crianças. Nas noites de sábado para domingo, a família inteira envolta de uma mesa conversando e contando histórias, tomando café com quitutes até altas horas da madrugada. Eles escolhiam as noites de sábado porque no domingo não precisavam levantar cedo para irem à roça. Todos tinham amizade e respeitavam-se entre si, não havia encrencas entre os familiares. Pena que este tempo e costumes não voltam mais!

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Patriarca, o tronco de jacarandá






O dia 22/11/99 foi para mim muito festivo, mas também de muitas reflexões. Nesse dia fez aniversário o meu quarto filho. Fomos todos convidados, tanto por parte do meu filho Nestor como por parte da minha nora Zenaide. Houve churrasco, cerveja, música boa e danças. Lá pelas três horas da tarde, eu, sentado, olhando as crianças brincarem, vi uma algazarra na rua e todos correndo para o local em que eu estava. Levantei-me depressa, sem saber o que acontecia. Fui ver se alguém tinha se machucado. Vi também meu filho correndo para a rua. Saí atrás dele. Só quando lá cheguei é que descobri o que estava acontecendo. Chegava, naquele momento, o carro de som festejando o aniversariante. Muitos pegaram o microfone para o homenagear. Eu quase não consegui falar, pois a emoção era grande. O aniversariante, mesmo emocionado, falou

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um pouco mais. Agradeceu a família que tem, tantos os ascendentes como os descendentes seus e os da família da sua esposa. Duas famílias alicerçadas no amor a Deus.
    Nessa hora, eu ali rodeado de crianças, olhei e vi que só eu tinha os cabelos já bem branquinhos. Então me veio um pensamento, uma comparação. Comparei-me a um jacarandá muito velho, que deu muitos frutos, e desses frutos as sementes caíram no chão e nasceram como sementeiras, e cresceram, e outras arvorezinhas estão crescendo, formando uma mata. E eu estou no meio dela. As árvores são tantas que logo chegará a quarta geração.

    Ali no meio, com os olhos em lágrimas, senti-me como se eu fosse o tronco velho do jacarandá, que com o tempo perdeu os seus galhos bonitos, os galhos fortes que tantos frutos deram e que são motivos de alegria. Neste meu devaneio, quase sonhando acordado, olhei mais uma vez ao meu redor, pensando encontrar outros troncos idosos para me consolar. Mas não vi nenhum. E isso me entristeceu. Não vi aquele tronco forte tal qual o tronco de jacarandá que caminhou comigo durante 58 anos e que foi a seiva que deu vida a todas essas arvorezinhas. Também não vi do outro lado da família os troncos de cerejeiras, que iguais aos jacarandás também produziram frutos, de cujas sementes nasceram muitas árvores que formaram uma outra mata.
     Assim me vejo um tronco velho quase sem folhas, rodeado de arvorezinhas de jacarandás e cerejeiras, as duas famílias aliadas, unidas, misturadas na maior alegria e prazer.
     Esse momento de alegria e emoção, eu digo a vocês, foi uma graça de Deus.
AMERICANA, 15/03/2000
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Americana, 24/06/1999 – Dia de São João Batista

Eram 24/06/99, o meu filho Nestor veio me convidar
Para irmos na casa do seu cunhado Mário, caboclo bom de admirar
Já eram nove horas, o tempo estava limpo, só se via o sol brilhar
Sem nós perceber, perto de Tupi começou uma neblina, não dava para se enxergar
Os carros vinham com as luzes acesas, e passavam bem devagar
Chegamos em São Pedro atrasados, e o meu estômago começou a roncar
Aí a dona da casa, a senhora Rosa, que tem um coração franco que faz admirar
Foi na dispensa e logo voltou, trouxe uma cesta com frutas maduras, o cheiro ficou no ar
Colocou a cesta na mesa, eu olhava nas frutas, e as lombrigas começaram alvoroçar
Continuei olhando na cesta, os meus olhos já não podiam nem piscar
Só esperando uma ordem, para poder devorar
Más não demorou a dona Rosa já falou, não demorou à falar
Comam frutas, ta madura, essa banana ta madurinha, veio lá de Minas Gerais
É doce que faz enjoar; eu que só estava esperando a ordem para saborear
Peguei duas bananas e comi, estavam doces igual mel de arapuá, foi duro de parar
Más eu já estava pensando na galinha caipira, que começou à cheirar
O colega Eliel picava um maço de couves, que me fez pensar
O rolo de couves era tão grosso que parecia um rolo de fio lá da Distral
Más depois de bem picado e temperado, a couve ficou especial
Foi couve para todos, não sobrou nem um pouco para jogar
Quando a dona Rosa falou, o almoço está proto, podem se assentar
O Mário veio e falou, encosta este banco e vamos almoçar

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

A Ni, minha filha, que estava do meu lado para me ajudar
Já pegou o meu prato, enfiou a colher no panelão, parecia até pescar
Pegou um pedaço da caipira, estava tão macio que chegava desmanchar
Estava bom demais, nunca vi coisa igual, comi até enjoar
Até parecia que eu estava numa festa de casamento na hora do jantar
Depois do almoço todos ficamos com o corpo mole, cá e lá, todos querendo encostar
Com a barriga cheia deu moleza que ninguém queria conversar
Tão logo as cozinheiras arrumaram a cozinha, o Mário falou, podem se aprontar
Vamos lá na fazenda do seo Orlando, muitas laranjas buscar
Saímos com os três carros que eu só via poeira voar
Logo chegamos no pé da serra, más que azar
Iam dois caminhões na frente, carregados, bem devagar
Me veio no pensamento, se um dos caminhões afogar
E voltar de marcha ré, onde nós vamos parar
De sorte, no meio da serra um caminhão parou, do outro o motor esquentou
Aí o carro ultrapassou, e o meu nervoso acalmou
Eu olhei para o lado direito o meu coração se alegrou
Vi uma imagem, era o Cristo Redentor, verdadeiro
Pensei, este lugar está parecendo o Rio de Janeiro
Acabamos de subir a serra, ali tem uma igreja católica de Santo Antônio o mensageiro
Acho que nós devíamos ter parado para rezar
Aí fui pensando, onde será que vão me levar
Entramos numa estrada de terra era poeira que cobria o lugar
Tinha um prédio bonito ali sozinho na beira da estrada, naquele lugar
A Ni me disse, pai é o laticínio do leite, que na padaria eu vou comprar
Logo na frente um grupo escolar, num lugar sem vizinhos, era de admirar

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

Naquela estrada de terra andamos pouco, não demorou a chegar
Pararam os carros no terreiro, e a família já nos veio cumprimentar
E já convidou a turma para entrar
Sentamos, tivemos uma pequena conversa e levantamos, fomos ao pomar
As laranjeiras estavam carregadas, com os galhos arcados, peguei a apanhar
Eram maduras e docinhas que dava gosto chupar
Logo depois, novamente entramos e sentamos, tinha um café gostoso pra tomar
A hora passou e estava chegando o momento de voltar
Eu que ainda não conhecia o seo Orlando, com ele eu queria falar
Ele estava dormindo e demorava muito a se levantar
Sua esposa dona Antonieta me falou, vamos ver se ele está acordado
Eu não conhecia a casa então chamei a minha filha para ir do meu lado
Ela não foi, pois não entendeu o que eu tinha pensado
Más como eu tenho um filho muito inteligente, ele logo entendeu o meu recado
Que podia ser constrangedor, então falou pro seu cunhado
Mário vai com o meu pai porque ele está embaraçado
Isso foi o que ele pensou, e é o que eu tinha pensado
Daí a pouco o seo Orlando levantou-se, pois já tinha descansado
E nós conversamos muito do famoso tempo passado
Eu gostei muito da família, do lugar e do agrado
Eu passei a porta dos fundos e olhei, me representou lá do outro lado
Uma mata derrubada e queimada, e muitos tocos, e o cafezal formado
Tudo isso veio em pensamento, pois fiquei extasiado
Que isso tenha acontecido, à oitenta anos passados
Até me representou quando eu tinha cinco anos, com o papai do meu lado
Na fazenda Boa Sorte no interior de outro Estado

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

Na cidade de Rezende onde meu pai tinha café formado!
Este passeio na cidade de São Pedro foi muito bom
Dia vinte e quatro de junho, dia de São João.
Para a grande alegria, foi em nossa companhia, a dona Lúcia Paro
Sua sobrinha Izabel; foi a dona Carmem e o seu esposo Eliel.
Foi eu, Nestor, e minha fila Maria – Ni – com muita satisfação
Foi a nora Zenaide e meu filho Nestorzinho, que moram no meu coração
Para o amigo Mário e sua esposa Rosa, que eu estimo, vai meu abração
Para a menininha Natália, Deus derrame a benção
E do bisavô Nestor para o Bruno e Aline, um beijinho no coração.

Americana, 24/06/1999 -                     - NESTOR DE OLIVEIRA
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   Lembrança do passado

   Lembro de Jaborandí com saudade e satisfação! Ali eu cheguei com nove anos e fui trabalhar, estudar, jogar bola e fiz a primeira comunhão. Lembro que os meninos que jogavam comigo eram todos bons, podíamos brincar o dia todo e não saía uma só discussão. No sábado após o almoço íamos brincar no ribeirão e a noite, com o clarão da lua, íamos jogar bola ou, noutras vezes, brincar de garrafão fonfão, que isso era muito bom. Tinha noite que íamos à beira do cafezal onde tinha uma carreira de bananeiras que davam cachos grandes, de se admirar. A gente cortava os cachos e escondia-os; daí uma semana voltava e as bananas estavam madurinhas, era só devorar. Em 1933 formamos um time de futebol, de sorte que, todos nós tínhamos entre quinze e dezesseis anos de idade, era legal! Em todas as fazendas nós jogamos, e até do Jaborandí nós ganhamos. A escalação era essa: 1- Fábio, 2- Idário, 3- Jesus, 4- Geraldo, 5- Otávio, 6- Voni, 7- Nenzio, 8- Faustino, 9- Aristides, 10- Adelino, 11- Nestor.
   Este bisavô de hoje sente tanta saudade que, só eu sei o quanto

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

dói aqui por dentro. Como eu gostaria de encontrar um desses amigos; não sei se ainda tem algum vivo, acredito que sim, pois eu ainda vivo! Quanta saudade do tempo da bola de meia. Tempo bom que não volta mais. Tudo vai embora, só a saudade, que é teimosa, não vai, ela fica me judiando até eu morrer. O que vamos fazer!?
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   Para meus oito filhos

   Aqui deixo meu agradecimento por tudo o que vocês fizeram para mim e para a vossa mãe, no dia em que comemoramos a nossa Bodas de Ouro, que se realizou às dezoito horas do dia 21/12/1990 na linda igreja de São João Bosco de Americana. Além de todos da minha família, também quero agradecer os amigos e colegas que vieram me cumprimentar e abraçar. A todos dou um abraço na forma de gratidão, e que Deus os abençoe todos.
   Agora vou brincar com meus filhos, espero que não levem a mal, mas, sim, gostem da brincadeira. Vou começar da mais velha e terminar no mais novo. A Lídia nasceu em outubro, tempo bom de se plantar. Por ser a primeira e bonitinha, eu não cansava de te abraçar. O José veio em dezembro, noite de chuva a derramar, era meia noite exata a parteira eu fui buscar. Saí naquele temporal debaixo de faíscas tão fortes que os fios elétricos pareciam pegar fogo e se queimar. Em agosto nasceu o Antonio, que é esportista de admirar. Se falar mal do curingão ele já quer engrossar. E se estiver com um baralho na mão, embaixo do ipesal, até esquece de almoçar. Mesmo que seja caviar ele prefere ignorar, não larga o baralho para vir saborear. E ali tem trucada de todo jeito, chega até o ar contaminar. Agora vou falar do Nestor Filho que nasceu em novembro e é meu xará. Esse não me deu trabalho quando nasceu; à tarde quando eu cheguei da roça ele já havia nascido. Ele é inteligente e gosta de ir à igreja rezar. Se ele sempre for assim, um dia ele vai chegar lá; Deus vai o abençoar. A Maria Aparecida, que da sua mãe é xará, nasceu em janeiro.

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

   Era chuva que caía, eu tive que pular. Fui às pressas buscar a parteira, pois, precisava logo chegar. Atravessei num brejo no meio dum arrozal, a água do arroz e da chuva caía na minha cabeça e varava no calcanhar. Chegou a vez da Teresinha que nasceu no mês de outubro, em um belo lugar. Ali o ônibus passava na porta das casas e a escola era na frente, dava gosto ali morar. Eu até penso que é por isso que a Tere nunca gostou de andar. Quando ela ia levar almoço para nós, no café, e começava demorar, os meninos de vez em quando iam ao caminho olhar. Quando, ao longe, eles avistavam-na corriam me dizer que ela apontou lá na curva da árvore de pau-pólvora e que ainda ia demorar uns dez minutos, porque ela vinha naquele passo balançando para cá e para lá. É da Tiana que vou falar agora; ela nasceu em janeiro e é dura de explicar. É falante e é esperta, igual um serelepe no pé de ingá. Quando a gente pensa que ela ainda vai, ela já está para voltar. E o João eu nem sei dar explicação. Ele estando no bar do chuchu tomando uma cervejinha e com um cigarrinho na mão, pra ele ta muito bom. Já de manhã ele pergunta: à que horas começa o coringão? E diz: hoje vai ser um do Marcelinho, um do Edílson e um do Luizão; e assim vamos ficar bem na frente do verdão... Ascende novo cigarro, aumentando a poluição, e deixa correr trinta dias por mês sem nenhuma preocupação. O que interessa é que há noite vamos ver o coringão; se for 1x0 já está bom, de qualquer jeito vai ser campeão, não tem escapação. Pode até ir embora o Rincão, agora nós já temos o Edu que é titular na posição. Depois da vitória do coringão, o que é bom é uma caipira de limão.
   E assim, falei dos oito irmãos; só não falei do pai e da mãe porque estamos em comemoração. Comemorar bodas de ouro é um privilégio que Deus concede para quem consegue viver cinqüenta anos de feliz união. Obrigado meu Deus! 
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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

Meu avô Zózimo santo de altar / Tia Inês viveu pra mortificar
Padrinho Zeca homem exemplar / Tia Matilde também vi rezar

Meu tio Neco foi grande na fé / De Paulino sempre descalço o pé
Seguiremos juntos sem marcha-ré / Oh. Jaborandí: minha terra é
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   Recordação

   Eu tinha apenas três aninhos / Quando deixei minha terra
Vovó Eugênia eu nem conhecia / Lá no seu sítio, no pé da serra.

Nós fomos lá pra Resende / Lavoura de café formar
O meu pai e os meus tios / Só pensavam em trabalhar.

Também os meus patriarcas, / Foram juntos, vovô e vovó.
Plantaram um bom cafezal / Na mata do cafundó.

A fazenda que fomos morar / Da cidade era distante
Dezoito quilômetros de estrada, / De terra, com poeira constante.

Papai homem alto e robusto / Sempre foi muito bom para andar.
Na curva, subida ou decida / Era difícil de lhe acompanhar.

Nas costas ele levava a farinha / - Vinte quilos – de mandioca torrada.
Eu levava cinco de polvilho / E com ele cortava a estrada.

Ele entregava para o patrão / E também a outros clientes.
Eu ganhava aqueles tostões / E nós dois saíamos contentes.

Um copão de leite, e lanche / Isso era a nossa refeição.
Despedíamos lá na cidade / E voltávamos lá pro sertão.
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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

   Seu aniversário (12/06/1998)

   Pensando em você / Eu acordei mais feliz
Hoje é seu aniversário / O calendário me diz
Receba meus parabéns / Maria Pires de Oliveira
A ti jurei meu amor / Te amarei a vida inteira
   Foi pensando em você, que acordei mais jovem. Foi pensando em você, que o meu mundo se transformou num mar de rosas. Olho para trás e vejo que já fizemos, juntos, uma longa caminhada. E ainda continuamos a existir nesse imenso mar de bondade, fé e esperança. Olhando ao longo de nossos passos, vejo que tivemos um começo. E olhando para o horizonte, não enxergo o fim. E isso é bom, pois, vejo somente o infinito, diante da vida, e nós dois caminhando lado a lado. Assim me torno mais firme, forte, poderoso e humilde, pois foi assim que o encontrei. Eu o amo, você!
*12/06/1920 – Maria Pires de Oliveira (Araras – SP)
*17/04/1918 – Nestor de Oliveira (Rio Claro – RJ)

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   Aconselhamento

   Querido filho Nestor
Escuta o que eu vou te falar
Eu, que não tenho mais serviço,
Gosto que os filhos vêm conversar.

Falarei agora a ti
Usando da imaginação.
Mostrar-te-ei, qual um retrato,
O que está no meu coração.

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

Eu não gosto de ir ao bar
Se eu gostasse, já tinha morrido.
Mas eu fui bem educado
Por querida mamãe, e papai querido.

Papai sempre me explicava
Que o homem bom tem fé em Deus
É trabalhador, não conta mentira,
E respeita, muito, os colegas seus.

Quando, na primavera, eu acordava
E escutava a chuva derramar
Num instante me entusiasmava
Já querendo ir na roça plantar.

Pensava logo em sair da cama
E debulhar milho no paiol
Selecionar boa semente
E ir pra roça antes do sol.

Noutra noite, assim pensava,
Agora eu vou plantar feijão.
- Acordem logo, molecada!
E enchem com água o garrafão.

O cachorro ‘Tisiu’ ficava inquieto
Quando a enxada eu pegava.
Nas costas eu punha os mantimentos
E ele, na estrada, me acompanhava.

Parece mesmo que estou idoso
Essa cena, agora, não acontece.
Tudo é fruto da saudade
De um passado que não se esquece.
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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

   Primavera

Chegou a estação da primavera
Também a chuva forte vai chegar
As árvores já estão brotando
O meu jardim está abotoando
E o caqui já começou aflorar

O meu jardim vai ficar bonito
Se na primavera a chuva continuar
As rosas vermelhas exalarão perfumes
Causando invejas e ciúmes
Que até os vizinhos vão gostar

Já perfilhou a hortelã neste canteiro
É calmante este chá eu vou tomar
Se você tiver lombrigas, não passe perto
Não sejas tolo, fique esperto
Agora é lua cheia, elas vão alvoroçar

Abotoou minha roseira de cachos
Se bem floridos as borboletas vão chegar
De manhã tomo café e sento no banco
Disso eu gosto, acredite, eu sou franco
Com o perfume ver abelhas passear

Espero um pouco e logo vem o beija-flor
Pássaro divino, minhas rosas visitar
Não tendo mel, voa já em outra flor
Continua uma a uma o seu labor
E eu me extasio ao ver o pássaro alimentar

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

   O Florão das Matas

   Mesmo que não encontrem mel, os beija-flores voltam, pois, como este vovô gosta de estar no meio delas, também eles são felizes no meio das flores. Cheirar o perfume das rosas vermelhas é muito bom; isso me faz um grande bem. Acredito que minha inclinação em cultivar flores vem desde minha tenra infância, quando desde aos quatro anos eu já entrava na mata com papai. Papai saia caçar e eu ia junto. Quando encontrávamos uma árvore florida, eu parava e ficava admirando a beleza das flores. De toda árvore, arbusto, capim, mato, planta que eu encontrava, eu perguntava para o papai qual era o nome dela. Algumas vezes, dentro da mata, ao ver a copa de uma árvore florida – por achar suas flores lindas – eu perguntava para o papai o nome dela; e ele me respondia: o nome dessa árvore é (...), porém essa qualidade não dá flores assim, essas flores que você está vendo na copa dela é do cipó (...). Pode observar que você vai ver que o tronco deste cipó está no chão, ele cresceu e foi subindo, foi florir lá por cima das árvores; e continuou dizendo que, por ser muito linda sua flor, Deus lhe deu forças, vontade e coragem de subir até o topo da floresta para mostrar ao mundo todo, a beleza que Deus fez desabrochar nele. Eu, com meus sete aninhos, ficava parado olhando aquela beleza de flores nas copas das árvores, aquilo era um colorido que me transportava ao céu. Essa beleza se juntava ao murmúrio do vento que batia nas folhas das árvores parecendo vozes angelicais, e eu me transportava extasiado. Derrepente eu escutava papai me chamando, e, como que saindo de um sonho, eu o via já cinqüenta metros na frente me gritando: corre menino, a onça vai te pegar, parece que você está dormindo em pé! Eu corria para ele, e continuava observando. Os troncos dos cipós eram da grossura da minha perna. Naquele florir da mata, além de sua diversidade multicolorida, eu observava os beija-flores batendo suas asas peneirando no ar, ali eu os via de diversas cores e de diversos tamanhos. Também vinham as abelhas e as mamangavas com aquele zumbido, que lhe é peculiar, beijar as flores.

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

   Lembro-me que em uma mata no município de Resende tinha muitas jabuticabeiras e quando elas floriam exalavam um perfume contagiante, e parece que todas as abelhas do município se juntavam lá. Por tudo isso, e por vovó e mamãe terem gostado muito de flores, é que até hoje, aos oitenta e cinco anos, sou um apaixonado por plantas e continuo plantando e cultivando frutas e flores.
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   Mangueira velha

   Oh! Mangueira triste que ainda existe no mesmo lugar. Quando te vejo neste pasto, onde outrora era meu quintal, a saudade bate forte e me dá vontade de chorar. Lembro-me que quando seus frutos caiam no chão meus filhos corriam para catá-los. Mangueira, você sombreava meu quintal; até meu cachorro ‘Tiziu’ e meu burro ‘Diamante’ descansavam em sua sombra. De quem será a mão abençoada que te plantou? Ah! Se eu a tivesse conhecido, certamente a teria cumprimentado pelo grande bem que ela fez. Espero muitas vezes ainda te encontrar mangueira amiga. Quero ver se o teu tronco continua sadio e se a sua casca se encontra lisa, tal como estava há quarenta anos quanto te deixei. A casa em que morei não existe mais, também não existem o pé de laranja juonune, que era docinho qual um mel, e o pé de laranja melancia que plantei ao lado da janela da cozinha, nem o pé de laranja lima e nem as goiabeiras, todos morreram, te deixando sozinha. Hoje são as vacas que te fazem companhia quando pastam à sua sombra, e os passarinhos nos teus galhos a gorjear. Quando ti conheci você já era uma mangueira muito grande, frondosa, com belos frutos; bem mais velha que eu. Hoje você já é centenária, mas, com uma saúde e robustez de uma jovem. Quantas crianças eu vi brincar nos teus galhos e em tua sombra. E quantas vezes também eu deitei nesta tua sombra para descansar, ouvindo o cantar do sabiá. Mangueira, amiga, quem te plantou teve mais sorte que eu, pois, você está aí; mas as laranjeiras que plantei ao teu lado para serem tuas companheiras, logo depois que mudei

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

alguém as cortou e elas morreram, te deixando solitária. Mangueira, onde estarão as mãos que te plantaram, benditas foram essas mãos! Eu como sempre acreditei nas bênçãos de Deus, em minha vida inteira e por todos os lugares que passei, sempre plantei árvores e flores e as deixei para quem viesse após mim. E nunca me frustrei, tenho orgulho por isso.
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   O Serelepe que sumiu

   Eu contava com oito anos de idade e acompanhava meu pai (senhor Ezequiel de Oliveira) por aonde ele ia. Se ele ia à cidade, na roça, na casa de parentes, na pescaria ou na mata caçar eu sempre estava junto com ele. Nesse dia fomos na mata Grotão da Água caçar nhambus e pombas juritis. Aconteceu que ventava muito naquele dia e papai não conseguiu matar nada. Já cansado e desanimado ele me chamou para irmos embora e acrescentou: Pela primeira vez, acho que vou voltar para casa sapateiro.
   Começamos sair da mata – mata essa que era limpinha por dentro, não havia plantas rasteiras, só tinha folhas secas no chão, as árvores eram todas altas e via-se longe por debaixo delas – e o papai viu um serelepe à dois metros alto do chão, grudado no tronco de uma árvore. O bichinho estava numa posição um pouco esquisita, parecia uma cruz. Na posição vertical, ele estava com a cabeça para cima, as duas pernas dianteiras abertas – horizontalmente – e grudadas no tronco, com o rabo e as pernas traseiras esticados para baixo. Por ser o único bicho que ele havia encontrado no dia ele quis matar para não voltar sapateiro. Mirou a espingarda e deu o tiro. Ainda ele viu, quando ao puxar o gatilho, o serelepe sair do local e, após os chumbinhos atingirem a árvore, voltar ao mesmo lugar novamente. Deu seis tiros, e em todos os tiros acontecera a mesma coisa. De tanto chumbo que havia acertado naquele mesmo local no tronco, já nem tinha mais cascas onde o serelepe estava. Deu o sétimo tiro e o serelepe caiu; então mandou-me que fosse buscar bichinho. Eu fui, revirei as folhas

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

secas, e não o encontrei. Papai também foi, revirou tudo, e também não o encontrou. Só depois disso é que ele sentiu que havia feito coisa errada. Nesse momento ele percebeu que aquilo não era um serelepe e sim uma coisa misteriosa. Ao analisar o fato ele disse que devia ter parado no primeiro tiro, mas, como era fanático, para caçar, teimou em continuar.
***

   Eu, e o tronco do Jacarandá...

   Hoje é meu aniversário / Tenho alegria e satisfação
Por estar com minha família / E amigos de coração
Eu nasci lá em Rio Claro / Rio de Janeiro é o Estado
Já são oitenta e cinco anos / Que por Deus sou agraciado

Foi no sul do Estado do Rio / Que nasceu o jacarandá
Mas com apenas três aninhos / Já tiraram ele de lá
Do lugar que ele nasceu / O levaram para longe
Pra onde vão me levar / Perguntou. – ninguém responde

Boa Sorte – em Rezende / Lhe tornaram replantar
Boa terra, água de mina / Não precisou nem adubar
A mudinha tão viçosa / Começou, logo, a se enfolhar.
Com seis aninhos começaram / Suas folhinhas balançar

Iam pra lá, vinham pra cá / Dava gosto de se olhar
Como crescia a arvorezinha / Pra família se alegrar
Com destino ainda incerto / Lhe tornaram arrancar
Para longe muito longe / Em novas terras iam mudar

Sofreu demais jacarandá / Folhas murchas pelo caminho
Parecia que agora, até / Ia morrer o coitadinho.
Porém tal sorte é a sua / Numa terra massapé
Pertinho de Jaborandí / Lhe transplantaram com muita fé

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

Ali a terra era boa / Já foi crescendo sua emoção
Mas veio a crise do café / E começou a revolução
Coitado, quanta amargura / Ficou fininho o jacarandá
Com dezessete anos, dizia / Viver assim, pra mim não dá.

Outra vez lhe arrancaram / Colina é a nova terra
Tudo agora melhorava / Houve paz, venceu a guerra.
Vinte e um anos ele já tinha / Novamente foi mudar
Com o cerne bem formado / Deu trabalho para arrancar

Culturas novas, produtivas / Num trabalho muito forte
Transmudado novamente / Foi feliz e teve sorte
Jacarandá brotou viçoso / Produziu, abriu a flor
Na terra roxa lá do Turvo / Conheceu seu grande amor

Produtivo e exuberante / Foi mudando o necessário
Tantas vezes ele mudou / mas não mudou o seu fadário
Frondosa árvore, elegante / Segue sem cortar atalho
Pra embelezar jacarandá / Do lado esquerdo brotou um galho

Uniram as duas seivas / Com grande amor, a vida inteira
Agora são as duas árvores / Espalhando a sementeira
Jacarandá e seu amor / Muitos frutos produziram
Transplantados em Americana / Quatro gerações surgiram

Estão sempre rodeados / Pela baita sementeira
Os dois troncos são honrados / A felicidade é companheira
As sementes germinaram / Não pararam de criar
Rodeiam o velho tronco / Todos querem lhe guardar

Passam os anos, o corpo cansa / A companheira foi com Deus
Mas está vivo o juramento / Ainda sou dos braços teus
Quando o nosso Pai bondoso / Para o céu me transplantar
Eu; grandioso jacarandá / De lá não vou mais mudar.


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   Festas Juninas

   Já estamos no começo do mês de junho. Eu que hoje sou um homem bastante idoso, mas ainda tenho uma boa memória, graças à Deus. Eu tive a felicidade de assistir muitas festas juninas e percebi que em cada estado ela é um pouco diferente. Por exemplo: no Estado do Rio de Janeiro o mastro não era propriamente um mastro e sim uma árvore. Os festeiros iam na mata, cortavam uma árvore de mais ou menos cinco metros de altura, levavam para casa e fincavam no terreiro, perto da fogueira. Aquela árvore era toda enfeitada com fitas em várias cores. Em seus galhos, além das fitas e papéis, amarravam dependuradas pencas de laranjas e bananas maduras, e várias outras frutas; as árvores ficavam lindas. Dos três dias, o mais festejado era o de São João, mas, santo Antonio era considerado o santo mais milagroso e são Pedro como o porteiro do céu. As festas juninas que eu participei no estado do Rio há oitenta anos atrás eram assim: no sítio do vovô Zósimo, na capoeira, tinha uma flor maravilhosa que dava em cachos de cor amarela, por nome de Canudo de Pito. No dia do santo as mocinhas e as meninas iam no mato apanhar aqueles lindos cachos de flor para enfeitar o altar do santo. Depois do terço tinha café, bolacha, biscoito de polvilho, pipoca, quentão, anisete, cuscuz e bolo de fubá. Naquele tempo só tinha foguetes de vara, não tinha desses foguetes caramuru. Tinha uma tal bomba de parede que era um perigo danado, ela era redonda parecendo um tomate, e para explodir precisava jogar ela na parede ou numa porteira; às vezes até rachava as tábuas da porteira. A sanfona era de oito baixos, porém o instrumento mais usado era a viola. O nome das danças era, mulatinha, ciranda, cana-verde, cateretê, valsa e quadrilha, e dançavam homens e mulheres. O meu querido vovô Zózimo era o capelão. Com toda sua família reunida ele rezava o santo terço cantado, todos os mistérios eram cantados. À meia noite o vovô Zózimo ia até a fogueira, esparramava todas as brasas (numa extensão de três metros) que, naquela vermelhidão,

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

só de olhar dava para arrepiar, tirava os tamancos (portugueses) de madeira dos pés, fazia o sinal da santa cruz e atravessava caminhando, pisando, por cima das brasas acesas, e nuca queimou seu pés. Ele era um homem exemplar, santo e de muita fé, porém ele só atravessava pela fogueira na noite de São João.
   As festas juninas nas fazendas do Estado de São Paulo eram diferentes. Nos anos trinta e quarenta do século vinte, eu morei em fazendas cafeeiras que tinham até cem famílias, ou mais, que moravam nas colônias, e em quase todas as casas faziam fogueira nos dias de Santo Antonio, São João e São Pedro. No Estado de São Paulo não é uma árvore que é fincada, e sim, um mastro com a estampa do Santo do dia e enfeitado com fitas coloridas, é levantado e fincado no terreiro após a reza do terço. As comidas e bebidas eram quase iguais. O instrumento que predominava era a sanfona de oitenta e cento e vinte baixos. Nas noites de festa a gente via, na amplidão do horizonte, os rojões clarearem os céus de todas as fazendas da redondeza. Também aqui no Estado de São Paulo meu avô Zósimo foi capelão enquanto viveu. Todos os anos eu via quando vovô, com muita fé e devoção, atravessava a fogueira. Então no ano de 1940, estando nós morando na fazenda do Turvo, senti um forte desejo e a fé me impulsionar e, também atravessei a fogueira, pisando em suas brasas e não me queimei, porém essa foi a única vez.
   Com essas lembranças vem uma saudade doída! E viva Santo Antonio, São João e São Pedro!
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   Cachorrinha Violeta

   No ano de 1926, certo dia da semana amanheceu chovendo, não era chuva forte, mas fina e intensa e não dava para fazer os trabalhos da roça, então passamos a manhã em casa. Após o almoço a chuva diminuiu e o papai me falou: Põe este saco de estopa nas costas e vamos pra mata do Grotão da Água caçar; mas vamos caçar somente passarinhos.

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

  - Em casa tínhamos uma cachorrinha por nome Violeta, era pequeníssima, porém ótima para caçar paca, cutia e tatu. Ela não era maior que um coelho, grande -. Já que saímos, ela saiu junto. Para caçar passarinhos nós não iríamos precisar dela, e além do mais, se ela fosse poderia espantá-los, então papai pegou uma varinha, correu atrás dela e a levou de volta até ao terreiro de casa. E fomos nós dois. Ao chegarmos na beira da mata vimos a Violeta que, vindo por outro caminho, já a adentrava em nossa frente, e, em seguida, partiu em cima de um bicho e ia pega-não-pega. O papai, nervoso, já esbravejou: Eta cachorra teimosa! Porém, já que ela tinha “levantado” um bicho e ele não gostava de perder nada, também correu para ver se pegava o tal danado. Corremos duzentos metros, e ele percebeu que o bicho havia entrado num buraco de tatu e a Violeta entrara atrás, pois não a víamos, só escutávamos os latidos (chochos) dentro do buraco. Chegamos na boca do buraco e o papai – conhecedor da matéria – me falou: Pelo som do latido ela está há uns cinco metros para frente da boca do buraco, e o latido parece estar na flor da terra. Então, com seu facão, papai cortou uma vara grossa, aproveitou dois metros dela, fê-la como que uma cavadeira e começou cavar onde ele achava que estava o bicho. A terra estava mole e foi fácil cavar, em poucos golpes conseguiu descobrir as costas da paca que, ao ver a claridade bater na sua cara, se assustou, pulou, e ao tentar sair passou por cima da cachorrinha que, espremida, deu um grito de dor. Nisso papai gritou para que eu tirasse o saco das costas, dobrasse-o e o colocasse na boca do buraco para a paca não escapar. Eu, com apenas oito anos, já tinha destreza e executei a ordem com bom intento. Papai mais que depressa enfiou a faca por baixo daquele saco de estopa e sangrou a enorme paca. Nesse dia ficamos somente alguns minutos na mata, mas levamos para casa uma caça que parecia uma leitoa.
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   A Paca Invisível e o Cachorro Misterioso

   Este fato aconteceu na fazenda Boa Sorte, em Resende (RJ), no ano de 1926. Meu pai estava junto e viu com seus próprios olhos este acontecimento.
   Perto da nossa casa tinha uma capoeira de Cambará ‘assapeixe’, e nessa capoeira tinha uma pedreira de pedras malacacheta. Bem no pé do morro, onde estava essa capoeira, nasciam duas minas d’agua; uma de água cristalina e a outra de água “vermelha”, que, na realidade não era vermelha, mas, porque o leito e as bordas do regato – em função dos minérios que essa água possuía – eram enferrujados e de cor avermelhada, também sua água resplandecia avermelhada. Era muito interessantes essas duas minas, pois, elas nasciam dez metros, somente, distante uma da outra e eram tão diferentes. Essas minas eram posicionadas desta maneira: No pé do morro - você chegando de frente para o sul – no seu lado direito nascia a água cristalina, e ao seu lado esquerdo nascia a água enferrujada. O engraçado é que elas nasciam tão perto (dez metros distante uma da outra) e não corriam juntas. A água boa às esquerdas e a água ruim ás direitas formavam dois riachinhos distintos. A maior distancia que separava um rego d’agua do outro era de oitenta metros, e eles corriam paralelos numa extensão de duzentos metros, se juntando logo após numa pirambeira de pedras, fazendo cachoeiras, correndo por baixo das árvores de grão-de-galo, que eram muitas, e quinhentos metros a baixo desaguava no açude que ficava beirando a estrada e perto, uns cem metros, da casa do vovô Zózimo.
   Por ser bom esconderijo aquelas ocas de pedras e por ter bastante água entre elas, e, também, por ter uma boa vegetação rasteira entre a árvores, aquela capoeira tornou-se um bom criadouro de pacas. Por onde andasse naquela vegetação, via-se os carreiros das pacas.
   Tinha uma família (de sobrenome Leme) que todas as semanas vinha uma noite caçar pacas ali. O chefe dessa caçada chamava-se Antenor, e eles tinham seis cachorros práticos para esse tipo de

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

caça. - Todos caçadores têm um cachorro “mestre”, este é o que comanda os outros, quando ele levanta uma caça os demais o seguem. E o cachorro-mestre do Antenor tinha o nome de Treinado -. Certa noite, ao escurecer, veio em nossa casa um senhor da família Leme e convidou o papai para ir caçar com eles. O papai aceitou; pegou sua espingarda e o lampião e se juntou á eles. Lá na capoeira cada caçador escolheu um carreiro, pendurou a lamparina num galho de assapeixe, de forma que ela clareava o carreiro, e ficaram de tocaia esperando a paca passar; o único trabalho do caçador era puxar o gatilho no momento em que a paca, ao deparar com a luz do lampião, dava uma paradinha. O Antenor desatrelou os cachorros e os soltou nos carreiros. Dentro de cinco minutos começou o levante, os cachorros vinham pega-não-pega em cima dos bichos, as pacas vinham grunhindo e batia os dentes, como uma leitoa, insultando os cachorros. Os caçadores, com o olho na mira e o dedo no gatilho, só viam o cachorro passar no claro do lampião, a paca eles não viam, porém, percebiam que o cachorro estava correndo atrás de alguma coisa. Em todos os carreiros acontecia o mesmo, pois, os caçadores comunicavam-se entre eles e todos tinham a mesma impressão, viam o cachorro passar, mas não viam o que estava adiante dele.
   Era mês de agosto e, naquela noite, estava um frio terrível. Logo após a meia noite o senhor Antenor percebendo que tinha coisa estranha na caçada, foi para a estrada, longe duzentos metros dos companheiros, fez uma fogueira e ficou perto do fogo. Passado um tempo ele percebeu que o cachorro-mestre estava também na beira do fogo, então gritou para seu cunhado Sebastião Leme para que chamasse o Treinado para o carreiro, pois, que ele estava deitado perto do fogo. O Sebastião conversou com um outro seu parente por nome de Mariano e viram que o Treinado estava na capoeira com eles, e respondeu para o Antenor que o Treinado estava no carreiro. Não, ele está aqui na fogueira – tornou falar o Antenor. De jeito nenhum, o cachorro está aqui no carreiro – retrucaram o Sebastião e o Mariano. Nisso, percebendo que não conseguiam ver as pacas e que tinha dois cachorros que eram o mesmo treinado,

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

um caçando e o outro esquentando no fogo, cada um catou sua espingarda, seu lampião, seu cachorro e se mandaram pra fora do mato. Quando estavam chegando perto da fogueira para se juntarem com o chefe da caçada, aquele cachorro que estava esquentando saiu correndo como se fosse encontrar com os outros e sumiu. Os homens pegaram a estrada, mas continuaram calados, ninguém quis tocar no assunto. O papai logo chegou em casa, os outros, porém, continuaram na estrada: eles moravam um quilômetro distante. Esta foi a última caçada que a turma do Antenor fez ali. Nunca mais voltaram. No ano seguinte nós mudamos para o estado de São Paulo.
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   Maldade

   Certa vez, na fazenda Boa Sorte, conversando no eito de trabalho, um benzedor falou pro meu pai que ali entre os ex-escravos tinha trinta e seis feiticeiros, e falou mais: Não sei como não acontece nada com e a vossa família, pois vocês são bem sucedidos na fazenda; eu aconselharia para vocês tomarem cuidado com essa gente.
   Nessa época em que moramos lá, havia dois casos de feitiçaria com duas famílias boas. O primeiro caso era com um casal negro que não tinha filhos; eles eram trabalhadores e honestos. O homem chamava-se Benedito Lauro e sua esposa Adélia Soares. Por ser muito trabalhador, o administrador da fazenda o separou do resto da turma e lhe dava serviços específicos. Por esse motivo ele sofria com a inveja dos demais que, sendo alguns feiticeiros, lhes fizeram mal; tanto a ele como para a esposa dele.
   Logo que o fiscal o separou da turma, começou o seu sofrimento. Acontecia que ele, no período da manhã, até o almoço trabalhava com desenvoltura, porém, após ter almoçado – acontecia todos os dias – lhe dava um sono profundo e ele sem querer dormia no serviço. Quando, no meio da tarde, o administrador passava em seu serviço o encontrava dormindo, de forma que, para não mais

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dormir no eito, precisou coloca-lo novamente junto com a turma para trabalhar. A partir daí não teve mais sono no trabalho. Com sua esposa foi muito pior: Acontecia que enquanto ela estava dentre as divisas da fazenda ela ficava louca, e só voltava ao seu estado normal (sã) quando saía das dependências da fazenda. – Dentro da fazenda ela andava sem rumo, quebrava os mantimentos, quebrava galhos e os jogavam na estrada, quebrava utensílios domésticos, arrancava as flores do jardim das casas, arrancava bananeiras, punha fogo nos ranchos de sapé que havia no meio do cafezal. Por tudo isso e mais, a molecada, inclusive eu, tínhamos um medo danado da tal Adélia.
   Um dia eu e meu pai, quando íamos para a sede da fazenda, passando em frente de uma casa nova, inabitada, que era para uma família que vinha de uma outra fazenda, vimos o senhor Benedito no terreiro – ele tinha uma espingarda nas mãos – que chamava ela para ir de volta para casa, mas ela não queria ir. ( É que ela, achando-se por direito, havia levado parte da sua louça de cozinha lá, e queria morar na casa nova.) Enquanto ele a chamava, ela vinha até a porta, tornava voltar para dentro, pegava um prato e jogava em seu marido, que abaixava, e o prato se espatifava no chão. Nós vimos a cena e seguimos em frente. Não fiquei sabendo como é que ele levou-a para casa.
   No seguinte final de semana eu com o papai, indo para a cidade, presenciamos pessoalmente os dois estados físicos em que a dona Adélia se transformava. Eis o fato: Já que pegamos a estrada rumo à Resende, papai me argumentou que a senhora Adélia havia ha instante passado por ali; é que nós vimos os galhos recém-quebrados jogados na estrada. – Como o papai sempre andou depressa, era fácil alcançar as pessoas. Eu, com medo, ia pisando em seus calcanhares -. Andamos uns cinco minutos e alcançamos o fiscal da fazenda (por nome de José Vicente) que, a pedido de seu patrão, ia levando a dona Adélia para a cidade para fazer alguns exames de saúde.
   Dali para frente o papai foi conversando com o fiscal. Caminhávamos juntos, mas, de vez em quando ela saia da estrada

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e quebrava um arbusto ou um galho de árvore, jogava-o no caminho e falava: É pra turma ver que a Adélia Soares passou por aqui. E continuava caminhando conosco.
   É difícil acreditar, mas eu vi, com os meus próprios olhos, quando, ao chegar na porteira que divisava a fazenda, papai ergueu a tranca, abriu a porteira, passamos por ela, e, ao pisarmos em solo fora da fazenda, a mulher já não tinha mais doença alguma e ainda falou para o fiscal: para onde você vai me levar? Ele respondeu: Você está doente e está fazendo muitos danos. Então ela, incrédula, deu uma risada gostosa, e falou para ele: Vamos voltar pra casa, eu não tenho nada. – E de fato eu, papai e José Vicente pudemos testemunhar, a partir dali, que ela não tinha nada mesmo; era tão normal quanto a nós -. Porém o rapaz não a deixou voltar e lhe aconselhou para que fosse com ele para o médico, pois era ordem do patrão, no que ela o atendeu; e fomos caminhando. Andamos mais oito quilômetros e ela foi conversando conosco; pareceu-nos de fato uma pessoa normal. Ao chegarmos na cidade o rapaz pediu para que o papai fosse junto até ao consultório. O papai o atendeu e fomos; só após no médico, é que saímos para fazer as nossas compras.
   O médico examinou a dona Adélia e não encontrou doença alguma, portanto, após ela voltar e adentrar na fazenda, novamente lhe voltou aquele mal e lhe causava muitos transtornos. Só porque eram trabalhadores e estimados pelo patrão, Seo Benedito e Dona Adélia não puderam mais trabalhar na fazenda; os outros tinham inveja deles.
   O administrador, como conhecia bem todo o pessoal da fazenda, desconfiou que, quem estava fazendo este mal para este casal era um preto velho, feiticeiro, por nome de Leopoldo, que morava em uma casa de pau-a-pique bem distante da sede da fazenda. Reuniu vinte homens para ir consigo à noite na casa do Leopoldo, para pegar ele e toda sua família. Para essa empreitada o administrador mandou cortar muitas varas de pinhão, comprou um rolo, grande, de fumo macaia e ajuntou três dúzias de ovos chocos.

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   Escolheram uma noite bem escura, e foram tarde da noite. Uns levaram vara, outros levaram corda de fumo e outros ainda levaram ovo. Quando chegaram na casa era meia noite, bateram na porta e o Leopoldo, como não desconfiava de nada, abriu-a para atender. No que ele saiu na porta, o agarraram, tanto a ele como toda sua família e deram uma surra de vara de pinhão, chicote de fumo e lambuzaram todos com ovo choco, não escapou nenhum da família. Bateram até dizer chega, e foram embora. No outro dia o feiticeiro foi à cidade e falou pro delegado que uma turma tinha batido nele e em sua família inteira. O delegado perguntou-lhe: Quantas pessoas eram? O Leopoldo falou: Eram mais de vinte homens. Então o delegado lhe falou: nesse caso eu não posso fazer nada, pois, isso foi uma escolta.
   Não fiquei sabendo, mas acredito que o Benedito e a Adélia se mudaram da fazenda, porque nunca mais soubemos notícias deles.
   Continuando o assunto vou narrar um outro caso que foi de difícil solução. Este acontecia com o senhor João Correia, também morador na colônia, e com o senhor Jango Soares ( Janguinho), este não era da fazenda, era um sitiante visinho. – Esse Jango eu o conheci pessoalmente, fui com o papai várias vezes trocar fubá em seu moinho, em seu sítio -. O Jango tinha um problema no braço que nenhum médico de Resende conseguiu descobrir qual seria a doença, e, mesmo tomando remédios, cada vez piorava mais.
   Com o João Correia acontecia o seguinte: Ele aparentemente não tinha nada, era sadio, não sentia dor alguma. Porém, várias vezes no dia – isso acontecia mais à noite – ele levava uma rasteira e caia ao chão; olhava e não via ninguém por perto, então levantava e tomava outra rasteira. Isso foi muito tempo, ninguém descobria.
   Como nada nesse mundo fica encoberto por muito tempo, um dia souberam que num canto da fazenda, meio escondido, tinha uma casa velha de barro, e que às sextas-feiras lá iam uma turma de macumbeiros fazer seus “trabalhos”. Então o João combinou com o Jango e chamaram meia dúzia de caboclos de coragem, e, armados com foice, facão e cacete, tarde da noite, num profundo silêncio, foram para lá.

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   Numa distância de cinqüenta metros da casa já ouviram o zunzum. Chegaram até a casa e, pelos buracos da parede, puderam ver e ouvir o que acontecia. Nos “trabalhos” o chefe dos feiticeiros batia numa imagem ou boneco, queimava pólvora perto da imagem e falava as seguintes palavras: O Janguinho perde o braço? A turma respondia: Perde. O chefe fazia outra pergunta: E o João Correia tomba? Os comparsas respondiam: Tomba. No mesmo instante em que o chefe derrubava aquela imagem o João Correia recebia a rasteira e caia ao chão.
   Enraivecidos o pessoal arrombaram a porta e gritaram: Cambada de feiticeiros sem vergonha, vamos acabar com vocês e invadiram a casa. No entanto, só conseguiram dar uns pontapés e umas bordoadas em alguns, não foi possível matar nenhum, todos fugiram pela porta da cozinha. No dia seguinte o João Correia foi relatar ao patrão o que acontecia naquela casa velha, e que na noite anterior eles tinham escorraçado aquela bandidagem de lá. Depois disso os feiticeiros nunca mais se reuniram naquele rancho, e o João Correia e o Jango Soares sararam.
   Nessa época, depois desse acontecimento, o patrão mandou meu pai e um tal de José Moraes cortar um capão de árvores que havia ficado para trás quando derrubaram a mata. Eu tinha oito anos, mas prestava muita atenção nas conversas dos homens. Nesse dia eu estava junto com eles e ouvi perfeitamente quando o Moraes disse, deste jeito, para o papai: Todos os moradores desta fazenda tinham vontade de pegar aquela fórma de café que vocês pegaram e formaram, e por causa disso tinham grande inveja de vocês. Admira-me que nunca aconteceu “coisa” com nenhum da vossa família. Não acontecer nada com vocês é coisa de admirar; o senhor deve ter tirado um pedaço da pedra do altar – aquela sobre qual o padre reza a missa -. Meu pai retrucou dizendo: Senhor Moraes, eu não tenho nenhuma pedra de altar, o que eu tenho é muita fé em Deus. Eu respeito os deis mandamentos da Lei de Deus, respeito os Sacramentos e a lei da igreja católica. Mesmo morando dezoito quilômetros distantes da igreja, vou à missa todos os domingos, e vou à pé.

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Confesso e comungo sempre que posso e rezo o terço todos os dias. Ao ouvir a resposta do meu pai o José Moraes até deu um suspiro e disse: então é por isso que nunca aconteceu nada com ninguém da sua família! O papai ainda disse para ele: se um dia eu tivesse a coragem e a desfaçatez de ter roubado qualquer objeto da igreja, aí sim, talvez, eu teria sofrido algum problema por causa dos invejosos; porque eu estaria sem a graça de Deus. Pois, quem rouba da igreja é uma pessoa sem a graça de Deus (é um desgraçado) fica afastado de todas as graças e bênçãos do nosso Pai Eterno e de Jesus, nosso irmão.
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   A Pedra que bateu

   O meu pai sempre me contava casos (verdadeiros) de caçadas que ele fazia. Tantos outros, e esse, por exemplo, que narro agora ele nos contou muitas vezes. O fato aconteceu no sertão do Major Camilo, onde eles iam caçar todas as semanas. – Noutros sertões, por exemplo, sertão do Hortelã e sertão da Prata, papai e seus companheiros iam menos vezes. Esses sertões não tinham fim, abrangiam todo litoral brasileiro, começava no norte do país e terminava no sul, divisando com o Uruguai. Neste dia o papai e o tio Zeca (seu irmão), que tinham treze e quinze anos de idade, respectivamente, saíram de casa às cinco horas da manhã, ainda escuro, para caçar jacus. Tinham que chegarem nas fruteiras antes dos pássaros e, escondidos nas ramagens dos pés de frutas selvagens, esperarem o dia nascer, pois, era nessa hora que os jacus chegavam para comerem as frutinhas. Assim era mais fácil matar alguns. - Pelo fato dos jacus serem muito ariscos, os caçadores tinham que espera-los na seva antes de clarear o dia –. Como estava dizendo, saíram na escuridão, entraram na mata e seguiram pela picada que os levava até a seva dos jacus. Bem no meio dessa picada tinha uma pedra grande e o seu formato era oval, e era necessário passar por ela para continuar no caminho. Na ida quando, ao passar, você botava os pés em cima da primeira

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extremidade dela, esta parte estava assentada no solo, porém, quando você dava alguns passos caminhando sobre ela, então era a outra extremidade, à sua frente, que abaixava e tocava no chão, levantando, automaticamente, a parte que se encontrava apoiada, de forma que, quando você pulava de cima dela, tirando o seu peso daquela extremidade, ela voltava na posição anterior batendo forte no chão causando um grande barulho. Pois bem, o papai e o tio Zeca ao passarem sobre pedra, ela voltou, bateu no solo e fez barulho e eles seguiram o caminho normal. Porém, após caminharem vinte passos para frente, ouviram a pedra bater novamente. Muito assustados, e sem poderem ver nada (estava escuro como um breu), o tio Zeca falou com o papai: Vamos encostar neste tronco grosso dessa árvore e esperar; se for gente, ele vai passar aqui em nossa frente e nós veremos quem é, e se for onça não vai passar, pois ela só ataca à traição, e se nós ficarmos nessa posição com as costas protegida pelo tronco e de frente para a picada, ela não vem. Esperaram, quietos, uns minutos e nada ali passou, nem homem e nem onça. Então o tio Zeca comprovou para o papai: Era onça mesmo Ezequiel. Ela sentiu nosso cheiro e já vinha nos seguindo, já estava próxima para nos pegar, o que nos salvou foi a pedra que bateu. Agora nós vamos ficar aqui nesta posição até o dia clarear, se sairmos ela nos pegará. Clareou o dia e, dali mesmo, eles voltaram para casa, nem quiseram saber, mais, de jacus naquele dia.
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   A paca que virou potrinho

   Meus filhos, este fato, realmente, acontecido que escrevo agora parece mentira, mas é verdadeiro. Isto aconteceu com quatro primos do papai e mais dois colegas deles, quando foram caçar pacas no sertão da Prata, no município de Rio Claro (RJ). – É bom que vocês saibam que quando uma pessoa que é muito religiosa se afasta da prática da religião, não indo à igreja e nem participando da sagrada Eucaristia porque ficou fanático na caça ou na pesca,

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pode esperar que, dias mais ou dias menos, verá coisas estranhas que serão de difícil entendimento. Pode-se fazer de tudo que se goste, mas, primeiro tem que ser a prática da religião.
   Vamos ao fato: Os primos de papai tinham meia dúzia de cachorros, práticos, para caçar pacas e cutias. Sempre que caçavam iam com eles dois colegas, estes não eram religiosos e nessa época os dois estavam adoentados com o amarelão e tinham dificuldades para andar dentro da mata, pois nela tinha muitas pedras, cipós e barrocas.
   Nesta caçada estavam os seis rapazes que, já na entrada da mata, desatrelaram os seis cachorros e os soltaram no carreiro das pacas. Não demorou os cachorros já levantaram o bando de pacas que, corre para cá corre para lá, sai e entra novamente no mato até que se escondem numa toca e os cachorros ficam acuando latindo. Os homens foram até lá e viram os cachorros querendo entrar na toca, mas não podiam. Ali era uma pedreira e tinha várias tocas, nessa que as pacas entraram tinha uma nascente dentro e a água escorria pedra abaixo formando um reguinho. Pelo motivo de os cachorros não poderem entrar na gruta, os rapazes cortaram uma vara comprida e cutucaram até ao fundo do buraco para ver se as pacas saiam. Não tardou, eis que saiu do fundo daquela gruta em meio às águas, não uma paca, mas sim, um alazão novinho, com as pernas compridas, olhou para eles e deu uma relinchada tão forte que eles quase desmaiaram de medo. Em seguida o cavalinho voltou para dentro da toca, e os rapazes saíram numa correria por aquelas barrocas, subidas e decidas. Os dois rapazes que estavam com amarelão não agüentavam acompanhar os amigos e gritavam para que os esperassem. Ao mesmo tempo em que os cachorros uivavam, tinha um “trem” que chacoalhava as árvores e também uivavam como os cachorros. Nesse dia os caçadores correram tanto, e passaram tanto medo, que somente após um ano é que eles conseguiram voltar naquela mata para caçar.
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   Americana, 06/01/2003.

   Saudações
Estimado primo, Laudelino, espero que, ao receber esta carta, você esteja na mais perfeita alegria por ter recebido tantas graças do Pai celeste ao comemorar, este ano, mais um aniversário seu, completando assim noventa e dois anos de vida. Somente uma pessoa agraciada por Deus pode chegar a uma longevidade como você chegou. Espero que você ainda comemore muitos anos de vida. Eu também não estou muito longe de você, no dia dezessete de abril de dois mil e três vou comemorar meus oitenta e cinco anos, se Deus quiser. E me sinto muito feliz por isso.
   Laudelino, como você é um dos netos mais velho do vovô Silvino, eu queria te pedir um favor. Gostaria que você me explicasse quais e quantos são os sobrenomes o vovô Silvino e da vovó Eugênia. Eu sei que o tio Paulino assinava: Paulino Soares da Silva; o tio Neco, Manoel do Nascimento; o tio José, José Rodrigues da Silva; minha mãe, Sebastiana Cândida de Oliveira; a tia Jove, Jovelina Cândida de Oliveira. Eu pensava que minha mãe assinava Oliveira porque meu pai era Oliveira. Mas, porém, ha pouco tempo fiquei sabendo que o tio Chico, que também era irmão da minha mãe, assinava Oliveira, ou seja, Francisco Candido de Oliveira. E com isso fiquei mais confuso.
   O que te peço, se você souber, é o favor de me mandar, por escrito, todos os sobrenomes que o vovô e a vovó assinavam. E se por acaso você também souber quais eram os sobrenomes dos tios Bernardino e Avelino, irmãos mais velhos da mamãe; também deles eu queria saber.
   Explico porque! É que aqui em Americana e região, moram famílias vindas de todas as regiões do país; então, acredito que aqui deva morar alguém que seja descendente desses dois tios nossos. O que sabemos é que no início do século vinte esses dois tios saíram, já casados, da casa do vovô Silvino em Rio Claro (RJ) e se mudaram para Birigui (SP), e esta cidade está à uma distancia

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de trezentos quilômetros de Americana. É por isso que eu acho que deve haver alguns deles morando aqui. Eu sabendo qual é o sobrenome que eles assinam, será fácil me informar sobre eles.
   Sem mais, a dizer, mando nossos abraços a todos daí. Também vão nossos parabéns pelos seus noventa e três anos; idade tão linda! Só mesmo quem tem a graça de Deus pode chegar a uma data tão bonita assim. Abraços a todos os parentes de Rio Claro. - Nestor de Oliveira.
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   Quero Paquera

   Havia uma turma de caçadores que todos os meses iam caçar bichos e pássaros naquele sertão enorme. Lá no meio do mato eles haviam feito um bom rancho, bem fechado e grande. Sempre que iam, eles permaneciam de dez a quinze dias no mato. Para lá eles levavam arroz, feijão, gordura, sal, panelas, e remédios, entre outras coisas. Junto com os caçadores ia, também, o cozinheiro; este ficava o tempo todo no rancho preparando a comida para todos. Ele limpava as caças e as preparavam cozinhando, fritando ou assando em espetos. Por ser uma turma grande, ele as assavam em grande quantidade e ia colocando os espetos, já assados, pendurados na parede do rancho, pois, quando o pessoal chegava com fome era só pegar e comer. Além das carnes, ele preparava também as paqueras dos bichos que matavam.
   - Para saber se um homem é corajoso ou não, é só manda-lo dormir uma noite no meio do sertão. Só quem dorme dentro do sertão é que conhece os barulhos que tem, à meia noite, no mato. Além de muito arrepiantes, ainda tem o grito do urutáuro, que quando você ouve - estando no fundão da mata – te arrepia todos os cabelos do corpo. Também tem os corujões com seus vários tipos de gritos medonhos, e tem ainda os mais temíveis que são os rugidos das feras, esses, quando você ouve, chegam estremecer seu coração dentro do seu peito. – Sabemos que no meio de uma turma de caçadores sempre tem um que é teimoso e gosta de abusar; e

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quem era assim neste grupo, era o cozinheiro -.
   Pois bem, numa bela noite durante essa caçada, os relógios marcavam meia noite em ponto, o pessoal, todo, sentados perto do braseiro do fogão, contando histórias e conversando sobres as aventuras que cada um havia passado naquele dia; derrepente ouve-se, ao longe, um grito medonho, estridente, assustador, jamais tinham ouvidos tal coisa tão arrepiante. Com isso, um resmungou daqui; um se encolheu num canto; um falou que sempre dormia no mato, mas nunca ouvira aquilo; outro diz que foi o grito mais feio que já tinha ouvido; outros pediam para apagar o lampião e trancar bem a porta do rancho. Nisso o cozinheiro que era abusador falou: Vocês são uns medrosos, se aquele trem gritar novamente eu vou chamá-lo para vir comer paquera. Com o que ele falou, a rapaziada não gostaram, se arrepiaram pra cima dele e falaram: Você não faça mais isso, pois se fizer nós vamos todos embora e você, como é valentão, vai ficar sozinho aqui. Mal acabaram de falar, o bicho gritou novamente e, dessa vez, bem mais perto do rancho. De nada valeu a repreensão, pois o cozinheiro não respeitou a opinião dos colegas e saiu na porta do rancho e gritou: Você quer paquera? Vem comer paquera!
   Quando perceberam que o bicho estava mais perto e que o cozinheiro era maluco, os caçadores cataram seus apetrechos e saíram em disparada para casa, ficando somente o cozinheiro imprudente no rancho. Passados alguns minutos deu o último grito e já chegou na porta do rancho, e disse: Você me chamou para comer paquera, eu vim comer paquera, quero paquera. Meio espremido ele conseguiu entrar pela porta do rancho e já foi pegando os espetos de carne assada e comendo. À cada bocada ele limpava um espeto e falava que queria mais paquera. O cozinheiro foi dando-o um a um, e quando viu que os espetos iam se acabar e o bicho continuava com fome, ele subiu numa árvore alta, ao lado do rancho, e ficou mijando de medo lá em cima. Quando o bicho não encontrou mais nada para comer, olhou para o cozinheiro lá em cima e novamente falou: Você me chamou para comer paquera, eu quero paquera, se você não der eu vou comer sua paquera!

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   O bicho foi no fogão, colocou seu pé no brasido da lenha e, quando o pé ficou vermelho como brasa, foi na árvore e deu um chute nela; voou cavaco parecendo que tinha sido uma machadada. Fez isso três vezes. Após essas três pancadas, e a árvore prestes a cair, o cozinheiro pensou em Deus e lembrou-se que sua esposa lhe havia posto no bolso de sua calça, um rosário. Então o tirou do bolso, fez o sinal da cruz, começou rezar e mostrou o crucifixo do rosário para o bicho, que, depois de um gemido, desapareceu na imensidão da mata. Porém, o “corajoso” cozinheiro não teve coragem de descer da árvore; só o fez quando seus colegas, depois do raiar do sol, voltaram no rancho para ver se ainda o encontravam vivo. Levaram-no para casa, todo borrado, e nunca mais ele quis voltar pro mato fazer paquera.
***

   História do João e da Joana

   Essa história é muito antiga. O nosso querido pai nos contava, quando estávamos reunidos em família e que pedíamos para ele nos contar um causo.
   Certa família morava num local bem distante da cidade; morava no meio dos sertões. O casal era muito pobre e tinha dez filhos, e, por isso, não tinham roupas e nem cobertas suficiente para todos. Quando era tempo de frio, esquentavam-se com o calor do fogo do fogão a lenha. Por serem muitos, não sobrava nenhum lugar para os pais se esquentarem no fogo. A mulher, que era mais friorenta, falou para o marido: já que nós temos muitos filhos, vamos levar um casal de crianças bem longe de casa, no meio do sertão, e lá largaremos eles, assim sobrará dois lugares na beira do fogão, assim nós dois poderemos nos esquentar. No dia seguinte bem cedo, o homem pegou o machado, um caldeirão e uma cabaça, dizendo que iria tirar mel no mato e chamou o Joãozinho e a Joana para irem juntos. Todos os filhos, porém, queriam ir para o mato chupar mel, mas o pai não consentiu, dizendo que hoje somente o João e a Joana iriam, e prometeu que os levaria noutros dias.

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   Então saíram somente os três e foram mato adentro. Andaram por uma hora e acharam um meleiro no tronco de uma árvore. O pai abriu um buraco no tronco com o machado, tirou o mel e falou para as crianças: vocês ficam aqui chupando este mel, que eu vou mais na frente procurar outro meleiro, quando vocês escutarem as batidas do machado é porque eu encontrei outro mel, então vocês prestem muita atenção em que rumo está as batidas e seguem em frente naquele rumo que vocês me encontrarão. E assim se fez. Chuparam o mel e quando ouviram as batidas, seguiram no rumo certo, mas quando chegaram no local não encontraram nem mel e nem o pai; encontraram, sim, a cabaça amarrada num galho de uma árvore e com o soprar do vento ela batia no tronco fazendo o barulho como se fosse as pancadas do machado. Ao ver isso, João que era mais velho falou para a irmã: nosso pai foi embora e nos deixou aqui, agora estamos perdidos nesse mato, precisamos procurar uma saída. Andaram, andaram e nunca encontravam a saída, quanto mais andavam, mais longe de casa eles iam. Ficaram nesta situação muito tempo, se alimentandos de frutos do mato e bebendo água dos riachos.
   Um dia o Joãozinho subiu numa arvore muito alta pensando conseguir ver uma saída; e de fato, avistou ao longe uma fumacinha que saia de uma chaminé, e se alegraram. Joãozinho marcou bem qual o rumo da fumaça, desceu da arvore e seguiram andando. Depois de muito andar encontraram um ranchinho todo esburacado, num descampado, naquele fim de mundo. O João falou para a irmã: vamos ter cuidado, pois deve ser um criminoso, gente boa não teria coragem de morar aqui. E disse ainda: você fica aqui atrás das ramagens que eu vou com cuidado chegar bem perto para ver quem é o morador. Se for boa gente ele vai nos ensinar o caminho de volta para casa. Quando o menino chegou no canto do rancho pode enxergar, por um buraco na parede, uma velha muito feia que estava no fogão fritando bolinhos, e avistou o prato que estava cheio e bem encostado na parede. Ele que estava morrendo de fome pensou; vou enfiar a mão pelo buraco, pegar dois bolinhos e correr para junto da Joana e lá vamos comer.

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   Nisso ele olha para trás e vê a Joana que está chegando ao seu lado. Então ele pediu para ela fazer silencio e enfiou a mão pelo buraco; a velha, que não era boba, lá de dentro viu e falou: chipi, chipi meu gatinho, não me roube o meu bolinho, quando comerei ti darei. Ele tirou a mão rapidinho e a Joana tapou a boca com a mão para não dar risada. Passado uns minutos ele tentou de novo e a velha repetiu de novo: chipi, chipi meu gatinho, não me roube o meu bolinho, quando comerei ti darei. Aí a Joana não agüentou mais e deu uma gargalhada. Nisso a velha olhou para fora e falou: é meus netinhos que estão aqui, venham para dentro; meu Deus, como que estão magrinhos! Vou cuidar de vocês para ficarem bem gordinhos!
   Dentro da casa tinha um caixão de madeira, grande e pesado que, depois de alimenta-los, ela pôs os dois presos dentro dele, e todos os dias ela os alimentavam muito bem. E assim os dias foram passando, e todas as manhãs a velha malvada pedia para que eles mostrassem o dedinho, através de um buraco no caixão, para ver se já estavam bem gordinhos. Num desses dias entrou um rato dentro do caixão e o Joãozinho pegou-o e conservou-o preso com ele e, cada manhã, no lugar de mostrar o dedo eles mostravam o rabinho do rato. Agiam assim, pois, sabiam que enquanto estavam magrinhos estariam com a vida salva. Todas as vezes era o Joãozinho que mostrava o rabinho do rato, tanto na sua como na vez de Joana; ele agia assim por segurança, pois ela poderia deixar o rato escapar. Assim fizeram por mais de ano, já estavam bem crescidos, mas a bruxa não percebia porque eles nunca mostravam os dedos. Por outro lado a Joana não estava nada contente, queria porque queria, na sua vez, mostrar o rabinho do rato. De tanto insistir o Joãozinho deu o rato para que ela mostrasse para a velha naquela manhã. Muito desajeitada e com medo ela não soube segurar o bichinho que lhe deu uma mordida no dedo, ela deu um grito e soltou o rato, que mais que depressa sumiu. O Joãozinho ficou bravo, mas não adiantou, tiveram que mostrar os dedos verdadeiros para a bruxa. Ao ver aqueles dedos ela deu até um grito de espanto e disse: que beleza, como que já estão gordinhos!

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   Tirando-os do caixote mandou-os buscar lenha no mato, dizendo que precisaria fazer uma grande fogueira e que eles iam dançar, era uma festa. – A intenção da bruxa era de empurrá-los para dentro da fogueira e matá-los, para depois comê-los -. Então os dois foram para mato e, enquanto catavam a lenha, ouviram a voz de uma fada que dizia para eles: quando a velha mandar vocês dançarem, vocês não dancem; mandem-na dançar primeiro para que vocês possam aprender, e quando ela passar dançando na vossa frente, vocês dão um empurrão e joga ela dentro da fogueira, com isso o corpo dela vai pegar fogo e vai dar três estouros. De cada um desses estouros vai sair um cachorro. Joãozinho, preste muita atenção no que vou te dizer; no primeiro cachorro você põe o nome de leão, no segundo você põe o nome de facão e no terceiro cachorro você põe o nome de rompe-ferro. Voltaram para o rancho com a lenha e fizeram tudo como a fada ensinou, e deu tudo certo. Jogaram a velha na fogueira, e de cada estouro saiu um cachorro; um de cada seio e outro da cabeça.
   Agora eles já não estavam mais sozinhos, eles tinham os três cachorros como companheiros, que eram também seus guias e sues defensores, e saíram andando.
Andaram, andaram e faziam muitos anos que estavam perdidos na mata, quando ao cair da tarde de um belo dia depararam com uma mansão muito grande e bonita. Chegaram até o portão, chamaram, porém não havia ninguém na casa, as portas e janelas estavam todas fechadas. Joãozinho disse, vamos esperar aqui fora, logo chega a noite e deve chegar alguém. Estavam com medo, mas também curiosos em saberem quem é que morava ali. Mal o sol acabara de se pôr ouviu-se um grande barulho, como se fosse uma ventania, que vinha pela mata. Com um arrepio no corpo o Joãozinho gritou: pronto Leão, pronto Facão, pronto Rompe-ferro! E os cachorros já ficaram nas pontas dos pés, de prontidão. Não tardou muito para aquele barulho chegar até eles, e eis que aparece um príncipe encantado, e ao vê-los começa indaga-los: como chegaram e o que estão fazendo aqui? O Joãozinho explicou tudo certinho o que estava acontecendo com eles, qual era o motivo

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deles estarem perdidos ali. Por ser a Joana uma linda mocinha, na primeira vista, o príncipe já ficou gostando dela e convidou-os para entrar. Depois de uma pequena conversa ele mostrou todo o palácio para eles e disse que poderiam ficar o tempo que quisessem ali com ele; e disse mais: Joãozinho você vai tomar conta do meu palácio e vão ter uma vida de príncipe aqui, porém, tem uma condição; as portas destes dois quartos que vou te mostrar agora não podem ser abertas, é terminantemente proibido entrar nestes dois quartos! Depois pegou o molho de chaves e entregou para o João; pegou também um vidrinho com remédio e entregou para a Joana dizendo: este remédio é milagroso, se algum dia acontecer alguma coisa com um de nós, você pinga apenas três gotinhas dele nos ferimentos que ficaremos curados na hora. Os dias foram passando, - agora o João e a Joana já são mocinhos - todas as manhãs aquele príncipe saía e só retornava ao entardecer.
   Acontece que a Joana era muito curiosa e vivia tentando o seu irmão para que abrisse aqueles quartos que ela queria ver, pois, dizia ela, deve haver uma coisa muito boa lá dentro. Ela insistiu tanto que ele acabou cedendo à sua vontade e abriu os quartos proibidos. Num quarto tinha um cavalo comendo osso e no outro um cachorro comendo capim. Ao ver essa injustiça o Joãozinho teve pena dos animais e trocou os alimentos, deu o capim para o cavalo e o osso para o cachorro. Eis que neste exato momento quebrou o encanto daqueles dois animais e voltaram ser um moço e uma moça, um casal de namorados como eram antes. Contaram para o Joãozinho que aquele monstro em forma de príncipe proprietário do castelo tinha posto esse encanto neles porque a moça sua namorada não quis casar-se com o monstro. Agradeceram muito o João e saíram na carreira pra fora do palácio e sumiram na imensidão da mata. Também nesta hora o príncipe, que estava longe do palácio, percebeu que o João e a Joana haviam feito coisa errada, veio furioso acertar as contas com eles. Mal deu tempo para o Joãozinho, que já havia ouvido na mata que o bicho vinha, mandar os cachorros ficarem de prontidão. Houve uma luta terrível, sendo que o Joãozinho com os cachorros saíram

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vencedores, matando aquele falso príncipe. Terminada a luta o João pegou o que lhe pertencia, pegou sua irmã e os cachorros e falou vamos embora. Andaram uns cem metros distantes da mansão e a Joana, - que estava gostando daquele príncipe - fingindo, falou para o irmão que precisava parar para fazer suas necessidades e distanciou dele. Porém ela voltou ao palácio e pingou daquele remédio sobre o corpo do príncipe e ele reviveu. Depois ela saiu correndo para frente para não demonstrar ao irmão o que ela realmente tinha feito, e continuaram a caminhada.
   Como num repente eis que surge na sua frente aquele príncipe ainda mais raivoso, bem vivo e forte que vem novamente para cima dele e dos cachorros. Joãozinho - que era um moço abençoado desde aquele dia em que lhe aparecera aquela fada madrinha, quando ele foi na mata buscar lenha para a fogueira – gritou para os cachorros: me valem leão, facão e rompe-ferro e salva-me Nossa Senhora e entrou na luta, que foi mais ferrenha que a outra e mais uma vez ele vence e mata aquele príncipe (bicho). Como ele era iluminado e já desconfiava da irmã, cortou o bicho em quatro partes e falou para os cachorros: leão você leva esta parte para o norte, facão você leva esta para o sul, rompe-ferro você leva esta outra para o leste que a última eu vou levar para o oeste. E assim se fez, de forma que as partes ficaram bem distantes uma da outra. Feito isso, voltaram todos para o ponto de partida e seguiram caminho em frente procurando um jeito de sair do mato. Nessas alturas a Joana, que estava brava como uma jararaca, não dava sossego para o irmão dizendo que não agüentava mais andar e que estava morrendo de fome e sede. Pararam debaixo de um angiqueiro e Joãozinho foi procurar água pra irmã. Desceu em uma enorme gruta e encontrou, porém a água estava num buraco muito fundo. Para apanhar a água ele cortou um cipó bem comprido, amarrou-o no tronco de uma árvore e a outra ponta em sua cintura, descendo em seguida até o fundo do poço. Quando viu que ele havia chegado lá embaixo ela cortou o cipó deixando-o naquela água fria a cinqüenta metros de fundura e saiu de volta a procurar

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as partes do corpo do príncipe pensando em pingar o remédio. Os três cachorros que eram fieis ao dono ficaram de guarda e latindo na boca do poço.
   Quase que por um milagre, naquela imensidão da mata, havia dois caçadores que, ao longe, ouviram aqueles latidos estranhos. Ficaram muito espantados, pois, nunca haviam escutado outros latidos além dos de seus próprios cachorros. Como esses latidos não paravam, os caçadores resolveram ver de perto o que estava acontecendo. Andaram mais de três horas para chegar onde estavam os cachorros. Com um pouco de medo e muito jeito conseguiram chegar na boca do poço e avistar o Joãozinho que estava congelado e quase morto lá no fundo. Cortaram outro cipó, jogaram lá embaixo para o Joãozinho e puxaram-no para fora; só então é que ele contou o que lhe havia acontecido e que queria sair do mato. Os dois caçadores sabiam a saída e foram levando o Joãozinho e os cachorros, e no caminho iam trocando idéias e lhe disseram: logo na frente você vai encontrar uma grande cidade, mas lá tem um problema terrível. É que todos os dias às duas e meia da tarde vem um bicho do sertão, e ele entrava na cidade e matava algumas pessoas, esse bicho é grande e tem sete cabeças, ninguém consegue mata-lo. Por causa disso o rei fez um decreto colocando o nome de todos os habitantes da cidade em uma lista, construiu um ranchão entre a cidade e a mata, e todos os dias é sorteado um nome, essa pessoa que é sorteada é levada e amarrada naquele ranchão. Quando o bicho chega para entrar na cidade, encontrando aquela pessoa, ele pega apenas ela e volta para o mato; assim não causa tanto estrago e nem pânico dentro da cidade. No edito também estava escrito que se alguém matasse esse bicho, como prêmio, casaria com a filha do rei. E continuaram dizendo: a pessoa sorteada hoje para esperar o bicho é justamente a filha do rei. No que eles falaram isso, Joãozinho enfureceu-se e falou: eu quero conhecer esse lugar e quero ir onde a princesa está. Então o caçador mais velho pediu que esticassem os passos, pois que não tardava o bicho chegar; e continuou dizendo que iam passar lá perto e indicariam o lugar exato.

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Lá você poderá ver o ranchão e a princesa que vai morrer na unha do bicho. Quando chegaram nas proximidades indicaram e despediram-se dele desejando-lhe boa sorte. O Joãozinho foi chegando perto da princesa e ela já foi gritando: vá embora moço vá embora, está na hora do bicho de sete cabeças chegar! Vá embora senão você vai morrer também. No exato momento em que o Joãozinho chega e entra no rancho já escuta o barulho do bicho que vem quebrando tudo no mato. Só deu tempo para ele desembainhar a espada cortar as amarras da princesa e gritar com os cachorros, leão, facão e rompe-ferro, para o bicho chegar e avançar em cima dele. Foi uma luta quase interminável, a princesa desmaiou, cada cachorro lutou contra uma cabeça, segurou na garganta e matou-a, e o João lutou contra as outras quatro, matando-as e deixando o bicho estirado no chão. Com a luta ganha Joãozinho deu uma olhada por dentro do rancho e viu a placa com os dizeres; Aquele que matar esse bicho casará com a filha do rei. Pegou a princesa nos braços e acordou-a. Ao voltar em si, ela não acreditava o que estava vendo, abraçou e beijou o Joãozinho e queria leva-lo ao palácio para apresentar ao pai, aquele que havia matado o bicho e lhe salvado a vida. Porém o João disse que nas condições que se encontrava não podia entrar na cidade, estava quase sem roupas, descalço, cabeludo, barbudo e sujo, e que não pretendia casar com a filha do rei. Mas ela decidiu que iria para casa e mandava um criado trazer roupas e também cuidar de sua limpeza. E saiu. Joãozinho cortou as sete pontas das línguas da fera, embrulhou-as e as guardou no bolso, saiu e foi descansar debaixo de uma árvore. Minutos depois passou por ali um crioulo por nome de Pai-João que vinha cortar lenha no mato, vendo o animal morto, cortou os sete tocos de língua daquele bicho, pôs na sacola e foi correndo para o palácio do rei, dizendo que havia matado o bicho de sete cabeças e queria casar com a princesa. – Na frente do rei ele disse deste jeito: zieu zimatei zio zibicho zide zisete zicabeça, zieu ziagora ziqué zicasá zicom ziprincesa -. Para saber se o crioulo dizia a verdade o rei lhe pediu uma prova, pois não acreditava em suas palavras.

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Foi então que o pai-joão lhe entregou as sete “línguas”. O rei, por estar muito alegre em saber que o bicho estava morto, nem imaginou em examinar se as línguas eram verdadeiras ou não, e mandou começar os preparativos para o casamento. Porém a princesa chorava e gritava que não casaria com ele, que ele era um impostor, um mentiroso; não foi o velho preto que matou o bicho, e sim o Joãozinho. E falava para o pai que o Joãozinho era um moço novo, bonito, e que tinha três cachorros ensinados, grandes e bonitos. O rei queria acreditar na filha, mas por falta de prova não podia. Além do crioulo, ninguém mais havia se apresentado como sendo o matador do bicho de sete cabeças; e como palavra de rei não volta atrás, ela teria que se casar com o crioulo velho. Mandou os criados continuarem com os preparativos para a festa, e também para o pai-joão se preparar.
   Uma semana antes do casamento já estava bem adiantada a preparação dos comes e bebes. Mataram bois, porcos, carneiros, frangos, perus e também muitos tipos de doces deliciosos. Na sexta feira, véspera do casamento, já havia chegado todos os convidados de longe e as carnes já temperadas, os doces e as bebidas estavam tudo na dispensa. Naquele reino tudo era alegria e festa, menos para a princesa. No sábado, lá pelas oito horas da noite, uma hora antes da celebração do casamento já estavam todos os convidados no palácio e o pai-joão dentro de um terno de casimira cinza, músicas tocando, rojões estourando e a princesa não parava de chorar. Lá do mato, o Joãozinho, moço iluminado e que era afilhado de Nossa Senhora, ouvia todo o barulho do festejo e teve uma grande idéia. Mandou o cachorro por nome de leão ir à festa e pegar um quarto de leitoa assada e trazer para eles comerem, no mato. Leão, muito obediente, saiu na toda e entrou no palácio, foi direto na leitoa assada, pegou-a com a boca e saiu no meio da multidão levando-a para o mato. Quando a princesa viu aquele cachorro, pulava e gritava de alegria dizendo: está vendo papai, este é um dos cachorros que ajudou o Joãozinho matar o bicho. Ao ver o ocorrido o rei ficou desconfiado. Enquanto isso, lá no mato, Joãozinho e os cachorros comeram a leitoa.

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   Agora ele manda o segundo cachorro buscar um frango assado. O facão também saiu na carreira, fez igual o primeiro, pegou o frango e saiu no meio dos convidados. A princesa tornou a ver e falar para o pai que aquele era o segundo cachorro do moço. Nessas alturas os convidados já estavam acreditando no que a princesa estava falando. Passados alguns minutos o Joãozinho mandou o terceiro cachorro, o rompe-ferro, buscar um prato de doces para a sobremesa. Também este, fez como os dois primeiros, pegou os doces e saiu andando no meio dos convidados. A princesa gritou novamente para o pai dizendo: olha o terceiro cachorro que eu disse para o senhor! Agora o rei já não tinha mais dúvida; acreditou na filha e mandou dois de seus guardas seguirem o cachorro até encontrar o dono e traze-lo em sua presença. Ao encontrá-lo no mato, os guardas disseram ao Joãozinho que iam leva-lo ao palácio, pois era desejo do rei. Porém o Joãozinho não quis ir, dizendo que estava sujo, descalço, cabeludo, barbudo e quase nu. Com a insistência dos guardas ele disse: fala para o rei mandar roupas, calçados, um barbeiro e um lugar para que eu possa me banhar; só então é que poderei cumprir a vontade do rei. Os guardas voltaram e relataram ao rei que por sua vez, além de mandar tudo o que o Joãozinho pediu, mandou também todo tarje de casamento e uma carruagem, para que ele pudesse entrar triunfante pelas ruas da cidade. - Após esta ordem do rei, os convidados ficaram ansiosos para conhecer o futuro príncipe; enquanto que o crioulo pai-joão encolhido, tremendo e desesperado já havia até borrado as calças de tanto medo do castigo que ia receber -. A carruagem entrou na cidade e seguiu em desfile com o povo todo aclamando aquele que até então estava perdido na mata e que agora tornara um belíssimo príncipe. Ao chegar no palácio, a princesa, depois de abraça-lo e beija-lo, tomou-o pelas mãos e levou-o na presença de seu pai e de sua mãe, e chorando de alegria disse: papai e mamãe, este é o moço que matou o bicho de sete cabeças e, também, esses são os três cachorros que o ajudou. – E os cachorros não saiam de perto do Joãozinho -. O rei olhou bem para aquele moço de vinte e um

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anos, bonito, e perguntou: Então foi você quem matou o bicho de sete cabeças? Sim! Sim senhor, foi eu que matei o bicho de sete cabeças! O rei, muito sagaz, lhe indaga: E qual é a prova que você me dá? O Joãozinho pegou o pacote que continha as sete pontas das línguas do bicho e entregou para o soberano. O rei examinou muito bem os pacotes e viu que o preto velho havia lhe enganado; o verdadeiro matador do bicho era mesmo o Joãozinho, pois quem cortou as pontas das línguas só pode ser o primeiro. Enquanto que o crioulo, chegando depois, viu o bicho morto e cortou o pedaço que restou das línguas na boca do bicho. Indignado com a trapaça do pai-joão, o rei mandou os guardas chicoteá-lo e leva-lo para a cocheira junto com os burros, e lá, trabalhar puxando carroça.
   E para os festeiros o rei mandou prolongar a festa e aumentar os convidados. De fato, aquela multidão estava muito feliz. Libertou-se do pesadelo, que era o bicho de sete cabeças, e ganharam um príncipe bom, iluminado, honesto, bonito e que mais tarde tornaria rei daquela nação. A festa durou uma semana; aquele reinado progrediu e viveram felizes para sempre...
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   A Barca que andava na água e na terra

   Num reinado distante o rei, por ser muito poderoso, curioso e rico, fez propaganda para o mundo todo que se alguém fizesse uma barca que andasse tanto na água como na terra casaria com a princesa, sua filha. A proposta era tão atraente que, em todas as nações do mundo, as pessoas começaram a fazer a tal barca. Usavam as melhores madeiras de lei que tinham e contratavam os melhores marceneiros para executar o trabalho, porém não conseguiam construir a tal que andasse na água e na terra. Acontecia que todos queriam fazer essa barca e, ao mesmo tempo, queriam esconder o segredo não revelando o que de fato pretendiam fazer. Eram egoístas, começavam, mas não chegavam ao término. Num desses casos, ao passar pela marcenaria, o velho de barbas brancas perguntou ao marceneiro:

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O que o senhor está fabricando? O marceneiro respondeu, eu fabrico arcos de peneira. Então o velhinho disse: arco de peneiras fabricará. Imediatamente começaram sair, a cada machadada que ele dava, arcos de peneira rodando morro abaixo, e com isso não conseguiu fazer peça alguma.
   Porém aconteceu que num certo reinado, onde o povo acreditava em Deus, um sitiante por nome de Joãozinho, muito religioso, falou para seu pai e sua mãe; se Deus me ajudar eu vou fazer essa barca que anda na água e na terra e vou casar com a filha do rei. Seus pais lhes disseram: que Deus te abençoe meu filho. Joãozinho foi para a mata e começou derrubar a primeira árvore; quando inesperadamente lhe aparece um velhinho de cabelos e barbas braças e lhe pede um copo de água e alguma coisa para comer, pois estava com muita fome e sede. Joãozinho, homem de Deus, teve compaixão e serviu o velhinho, dando-lhe de comer e beber. Depois de saciado, o velhinho perguntou ao seu benfeitor: Jovem o que você pretende fazer com esta madeira? Joãozinho lhe contou toda a história da princesa e disse que se Deus lhe ajudasse queria construir a tal barca que andasse na água e na terra, e, por fim, casar-se com a princesa. O velhinho despediu-se dele e disse: Barca fará. Daquele momento em diante a cada machadada que o Joãozinho dava na madeira e pensava numa peça, a tal peça já saia pronta do jeito que ele queria. Em poucos dias a barca ficou pronta. O moço testou na barca, manobrou-a para cá e para lá, falou: barca vai, a barca foi; tornou falar: barca pare, a barca parou. Inspecionou-a toda e viu que tudo estava bom. Então falou para seus pais: Rezem por mim; se tudo der certo, e se Deus quiser, eu voltarei brevemente e casado com a princesa. Pediu a benção dos pais e despediu-se. Entrou na barca e ordenou: barca vai. A barca saiu e foi ganhando velocidade, logo desapareceu na curva do caminho.
   Ele andou o dia e a noite, sem parar, na manhã do dia seguinte havia muita neblina. Ainda no escuro, ele pode ver um homem que corria para todos os lados com um saco de boca aberta nas mãos. Joãozinho parou a barca e chamou aquele homem, que, por sua

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vez, ficou com medo ao ver um barco andando na terra, mas, aos pouco foi chegando e o Joãozinho lhe perguntou: o que você está fazendo, correndo de lá para cá com este saco nas mãos? Eu estou ensacando neblina! - disse o homem. Joãozinho lhe contou toda a história da barca e convidou-o para ir junto como companhia. Eu vou, mas tenho aqui cinqüenta sacos cheios de neblina – retrucou o homem. Pode coloca-los aqui, a barca é grande –ordenou Joãozinho. Carregaram-no e se embarcaram. Joãozinho mandou a barca ir e saíram conversando como bons amigos. Andaram mais algumas horas e viram num certo lugar um outro homem correndo e pulando com uma perna só no meio de uma campina. O Joãozinho achou muito interessante aquela cena e parou novamente a barca, chamou o rapaz que, muito assustado, chegou. O que você está fazendo, correndo nessa velocidade nesse descampado, perguntou o Joãozinho. Eu estou pegando lebre, a minha vida é correr, o moço respondeu gaguejando e ainda assustado. Igualmente como o primeiro o Joãozinho convidou este também. O rapaz catou suas lebres e entrou na barca. Joãozinho dando ordem para a barca partir, saíram os três. Descansaram aquela próxima noite e saíram na madrugada. Logo ao nascer do sol viu um homem deitado na grama na beira do caminho; a grama havia crescido e entrelaçado em seu corpo de tanto tempo que ele estava ali deitado. Pensando que estava morto, Joãozinho parou a barca e foi até ele, porém ao chegar viu que estava vivo e perguntou-lhe o fazia há tanto tempo nessa posição deitado. Estou escutando a grama nascer – retrucou o homem. Venha para participar do meu casamento, eu vou casar com a princesa e gostaria que você fosse comigo. O moço levantou-se, tirou os fiapos de grama que estavam em suas orelhas, subiu na barca e seguiram viagem. Andaram mil quilômetros e quando chegaram numa invernada viram um homem com uma cabeça de boi na boca. O Joãozinho achou estranho aquilo, parou a barca e perguntou: o que você está fazendo com essa cabeça de boi na boca? É que eu já comi o corpo inteiro do boi, agora estou chupando o miolo da cabeça pra ver se mato a minha fome, pois

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tenho muita fome – essa foi a resposta. Também aceitando o convite do Joãozinho, subiu na barca e saíram. Viajaram mais um dia atravessando um sertão e chegaram num grande varjão. Ali se depararam com um homem deitado debruço com a boca no barro tomando o último gole de água daquele açude. O Joãozinho convidou-o para fazer companhia, e ele, antes de aceitar, disse: eu tenho muita sede, acabei de secar esse açude e já estou com sede novamente. Subiu na barca e saíram conversando.
   E o Joãozinho, que agora tinha o escuta grama nascer, o pega lebre, o pega neblina, o come boi e o seca açude como parceiros e amigos, foi lhes contando como fez a barca e quais seriam seus planos depois de casar com a princesa. Barca vai, e barca para; assim viajaram vários dias. Quando chegaram naquele reinado – o qual era seu destino – o povo teve uma grande admiração em ver aquele moço bonito (parecia um príncipe) com cinco amigos saírem do mar e chegarem no castelo dentro daquele barco, em terra firme. A cidade inteira parou para ver o barco.
   A família real já pegou o Joãozinho e o levou para conhecer o palácio; lá ele conheceu a princesa e ela ficou gostando muito dele. Porém o rei era um traidor, o que ele queria era apoderar daquele barco, impondo vários obstáculos para serem vencidos antes do casamento. O que valeu ao Joãozinho, além da princesa ter apaixonada por ele, foi os cinco colegas que ele havia levado junto. Vendo que estava demorando em marcar a data do casamento, o Joãozinho foi falar com o rei para apressa-la, pois precisaria voltar logo; tenho pai e mãe que me esperam – disse ao rei. Então marcaram a data.
   Chegado o dia marcado, o rei chamou o Joãozinho e falou: antes de casar com minha filha você tem que atender alguns pedidos meus. Você tem que buscar duas cestas de alface no reinado vizinho; e não pode atrasar o almoço! Joãozinho ficou triste e foi para o barco. Seus colegas vendo-o assim perguntaram o que havia acontecido. É que o rei pediu para eu buscar alface num lugar muito distante e chegar antes do almoço, como que eu poço fazer isso! Aí o pega lebre falou: eu já estou louco para dar uma corrida,

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fala pro rei se eu posso ir em seu lugar. O Joãozinho foi até ao rei e perguntou se um amigo podia fazer o serviço para ele. O rei, como não acreditava que havia alguém que conseguisse cumprir a promessa, autorizou-o. O pega lebre saiu como um furacão e em menos de uma hora já estava de volta com a verdura nas mãos. O rei vendo que a alface tinha chegado falou para o Joãozinho que ele tinha que comer um estoque de pão velho que havia sido guardado para a guerra, tinha um salão cheio de pães. Novamente o Joãozinho entristeceu-se e chorava de raiva. Ao ver sua tristeza, o come boi falou para seu amigo pedir autorização para que ele comesse aquele pão, pois não agüentava mais de fome. O rei aceitou e o come boi ficou todo contente e saciado após devorar aquela imensidade de pães. Mas, novamente o rei falou para o Joãozinho; se você quer, mesmo, casar com minha filha, você tem que beber dois tonéis de vinho, só depois disso é que eu vou autorizar o vosso casamento. Nessas alturas o Joãozinho já estava bem calejado e nem se entristeceu, lembrou logo do seca açude e pediu sua substituição para o rei. O rei pensou e analisou: correr como um pé-de-vento, tudo bem; comer muito pão, até que não é difícil; mas beber tanto vinho em tão poucas horas, isso eu não acredito! E autorizou. Quando o Joãozinho mandou o seca açude ir beber todo aquele vinho, ele deu até uma risadinha, é comigo mesmo, to morrendo de sede. Foi lá e secou os dois tonéis de vinho e voltou satisfeito.
   Com isso o rei, que não estava entendendo como um homem pôde buscar a alface tão longe em tão pouco tempo, comido tanto pão e bebido tanto vinho sem lhe fazer mal, começou analisar e sentiu que o Joãozinho era um moço diferente, iluminado, abençoado, começou a perturbar-se e ficou com medo do jovem, então consentiu o casamento. – O que aconteceu com o Joãozinho é que ele tinha recebido a graça daquele velhinho que ele havia matado a fome e a sede lá na mata naquele dia em que começou a fazer a barca -. O rei mandou publicar um edito, com os dizeres: Dia tal, às dezoito horas, no castelo real, será realizado o casamento da princesa, minha filha, com o jovem, futuro príncipe,

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Joãozinho. Por ser abençoado o Joãozinho conseguia ver além das aparências, e então falou pros cinco companheiros: Amanhã será o meu casamento, podem festejar, mas fiquem de prontidão, pois eu não acredito no rei, ele ainda poderá nos fazer uma traição.
   O rei mandou seus empregados preparar a festa, e a princesa estava toda contente, mas desconfiada achando que seu pai ainda ia aprontar alguma contra o seu noivo. Chegou o dia esperado e o casamento foi uma maravilha, transcorreu tudo muito bem, havia convidados de vários reinados, foi uma festa especial. Terminado os festejos, como tudo corria bem, o novo casal ainda permaneceu mais alguns dias no palácio; isso para que a princesa pudesse ficar mais algum tempo com sua mãe e receber as últimas instruções sobre a nova vida que agora começava. Passado esses dias o Joãozinho falou para a esposa se preparar que no dia seguinte iam partirem de viagem rumo a nova morada do casal. Na manhã do dia seguinte, despediram-se todos, entraram na barca e partiram. Agora a barca está indo mais cheia, pois além da princesa também está levando todo o dote dela. Já que saíram, o Joãozinho pediu para seus colegas ficarem bem atentos.
   Mal haviam percorrido apenas cem quilômetros o escuta grama nascer chamou o Joãozinho e falou que estava escutando o tropel da cavalhada do rei, e que estavam próximos atrás deles. O Joãozinho falou que já estava esperando isso. Mas que se Deus quiser tudo vai dar certo, nós vamos entrar no mar antes deles nos alcançar, aí estaremos salvos. A princesa recomendou: vamos rezar pedindo a Deus para que possamos chegar ao mar antes que esses soldados do papai nos alcancem, eles vêem armados com espada e lança e nós não temos nenhuma arma. Nisso o pega neblina que também estava na traseira da barca, pediu para o escuta grama nascer ficar de orelhas grudadas no assoalho da barca e quando ouvir que a cavalaria está bem próxima lhe avisar, e disse também: Eu vou mostrar o meu trabalho para essa gente! Não demorou muito o escuta grama nascer chamou o pega neblina e falou: já estão nos alcançando, estão há menos de mil metros de distancia, pode vir aplicar o seu trabalho.

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   Na altura da estrada onde eles estavam, o terreno era acidentado e havia pirambeiras, o pega neblina pegou todos aqueles sacos de neblina que estavam estocados e soltou toda neblina na estrada. No mesmo instante virou uma escuridão que os cavalos e cavaleiros não enxergavam mais nada, e boa parte dos cavalos caíram no precipício, se machucaram e não puderam mais continuar perseguindo. E com isso a barca novamente adiantou deles. Andaram, andaram e o escuta grama nascer deu mais uma escutada e ouviu que os cavalos estavam pertos novamente. Aí o seca açude falou: agora é a minha vez. Foi na traseira da barca e começou fazer xixi; foi soltando toda aquela água do açude e todo o vinho que ele havia bebido, dos dois tonéis. Era água que não acabava mais. Com tanta água na estrada, a cavalhada empacou e os soldados retardaram novamente. E a barca continuou correndo, rasgando estradas e rios que encontrava pela frente. Depois de atravessar vários reinados, e a barca não estar muito longe para alcançar o mar, eis que, novamente, a cavalaria do rei vem chegando perto deles. A princesa tinha muito medo que os soldados do seu pai os alcançassem, pois ela conhecia bem a crueldade deles. Porém o Joãozinho e os colegas estavam confiantes, pois ainda tinham um último trunfo nas mãos, e esse seria o mais eficiente, o come boi. Quando faltavam apenas trinta quilômetros para chegar nas águas profundas do mar, o escuta grama nascer avisou: pelo barulho dos cascos dos cavalos, que estou ouvindo, eles estão bem perto de nós. Ao ouvir isso o come boi, que já estava com dor de barriga, foi na traseira da barca e disse: agora eu vou acabar com eles. Escolheu um trecho da estrada onde tinha barranco em ambos os lados e também muito mato, desceu as calças e soltou o barro fedorento. Foi soltando os cinco bois, a grande quantidade de pão daquele salão, e o churrasco da festa do casamento que havia comido. Com a barca andando em marcha lenta ele foi despejando a lama fedida. Os soldados pensando que fosse uma lama comum e rasinha jogaram os cavalos dentro que, por ser fundo, começaram afundar-se, tanto cavalos como cavaleiros.

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Bem poucos conseguiram sair da lama com vida, a maior parte morreu. Os que saíram com vida não puderam mais montar porque os cavalos e os arreios ficaram lambuzados, fedidos e escorregadios. Arrancaram as calças e as camisas, ficando só de cuecas, e voltaram andando puxando os cavalos pelos cabrestos até encontrarem um rio e tomarem banhos. Só então é que, envergonhados, puderam voltar ao rei. O rei, furioso, queria mandar prende-los, mas, ao saber dos fatos, achou engraçado e começou dar risadas.
    O Joãozinho pôs a barca no mar, atravessou para o outro continente e chegou em casa. Rezou e agradeceu a Deus por ter-lhes protegidos. Seus pais, para comemorar sua volta e a chegada da nora, deram uma festa que durou três dias. Veio gente dos quatro cantos do país para conhecer e festejar o novo casal de príncipes. E viveram felizes para sempre!
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   A Onça e o Compadre Folharada

   Naquele sertão estava chovendo, havia três dias, e os bichos não podiam sair para caçar. A onça morava numa toca de pedras, bem fechadinha e protegida do vento e da chuva. Por não poder caçar e estar com muita fome ficava na porta de sua toca na esperança que ali passasse um bicho para ela pegar. Depois de três dias de espera ela viu um macaco pulando de galho em galho, de cipó em cipó, passar perto da toca debaixo daquela chuva. Ela, muito esperta, já gritou pro macaco e falou: Sai dessa chuva, compadre macaco, você vai ficar doente! Vem aqui para minha casa, ela é grande, aqui está seco e quentinho. O macaco, esperto como é, já imaginou: ela está querendo me pegar. Mas, como a chuva era fria, ele foi chegando e pondo muita atenção nos movimentos que a onça fazia; entrou e se acomodou no fundo da toca. A onça continuou na porta e viu um gambá que passava devagarzinho, meio chué, na sua frente. Chamou também o gambá dizendo: oh compadre gambá, vem aqui na minha casa, aqui está seco, e você

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aí fora molhado pode ficar doente. O gambá, então, chegou e foi lá pro fundo junto com o macaco. A onça, agora, mais contente conversava com os bichos, mas eles só respondiam o que ela perguntava, e fechavam o bico. E nessa alegria, lá da porta, ela viu o tatu passando todo encolhido de frio; e gritou: oi compadre tatu, sai dessa chuva, vem pra cá, tem muito lugar aqui na minha casa. O tatu entrou e foi lá pro fundo. Nessas alturas a onça não conseguia esconder sua alegria e imaginava: Hoje vou ter uma janta reforçada, e, pra isso, nem vou precisar sair nessa chuva pra caçar, pois, a caça já está dentro de casa, é só aguardar o momento certo para pegar e comer.
   Para entreter os três visitantes ela falou: o compadre macaco não quer tocar e cantar umas modinhas comigo? Assim a gente se diverte, e quem sabe a chuva passa. A onça catou a viola e cantou assim: em dia de chuva não falta o que comer, em dia de chuva não falta o que comer... Repetiu várias vezes esse verso. O macaco que sabia que a intenção dela era distraí-los para poder dar o bote, entendeu muito bem o recado. Pegou a viola da mão da onça e respondeu cantando: quem não tem pernas procura jeito, quem não tem pernas procura jeito... Foi repetindo várias vezes esse verso, até que o gambá e o tatu se tocaram e entenderam. O tatu como é um animal lento, entendeu que o macaco estava lhe alertando. À essas horas a tarde ia caindo e os três desinquietos queriam escapar mas não sabiam como; e a chuva não parava. O tatu olhou para os lados e viu um buraco no chão, bem no fundo da toca, encostado na pedra, e planejou: se a onça tentar alguma coisa, eu entro nele. O gambá andava pros lados, mas não encontrava um meio de escapar. O macaco tinha vontade de sair correndo pela porta e fugir, mas tinha medo, pois, a onça podia lhe pegar na saída. Então aumentava sua angústia vendo que a onça estava toda contente. Num dado momento, usando toda sua inteligência, o macaco falou pra onça: Comadre onça, estou com vontade de fazer xixi, não agüento mais, minha bexiga vai estourar, preciso ir lá fora um pouquinho. Porém a onça, que não queria perder nenhum, carinhosamente falou: não amigo macaco lá fora você vai se

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molhar pode fazer xixi aqui dentro mesmo, vai aí num canto da toca e esvazie a sua bexiga. Não, não retrucou o macaco, eu não vou sujar sua casa, e além do mais, sou muito vergonhoso. Por favor, dá-me só uma licencinha, eu vou na beiradinha da toca, ali não está chovendo, faço xixi e volto já. A onça consentiu, mas ficou de olho nele. O macaco pôs o pé fora da porta e deu um enorme salto e se agarrou num cipó. A onça que o observava de perto, imediatamente também pulou, mas não conseguiu agarra-lo; como um corisco o macaco atingiu o topo daquela árvore. A onça vendo que não pegaria o macaco, lembrou-se do gambá que, também, pelo descuido da onça já tinha pulado num tronco de árvore e ia subindo. Do jeito que ela vinha, já pulou e agarrou firme na ponta do rabo do gambá que arrancou todo o couro, porém, o gambá sumiu no meio do mato com o rabo pelado. – muita gente diz que é por isso que o gambá tem a ponta do rabo branco -. Nesse intervim, a onça, que havia perdido o macaco e o gambá, lembrou do tatu e voltou correndo para dentro da toca na intenção de pegá-lo. Porém o tatu já havia entrado naquele buraco que ele estava de olho. A onça ficou morrendo de raiva, mas, pensou, esse tatu eu não perco; ele vai ter que sair do buraco para comer e beber, nessa hora ele cairá nas minhas unhas. Ficou, em vão, mais três dias ali guardando a boca do buraco de tatu. Vendo que ele não saia e que se ela continuasse ali morreria de fome e sede, resolveu sair e dar uma olhada do lado de fora da toca, e também ver se tinha alguma caça por perto. No que passou por detrás da pedra que formava sua toca ela viu o final do buraco por onde o tatu havia fugido. Aí ela enfureceu de vez, não se conformava em ter sido enganada três vezes seguida. Mas ela se consolou dizendo: Dentro dessa mata só tem uma aguada e é nela que todos os bichos vão beber água, pois, então, eu vou ficar de plantão lá na beira d’água. Se eles forem beber água eu pegá-los-ei, e se não forem na aguada morrerão de sede. E assim se fez; ela foi pra beira da mina d’água e ficou vigiando, disfarçadamente. O bicho que estava sofrendo mais era o gambá, porque a onça lhe tinha arrancado a metade do couro do rabo, e desse jeito era fácil

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identifica-lo. Enquanto chovia o macaco bebia da água que empossava nas folhas das árvores, mas quando a sede apertou mesmo, ele se juntou no bando de macacos e foi para a aguada. Ele levou sorte, porque, no meio da macacada a onça não lhe reconheceu e ele, bem atento, pode matar sua sede. O tatu fez o mesmo e também não foi reconhecido. Somente o gambá não podia ir lá, ele já estava morrendo de sede. Todos os dias ele ia perto na aguada, mas não podia chegar, lá ele via que a onça lhe esperava, então voltava com sede e desanimado. Numa dessas tentativas o gambá se lembrou que no meio daquela mata tinha uma picada que a cortava de um lado ao outro, e que todos os dias passava por ali um negrinho carregando um pote de melado que seu patrão o mandava levar para um outro fazendeiro que morava do lado oposto da mata; então teve uma idéia. Foi lá na picada, subiu numa árvore alta, escolheu um galho que ficava bem enriba do caminho e ficou esperando o negrinho passar. Quando o negrinho foi passando o gambá se esticou todo e esfregou o rabo no pescoço dele que, assustado, jogou o pote de melado que espatifou no chão, saiu correndo pensando que fosse uma cobra. O gambá desceu do galho, rolou naquele melado se lambuzando todo e depois rolou nas folhas secas que estavam no chão. As folhas grudaram tanto em seu corpo, a ponto de aumentar em três vezes o seu tamanho. Somente seus olhos e a boca ficaram descobertos sem folhas. Depois disso ele se levantou, aprumou bem seu corpo e foi para a aguada. Foi chegando devagarzinho, devagarzinho até que chegou na água e começou a beber. A onça quando viu aquele bicho quase redondo, sem cabeça, sem orelhas, sem rabo e sem pernas chegar e beber tanta água (já fazia cinco minutos e não parava de beber) ficou assustada e com medo, - pois jamais tinha visto daquele bicho – e falou assim: quanta água bebes compadre folharada! Pode beber sossegado; a água aqui é para todos. O compadre folharada bebeu, bebeu até se estufar e depois foi saindo devagar. Quando se distanciou cinqüenta metros da onça e sentiu-se seguro, ele deu uma chacoalhada tão forte com o corpo que toda aquela folharada caiu no chão, descobrindo seu corpo e mostrando

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quem de fato era que estava debaixo das folhas. Ao ver que era o gambá, a onça ficou louca de vez e bateu encima dele. Porém o gambá subiu numa árvore e sumiu na mata com a barriga cheia de água. Até hoje a onça vive procurando o gambá, mas, ainda não conseguiu encontra-lo.
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   O Causo da Torre da Lua (chapéu me esconde)

   Há muito tempo passado, um senhor lavrador que morava em uma casinha de pau-a-pique, quase dentro da mata, reservava duas horas do dia para caçar, e jamais voltara para casa sem nada nas mãos para comer como mistura no dia seguinte, pois lá havia caças abundantes, tanto de pêlos como de penas. Na casa moravam ele, a esposa e três filhas; e também uma cachorrinha ensinada e de estimação. Todos os dias (sem exceção) quando ele voltava da caçada, era a cachorrinha que lhe vinha encontra-lo no portão. Aconteceu que certo dia ele foi caçar e não matou e nem viu caça alguma, nem de pelos e nem de penas. À tarde ele se preparava para voltar, mas estava triste, não se conformava por não ter matado nada aquele dia. Desanimado, quando ia sair da mata, ele escutou uma voz que falou assim para ele: se você me der quem vir te encontrar, hoje, na chegada de sua casa eu lhe darei todo tipo de caça de pêlos para você matar. – Ele escutava a voz, mas não via ninguém – O caçador relutou em responder, pois ele estimava demais a cachorrinha, porém, a troco de boas caças, ele resolveu aceitar. Desse momento em diante começaram aparecer caças de pêlo de todo tipo e tamanho em sua frente, podia até escolher a qual matar para levar pra casa. Matou quantas quis e voltou para casa contente, pois tinha certeza que era a cachorrinha que vinha lhe encontrar, e cachorro ele encontrava outro logo. Tal foi seu desespero e sua tristeza quando, em vez da cachorrinha, veio sua filha, mocinha, mais velha lhe encontrar e dizendo: nossa, papai, quanta caça o senhor matou, hoje! Entraram em casa e lá ele contou para a esposa e a filha o que tinha acontecido, e que tal dia

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teria que levar a filha para ser entregue àquela voz. A mocinha falou para o pai não ficar triste; ela aceitava ir. Passados três dias ele a levou na beira da mata, e de lá ela desapareceu. O pai e a mãe ficaram tristes vários dias, mas, como não tinha mais jeito, numa manhã o marido falou pra mulher: hoje eu vou caçar passarinhos, estou vendo que acabou nossa mistura. Pegou sua espingarda e foi para a mata. Também neste dia ele não conseguia matar nada, e outra vez a voz misteriosa lhe pediu, como presente, quem viesse lhe encontrar na chegada de casa. Agora ele ficou mais pensativo ainda, mas, imaginou, certamente hoje será a cachorrinha, e aceitou. Desse momento para frente apareceu passarinho de todo tipo para ele matar. Depois de meia hora ele encheu a sacola e foi-se embora. Ao ver, de longe, sua casa ele entra novamente em desespero, é que, no lugar da cachorrinha, quem vinha correndo ao seu encontro era sua filha do meio. Novamente ele conta o caso, e sua filha assim falou: não fique triste papai, eu vou junto com minha irmã, já estou com saudade dela. Passados três dias ele levou a filha do meio, que também desapareceu. Ele ficou triste vários meses e prometeu que não iria mais caçar. Um belo dia ele falou para a mulher: hoje eu vou pescar. Pegou sua tralha e foi para o rio. A tarde já vinha chegando e ele não tinha pegado nenhum peixe; nem beliscado a isca, ao menos. Já pensando em desistir da pescaria, ouviu-se pela terceira vez a voz que lhe pedia quem viesse o encontrar, por troca de uma boa pescaria. Dessa vez ele tinha certeza que era a cachorrinha e aceitou, na hora. Daí pra frente pegou peixe de toda qualidade, e só grandes. Ao chegar perto de casa, foi com grande angústia que ele viu sua filha caçula lhe encontrar e perguntar: papai o senhor pegou peixes? Sim filha, peguei. – respondeu ele – Mas daqui a três dias tenho que te levar na beira do rio e te deixar lá. Não fique triste, vou juntar-me com minhas irmãs – respondeu a menina. E assim o casal perdeu também a filha caçula. O pobre homem e a pobre mulher ficaram sós naquela casa, sempre pensando; onde será que estão nossas filhas. Assim passou-se um ano, e, num belo dia, sua esposa engravida de novo e dá a luz um belo menino, ao qual põem o

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nome de Joãozinho. A partir desse dia voltou a alegria neste lar. O menino foi crescendo e os pais contaram-lhe as histórias de suas irmãs. Ele não se conformava pelo jeito que tinha perdido suas irmãs. Quando o moço completou vinte anos falou para os pais: hoje eu vou sair pelo mundo procurar minhas irmãs, e só voltarei quando as encontrar. Os pais argumentaram: mas, filho, procurar aonde, se nem sabemos quem é que levou nossas filhas? Mesmo assim ele decidiu ir. Arrumou sua bagagem e saiu andando a procurá-las. Após ter andado uma légua ele viu dois irmãos brigando, na estrada. Joãozinho parou, apartou-os e em seguida perguntou: por que motivo estão brigando? Eles responderam que era por causa de um chapéu e um par de botas velhos que haviam recebido de herança do pai. Mas vocês estão brigando por essas coisas velhas? – indagou o Joãozinho. É que você não sabe o valor deste chapéu e destas botas! – responderam os moços. Por que, sendo assim tão velhos, eles ainda têm tanto valor? – tornou perguntar Joãozinho. Então os irmãos explicaram ao Joãozinho e disseram: É que estas botas, após você calçá-las em seus pés, te levará aonde você quiser. É só fechar os olhos e dizer assim para elas; botas me levem para tal lugar. No mesmo instante você estará lá. E o chapéu é só coloca-lo em sua cabeça e pedir; chapéu me esconde. No mesmo instante ninguém conseguirá te ver. Ao ouvir isso o Joãozinho ficou entusiasmado, comprou os objetos por um bom preço e pôs fim na briga dos irmãos. Agora com as botas nos pés e o chapéu na cabeça Joãozinho caminhou alguns passos, parou, fechou os olhos e ordenou: Botas me levem na casa da minha irmã mais velha. Imediatamente, ao abrir os olhos, ele se viu na frente da casa de sua irmã. – Era uma mansão muito bonita, num lugar bem estranho, parecia outro mundo. Ele aproximou da casa e bateu no portão. Saiu da casa uma moça muito bonita que, ao vê-lo, ficou desesperada e falou: como é que você conseguiu vir até aqui? Jamais veio um estranho neste lugar; te peço que suma daqui! Se o meu marido encontrar uma pessoa aqui ele mata, e mata a mim também. Por favor, vá embora! O Joãozinho falou: minha senhora deixe-me falar só uma palavra; eu sou teu irmão!

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Não tenho irmão! – exclamou, ela. Então para comprovar sua irmandade ele falou os nomes, do pai, da mãe, das três irmãs e acrescentou; eu nasci depois que você tinha saído de casa, e papai e mamãe estão bem e te mandam a benção. E tem mais uma coisa, você ainda se lembra da boneca e do vestido florido que você tinha quando morava na casa do papai? Sim, lembro-me. – respondeu ela. Joãozinho abriu a mala, tirou a boneca e o vestido, e mostrou para ela que, reconhecendo, acreditou, abraçou-o e chorando de emoção ainda disse: Você já me deu todas as provas que é realmente meu irmão, porém não consigo entender como é que você conseguiu chegar aqui neste lugar encantado. Aqui não entra e nem sai ninguém. Então eu te peço, por favor, vá embora, se meu marido chegar e te ver matará nós dois. Ele não admite mais ninguém no seu reino encantado. O Joãozinho falou: tenha calma minha irmã, e explicou sobre as botas e o chapéu, encantados. Se ele chegar o chapéu me esconde. Para ter certeza ela pediu que ele mostrasse como é que funcionava o chapéu, então ele desapareceu e tornou a aparecer. Só assim é que ela sentiu segurança e o levou-o para dentro de casa, serviu-lhe água e almoço. Depois combinou que, quando seu marido estiver chegando, ele escondesse até que ela conseguisse convencer seu marido que a pessoa que está ali é verdadeiramente seu irmão. Era sempre às seis horas da tarde que o príncipe encantado voltava para casa. Quando faltavam cinco minutos para ele chegar, a irmã pediu para o Joãozinho se esconder; ele colocou o chapéu e pediu; chapéu me esconde. Já que o príncipe chegou percebeu que havia coisa estranha no palácio, andava de lá para cá e vasculhou todo o palácio, de cima em baixo, e falava pra mulher: Eu sinto cheiro de carne humana! A esposa muito carinhosa e jeitosa retrucou: Meu amor é cheiro do peixe que estou assando para o nosso jantar. Foi falando, conversando até conseguir acalma-lo. Quando ela viu que ele estava calmo, sentiu-se segura e lhe fez uma pergunta: por acaso se meu pai ou se meu irmão vier aqui em nossa casa o que você faria? Eu daria cinco dias de festa! – respondeu ele. Então ela deu um jeitinho e foi onde estava escondido o irmão e falou baixinho: pode

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aparecer. O irmão apareceu e foi recebido com cinco dias de festa; permanecendo vários dias na casa do cunhado e assim ficaram todos amigos. O cunhado gostou tanto dele e prometeu lhe ajudar dizendo: Joãozinho todas as vezes que você precisar de ajuda, é só chamar-me assim; Vale-me Rei dos Bichos. Na mesma hora eu estarei aos teus pés.
   Após esses dias ele despediu-se da irmã e do cunhado e ordenou para a bota: bota põe-me na casa da minha irmã do meio. Num piscar de olhos já se encontrava em frente de outra mansão, mais linda que a primeira, e que era onde sua irmã do meio morava. Também ali aconteceu igualzinho o que havia acontecido na casa da irmã mais velha. – Falou o nome dos pais, das irmãs, apresentou outra boneca e outro vestido, teve festa, e acrescentou que já havia visitado a irmã mais velha. Ali também era um reino encantado. A única diferença em relação à primeira casa foi quando o príncipe sentia cheiro de carne humana, então a irmã do meio dizia que estava assando um coelho para o jantar –. Depois de vários dias, ao se despedir, seu cunhado lhe disse que se precisasse de ajuda podia chamá-lo, dizendo assim: Vale-me Rei dos Passarinhos. Que imediatamente eu vou te ajudar. Joãozinho calçou as botas e pôs o chapéu na cabeça, fechou os olhos e ordenou: Botas me põem na frente da casa de minha irmã mais nova. Abriu os olhos e se viu na frente do grande palácio, bateu palmas e ela veio lhe atender. Neste reino ele ouviu também da sua irmã mais nova, tudo o que tinha ouvido das duas irmãs mais velhas e as coisas foram transcorrendo como nos outros dois reinados, porém aqui a princesa disse que estava assando um frango para o jantar. Ele disse que havia passado nas casas das irmãs mais velhas e que lhe trazia um abraço delas. Depois de festejarem muito e de ter passados alguns meses neste reinado, o príncipe falou para o Joãozinho que se algum dia precisar de ajuda, pode me chamar que te atenderei na hora. È só dizer: Vale-me Rei dos Peixes. E também disse assim para o Joãozinho, você já tem idade para se casar, se você quiser, eu conheço uma princesa lindíssima, muito rica, e sei aonde ela mora.

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É verdade, é muito difícil chegar onde ela mora, mas, com estas botas, para você será fácil. O rei pai da princesa é bravo, muito velho, e seu reinado é longínquo, é na Torre da Lua e o nome da princesa é Branca de Neve. Ela quer se casar, mas por ser um lugar distante não aparece nenhum pretendente; e tem mais, seu pai já passou dos cem anos, não morre e nem a deixa casar. Joãozinho falou pro cunhado, eu topo essa parada. Despediu-se da irmã e do príncipe, fechou os olhos e ordenou que as botas lhe transportassem para a Torre da Lua e lhe pusesse na frente do palácio da Branca de Neve.
   Imediatamente ele chegou à frente do palácio daquela linda princesa. - Este palácio e este reinado eram mais bonitos e mais ricos que os que suas irmãs moravam -. Bateu palmas e esperou. Passados uns dez minutos abre-se a grande porta do castelo e aparece a linda princesa, toda brilhante, seu vestuário reluzia, ela brilhava da cabeça aos pés. Brincos de ouro, colares de ouro, anéis de brilhantes; ela brilhava como brilham as estrelas no céu. Assustada, ela perguntou: Como você nos encontrou? Faz muito tempo que aqui não vem mais ninguém! E perguntou também: Quem foi que deu o meu endereço a você? Joãozinho respondeu que quem lhe havia dado o endereço era seu cunhado, o rei dos peixes. E conversando com ela contou sobre o segredo das botas e do chapéu. A princesa achou muito interessante e demonstrou estar gostando do Joãozinho. Ele percebeu o interesse dela e lhe perguntou: sendo você tão linda e rica, por que motivo ainda não se casou? Ela lhe contou: Olha Joãozinho, aqui não vem ninguém, neste castelo só moramos eu e meu pai, ele já passou dos cem anos, não morre e nem me deixa casar; meu pai não quer mais ninguém em seu reinado. Ele não vai morrer nunca, e por isso eu não posso casar! Joãozinho achou estranho e indagou: não vai morrer nunca, como? Ela foi dizendo, eu estou maravilhada com você, então por isso vou te contar um segredo. Meu pai não vai morrer nunca porque a vida dele está lá no fundo do mar vermelho, e está dentro de uma enorme caixa de bronze, dentro da caixa de bronze tem uma caixa de aço, dentro da de aço tem uma de ferro,

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dentro da de ferro tem uma de madeira, dentro da caixa de madeira tem uma pombinha, dentro da pombinha tem um ovo e dentro do ovo tem uma velinha acesa; para ele morrer é preciso que alguém assopre e apague essa vela. Por aí você vê, ninguém conseguirá fazer isso, e é por isso que ele nunca vai morrer. Mesmo que alguém tente é muito difícil de dar certo. Se por acaso, quando alguém quebrar a caixa de madeira, a pombinha escapar, ela irá direto para as mãos do velho encantado, meu pai, com isso ele matará a pomba, pegará o ovo e esconderá novamente, e se ele conseguir esconder o ovo num outro lugar, ninguém mais descobrirá onde estará a sua vida. Se de fato isso acontecer jamais ele morrerá. O Joãozinho falou para a princesa: Para casar com você eu topo qualquer desafio; e foi para o mar vermelho. Chegou na beira da praia, entrou na água e pediu: Vale-me Rei dos Peixes! Na mesma hora apareceram em sua volta todos os tipos de tubarões, baleias e peixes que existia naquele mar vermelho. Ele ordenou aos peixes que fossem ao fundo do mar e lhe trouxessem aquela caixa de bronze. Os peixes afundaram na água e subiram empurrando aquele pesado caixão até a superfície das águas na praia. De posse da caixa de bronze, Joãozinho falou: vale-me Rei dos Bichos; como num passe de mágica, lhe apareceram milhares de carneiros, bem cabeçudos, e já foram dando cabeçadas na caixa, quebrando-na. E continuaram quebrando as demais, a de aço, de ferro, e, por último, a de madeira. Quando a caixa de madeira foi quebrada a pombinha saiu voando, rapidamente, com destino às mãos do velho rei que, a essas alturas, já se encontrava acamado em seu palácio. Joãozinho, mais que depressa, gritou: Vale-me Rei dos Pássaros. Imediatamente apareceram gaviões, de todos os lados, e bateram em perseguição em cima da pombinha, agarraram-na com suas garras e a trouxeram, já morta, até as mãos de Joãozinho. Com uma faca ele abriu a pomba, pegou o ovo e foi para o castelo. Lá, junto com Branca de Neve, ele entrou no aposento do rei, que se encontrava muito mal, quase morrendo. – É que a partir do momento em que os peixes começaram a tirar a caixa de bronze, que guardava sua vida, do fundo do mar ele

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começou a ficar doente, e a doença foi se agravando a cada caixa que era quebrada. Só havia tido uma pequena melhora, no momento, quando a pombinha voara e chegara perto dele, porém, quando os gaviões a mataram-na ele quase morreu também -. Com o ovo nas mãos, aos pés da cama do rei, Joãozinho e Branca de Neve quebraram-no e pegaram a vela acesa nas mãos. Ao ver sua vida nas mãos deles o rei malvado pedia que a filha lhe entregasse a vela, porém ela exitou e não lhe entregou. Nesse momento uma ventania, que entrara pela janela do quarto, apagou a velinha e o velho rei morreu. Passados alguns meses, Joãozinho casou-se com Branca de Neve, herdou aquele reinado e ficou bilionário. E assim viveram felizes para sempre.
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   A Princesa e os setes pares de sapatos

   Existia em um reinado uma princesa que gastava sete pares de sapatos por noite e ninguém descobria aonde ela ia e o que ela fazia para gastar tanta sola se sapato numa noite só. O rei punha guarda para descobrir o mistério, mas nenhum conseguia segui-la. Então ele fez um edito e colocou-o em praça pública, com os seguintes dizeres: “Quem descobrir aonde a princesa vai dançar todas as noites, onde gasta sete pares de sapatos, como prêmio, casará com a princesa e será herdeiro do meu reinado. Porém, após tentar o intento, se falhar, será enforcado por decreto do rei”.
   Certo dia o Pedro Malazarte passando por aquela cidade viu a placa e se interessou pelo assunto. Informou-se onde ficava o palácio e foi falar para o rei que naquela noite ele ia ficar de guarda e seguir a princesa, pois queria ser herdeiro do reino. O rei lhe garantiu que se de fato descobrisse o mistério ele casaria com a princesa, sua filha, mas acrescentou, que se falhasse, ele seria enforcado em praça pública, ao meio dia, do dia seguinte. Em seguida o rei chamou o Pedro Malazarte para dentro do castelo e mostrou o quarto em que ele ia passar a noite para vigiar a princesa. A porta do seu quarto era de frente com a porta do quarto

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da princesa. Às dez horas da noite o Pedro entrou e foi descansar. O Pedro Malazarte era muito esperto, seria muito difícil alguém conseguir engana-lo.
   Logo que se deitou, ele escutou bater em sua porta e foi atender. Ao abri-la ele se deparou com a linda princesa que lhe falou: Boa noite seo Pedro, o senhor me desculpe por eu ter-lhe acordado a essas horas da noite, mas, é que eu tenho um vinho, estrangeiro, muito bom, é fraquinho, mas é muito gostoso, e sempre que há hóspede em nossa casa nós servimos desse vinho. O Pedro aceitou o vinho com muito prazer, porém, como ele era o Malazarte, não caiu no laço da moça. Ele pegou o copo de vinho na mão e levou-o à altura da boca, porém despejou-o por dentro do colarinho da camisa, virou para ela e disse que o vinho era bom de verdade. Ela se animou e lhe ofereceu mais um copo; e foi para seu quarto, pensando: Daqui a pouco esse bobo estará dormindo, e amanhã ao meio dia estará na forca.
   – Naquele vinho ela colocava um sonífero, e o guarda, após tomar, dormia até altas horas do dia, acordando somente após ela ter voltado do palácio das danças, assim ele não conseguia descobrir o mistério. O guarda só via - após o rei manda-lo acordar, no outro dia - os sapatos gastos, mas não sabia dizer nada sobre a princesa, e por isso já haviam morrido vários, na forca -.
   O Pedro “malandro” não tinha dormido e escutou ela sair e saiu atrás. Enquanto estavam dentro da cidade tinham a claridade das luzes, então ele caminhava mais distante para ela não percebê-lo, porém, ao sair da cidade, ficou escuro, ele caminhava perto dela para não perdê-la de vista. Caminharam, caminharam... Certo momento ela parou e trocou o primeiro par de sapatos. Os sapatos velhos ela os escondeu na beira da estrada, calçou os novos e seguiu andando. Ele observou bem aonde ela escondeu-os e continuou seguindo-a.
   Depois de andarem muito, chegaram à beira de um rio, largo e fundo. Escondido, ele ouviu ela dizer esta fórmula mágica: ‘Bilisquitisqui quem dormi, dormi; quem vela, vela; seca o rio da Prata que eu quero passar’.

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Quando ela terminou de falar, as águas do rio abriu-se para os dois lados, e ela atravessou o rio de pé enxuto. O Pedro Malazarte, que não era bobo, gravou bem as palavras na mente e também às pronunciou: Bilisquitisqui quem dormi, dormi; quem vela, vela; seca o rio da Prata que eu quero passar. Também para ele o rio se abriu. Ele passou e continuou seguindo a moça.
   Atravessaram um campo florido, andaram bastante e ela trocou mais um par de sapatos; enquanto o Pedro observava o local em que ela escondia os sapatos usados.
   Andaram mais um pouco e chegaram às margens de um outro rio, maior que o primeiro. Ela olhou para as águas do rio e falou: Bilisquitisqui quem dormi, dormi; quem vela, vela; seca o rio do ouro que eu quero passar. O rio se abriu e ela passou. O Malazarte fez o mesmo e continuou seguindo-a. Andaram muito, atravessaram uma floresta e chegaram no rio dos Diamantes. A princesa falou as palavras mágicas mandando o rio dos Diamantes secar e atravessou-o. O Pedro Malazarte atravessou também, e seguiram a viagem. Logo, na frente, a princesa trocou mais um par de sapatos e o Pedro ficou de olho no esconderijo. E pé na estrada a caminhar. Ao chegarem num descampado, olhando no horizonte, ele começou a vislumbrar a claridade das luzes da cidade onde ficava o palácio que a princesa ia dançar com seu namorado. – Este palácio era encantado e era nele que as princesas e príncipes encantados dançavam -.
   Chegaram no palácio e a princesa encontrou com seu namorado; entraram e foram dançar. O Pedro Malazarte, antes de entrar, se arrumou bem, pôs uma roupa bonita (qual um príncipe) para disfarçar e entrou no meio da multidão. Assim a princesa não o reconheceria, e deste modo ele pôde seguir de perto todos os passos dela. Lá dentro ela trocou mais um par de sapatos e, com muita esperteza, o Pedro catou-os e pôs em sua sacola.
   Divertiram-se muito, e quando foi às duas horas da madrugada a princesa com o seu par saíram fora do salão e iam se despedir, nisso o Pedro Malazarte, que era muito esperto pegou seu canivete bem afiado, pulou no pescoço do príncipe e cortou-lhe uma das

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orelhas, depois saiu correndo no meio da escuridão com a orelha do namorado dela no bolso. Continuou correndo e catando os pares de sapatos usados, falou as palavras mágicas e atravessou os três rios de volta para casa. Chegou antes de clarear o dia, foi direto para seu quarto e fingiu que estava dormindo.
   Passadas algumas horas ele escuta a princesa chegar choramingando. De seu quarto ele escuta-a chorar e reclamar dizendo: quem será que cortou a orelha do meu namorado? De seu quarto, ele sorria, pois pensava, palavra de rei não volta atrás, e eu com essas provas, tenho certeza que vou casar com a filha do rei; ela vai ter uma grande surpresa quando chegar lá na praça.
   Chegado o meio dia o Pedro Malazarte foi para a praça - que já estava lotada com a multidão de súditos - era lá que o rei fazia o interrogatório, se o guarda teria visto e tivesse provas casaria com sua filha, se do contrário, ali mesmo era enforcado. O Pedro chegou e o carrasco mandou que ele subisse no palanque, e já lhe pôs o laço da corda no pescoço. A multidão se aglomerava e gritava, viva ao rei. O rei chegou e começou o interrogatório, dizendo: Senhor Pedro Malazarte pode me dizer o que o senhor viu, e me mostrar as provas, se o senhor às tiverem, a respeito dos sapatos usados da princesa! O Pedro respondeu: Senhor rei eu tenho coisas para lhe contar e tenho provas para lhe mostrar, mas, primeiro mande tirar essa corda do meu pescoço! O rei lhe atendeu e o carrasco tirou-lhe a corda. Então o Pedro continuou dizendo: Ontem à noite eu já estava deitado, na cama, quando a princesa saiu de seu aposento e veio até o meu quarto, ofereceu-me um vinho dizendo que era muito gostoso e me deu um copo cheio. Eu, porém, insinuei que bebi, mas não bebi, apenas deslizei o copo sob meu queixo e derramei a bebida por dentro do colarinho de minha camisa. Ela voltou para seu quarto e eu fiquei só na escuta para ver a hora em que ela saía. Quando foi lá pelas onze da noite eu escutei quando ela abriu a porta de seu quarto e saiu; também eu saí atrás. Ela saiu da cidade e eu a acompanhei à distância. E fomos caminhando...

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

   - O Pedro Malazarte narrou para o rei todos os fatos acontecidos com a princesa, naquela noite; sobre os sapatos que ela ia trocando e escondendo, e que na volta ele foi catando; sobre as palavras mágicas para atravessar os rios; sobre o palácio encantado; e por fim falou que tinha cortado a orelha do namorado dela -.
   Diante dos fatos o rei pediu que ele mostrasse as provas, no que o Malazarte tirou da sua sacola os sapatos usados, e tirou de seu bolso a orelha do rapaz e os entregou ao rei. O rei mandou um empregado levar as provas para o palácio, e falou para o Pedro Malazarte: Amanhã você vai ao meu palácio para nós marcarmos a data de seu casamento com a princesa, minha filha.
   Com a pronúncia do rei toda aquela multidão o aplaudiu, e daquele dia em diante não morreu mais ninguém na forca naquele reinado.
   Pedro Malazarte casou-se com a princesa e, mais tarde, tornou-se rei daquele povo. Esse Pedro era cheio de arte, com ele ninguém podia mesmo!
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Homenagem

Antes de terminar vou relacionar os nomes dos meus colegas Congregados Marianos da igreja de São José, de Colina (SP), nos anos 1946/49:
Pe. Amaro Muniz (pároco), José Maciel (sacristão), Atílio Gardini, Augusto Arduini, João Paro, Antonio Paro Filho, Guerino Tônus, João Nunes Fernandes, Santo Girardi, Hermínio Basso, Benedito Mendonça, Sebastião A. de Oliveira, Joaquim Menezes Filho, Moacir Menão, Nestor de Oliveira, Guido Brait, João Brait, Antonio Basso, José Jardim, Marcelo Polizeli, Emílio Girardi, José Mamprim, Antonio Marini, Avelino Sperque, José Staliam, Neném Brait, Felício Latra, Antonio Areias, Geraldo Torquato, Francisco Moreli, João Latra, Candinho Brait, João Furini, Jacinto Pascão, Diogo Garcia, Argemiro da Silva, Sebastião José dos Santos, Vladimir Rodrigues, Joaquim Baiano, Magrorio Girardi, José Cuzulim, Manoel Manta, Arlindo Maciel, José (da Cândida) Ribeiro, Geraldo Basso, Domingos Girardi, Romano Girardi, José Scarmato, etc.

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira

Grupo Escolar:
O grupo escolar do Monte Belo foi construído no início dos anos cinqüenta. O mestre de obra da construção foi o Adelino Basso, meu colega de mocidade. Eu morei cinco anos em frente desta escola, e gostava muito. Da minha casa eu olhava para o grupo e via e ouvia muitas coisas. Via a jardineira passar cheia de passageiros; via as crianças brincarem na hora do recreio; sempre que olhava eu via o Elpídio Alves (que era zelador) na beira da cerca olhando para os lados da estrada e mexendo com alguma coisa. Lembro também que nos três dias de carnaval os congregados marianos do Monte Belo, de Colina e de cidades vizinhas faziam retiro espiritual, enclausurados nesse grupo escolar. Levavam colchões e esparramavam sobre o assoalho duas classes, que serviam como dormitórios. De casa eu ouvia eles cantando e rezando, e via de manhã, ainda escuro, eles irem em procissão até a capela, e lá o padre José Figos celebrava a missa e eles recebiam a comunhão. Terminada a missa, novamente em procissão e contemplação, eles voltavam para a escola, tomavam café e continuavam nas orações, meditações, mortificações; cantavam e louvavam ao Senhor. Por ser perto, de casa eu ouvia e gostava. Nessa época meu filho José era congregado e também participou deste retiro espiritual.
Sempre que vou ao Monte Belo e vejo aquele Grupo, sinto um aperto no coração e de meus olhos caem lágrimas. Não vejo mais a casa que morei e nem o senhor Elpídio no pátio da escola olhando a meninada brincar. Só sinto lembranças e saudades!

   ...E assim, estou terminando de contar algumas historinhas de minhas lembranças.
   Acredito que meus filhos, netos, bisnetos e gerações futuras - de minha família - sentirão muito prazer em lê-las e recordarão com saudade, mas, também, com orgulho deste patriarca que é amante da leitura, da justiça, da honestidade, do trabalho, da família...
   Por me sentir um homem muito abençoado por Deus, me vejo no dever e tomo a liberdade em invocar o nome do Altíssimo e pedir suas bênçãos a todos os meus descendentes - de agora e de gerações futuras -, para sempre!
   Deus vos abençoe!
N. O.

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Minhas Lembranças - Nestor de Oliveira



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O meu jardim continuará bonito
Se na primavera a chuva continuar
As rosas vermelhas exalarão perfumes
Causando alegrias e, até, ciúmes...
E os beija-flores irão gostar.



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Nestor de Oliveira e Maria Pires de Oliveira
Quando namorados e com cinqüenta e oito anos de casados

* Capa do livro: Sede da fazenda do vovô, onde nasci



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Nestor de Oliveira
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Nestor de Oliveira Filho
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